Amor nas Alturas III
Capítulo 17 — A Farsa da Rendição
por Camila Costa
Capítulo 17 — A Farsa da Rendição
O sol da manhã banhava a fazenda em tons dourados, um espetáculo que contrastava dolorosamente com a tempestade que se formava no interior de Isabela. Ela se olhou no espelho rachado do quarto, um reflexo pálido e assustado. A noite de planos e de um fio de esperança não havia dissipado o peso do medo, mas lhe dera uma nova força: a da determinação. Ricardo a queria submissa, derrotada. Pois bem, ele teria a sua farsa.
Enquanto tomava o café da manhã, servido por uma das poucas empregadas que ainda não haviam sido dispensadas por Ricardo, Isabela mantinha o olhar baixo, evitando o contato visual. Ricardo a observava com um ar de superioridade, deleitando-se com o que ele interpretava como sua rendição.
“Bom dia, meu amor”, disse ele, com um sorriso que não alcançava os olhos. “Vejo que está mais… ponderada esta manhã.”
Isabela forçou um sorriso fraco. “Bom dia, Ricardo. A noite me fez refletir. Você tem razão. Não adianta lutar contra o inevitável.” As palavras soavam falsas até para ela mesma, mas precisavam convencer Ricardo. Ela precisava dele acreditando que a batalha estava ganha.
Ricardo riu, um som rouco de satisfação. “Excelente, Isabela! Essa é a mulher que eu conheço. Inteligente. Você sabe quando aceitar o seu destino.” Ele se serviu de mais café, seus olhos fixos nela. “Então, você está pronta para fazer o que combinamos?”
O estômago de Isabela se apertou. A tarefa que ele lhe impusera era cruel: ir até Gabriel e destruí-lo com mentiras. “Sim, estou pronta”, respondeu, a voz firme, controlada. Ela imaginou o olhar de Gabriel ao ouvir aquelas palavras, a dor que elas causariam, e sentiu um nó na garganta. Mas ela não tinha escolha. Era um sacrifício necessário.
“Ótimo”, disse Ricardo, levantando-se da mesa. “Eu mandei preparar o seu carro. Um dos meus homens a acompanhará, claro. Para sua segurança. E para garantir que você cumpra a sua parte do acordo.” Ele a beijou na testa, um gesto possessivo que a fez sentir repulsa. “Faça um bom trabalho, Isabela. Por nós dois.”
Enquanto se preparava para sair, Isabela sentiu os olhos de Pedro sobre si. Ele estava no pátio, arrumando algumas ferramentas, mas seus olhos se encontraram por um breve instante. Um aceno quase imperceptível de cabeça de Pedro a assegurou de que ele estava ciente do plano. A esperança, antes um fio, agora se fortalecia.
O motorista de Ricardo, um homem corpulento e de poucas palavras chamado Marcos, a aguardava ao lado de um carro luxuoso, mas que ela sentia como uma gaiola dourada. Ela entrou, sentindo o cheiro de couro e o peso do olhar atento de Marcos. A viagem seria longa e tensa.
Durante o trajeto, Isabela se concentrou em memorizar cada detalhe da paisagem, cada curva da estrada, cada sinal. Se algo desse errado, ela precisaria de todas as informações possíveis. Ela pensava em Gabriel, imaginando seu rosto confuso, depois magoado, e finalmente destroçado pelas suas palavras. A culpa a corroía, mas a imagem de Ricardo triunfante, de Gabriel preso, era um horror ainda maior.
Quando o carro finalmente parou em frente ao prédio onde Gabriel morava, Isabela respirou fundo. Era agora ou nunca. Ela desceu, sentindo o olhar de Marcos em suas costas.
“Espere aqui”, disse ela, a voz controlada. “Preciso resolver isso sozinha.”
Marcos hesitou por um momento, mas viu a determinação no olhar dela. Ele assentiu, mas permaneceu perto, um lembrete constante da ameaça que pairava sobre ela.
Ao subir no elevador, Isabela sentiu o coração disparado. Cada andar que passava era uma tortura. Quando as portas se abriram no andar de Gabriel, ela o viu. Ele estava ali, parado no corredor, como se a estivesse esperando. O alívio e a surpresa em seu rosto se transformaram em confusão ao vê-la.
“Isabela? O que você está fazendo aqui? Eu pensei que…”, ele começou, mas ela o interrompeu.
“Gabriel, eu preciso falar com você. Agora.” A voz dela era urgente, carregada de uma tristeza que ele reconheceu.
Ele a puxou para dentro do apartamento, fechando a porta atrás de si. “O que aconteceu? Você está bem? Ricardo te machucou?” A preocupação em seus olhos era palpável, e isso, de alguma forma, a fez se sentir ainda pior.
Isabela lutou para conter as lágrimas. Ela precisava ser fria, calculista. “Eu… eu não estou bem, Gabriel. E eu vim aqui para te dizer a verdade.” Ela fez uma pausa, buscando o momento certo. “A história toda… tudo o que aconteceu… foi culpa minha.”
Gabriel a olhou, confuso. “Como assim, culpa sua? Isabela, o que você está dizendo?”
“Eu… eu nunca te amei de verdade, Gabriel”, as palavras saíram como um veneno, cada sílaba uma facada em seu próprio peito. Ela viu o choque tomar conta do rosto dele, a incredulidade substituída por uma dor profunda. “Tudo foi um plano. Um plano para te destruir. Eu trabalhei com o Ricardo o tempo todo. Ele me usou, e eu me deixei usar. Eu te enganei, Gabriel. Eu te traí.”
As lágrimas finalmente começaram a rolar pelo rosto dela, mas ela não se permitiu parar. Ela precisava que ele acreditasse. “Eu voltei para ele, Gabriel. Eu estou com ele agora. Eu nunca quis você. Tudo foi uma mentira.”
Gabriel deu um passo para trás, como se as palavras dela tivessem o atingido fisicamente. A cor sumiu de seu rosto, e seus olhos, antes cheios de amor e preocupação, agora estavam vazios, devastados. Ele a olhou por um longo momento, como se estivesse tentando encontrar a mulher que ele conhecia naquela figura que proferia aquelas palavras cruéis.
“Isabela… não… você não pode estar falando sério”, ele sussurrou, a voz embargada pela emoção.
“Eu estou falando sério, Gabriel. Eu sinto muito. Mas essa é a verdade. Eu não sou a mulher que você pensa que sou.” Ela virou as costas para ele, incapaz de suportar a visão de sua dor. “Eu preciso ir agora.”
Ela saiu do apartamento sem olhar para trás, o coração em pedaços. No corredor, Marcos a esperava, seu semblante impassível. Ela entrou no carro, o corpo tremendo. A farsa estava completa. Ela havia plantado a semente da destruição na alma de Gabriel. Agora, restava esperar que Pedro pudesse resgatá-la antes que a vingança de Ricardo a consumisse por completo.
Enquanto o carro se afastava, Isabela deu uma última olhada para a janela do apartamento de Gabriel. Ela sabia que ele estaria lá, olhando para o nada, com o coração em cacos. A dor que ela via em seu rosto era a prova de que seu sacrifício, por mais cruel que fosse, estava tendo o efeito desejado. Ela estava se destruindo para protegê-lo. Agora, só restava esperar que a liberdade que ela estava comprando valesse o preço.