Amor nas Alturas III
Capítulo 18 — A Voz da Esperança e o Plano Secreto
por Camila Costa
Capítulo 18 — A Voz da Esperança e o Plano Secreto
O silêncio que se seguiu à partida de Isabela do apartamento de Gabriel era ensurdecedor. Gabriel permaneceu imóvel por longos minutos, o corpo rígido, a mente em um turbilhão de descrença e dor. As palavras de Isabela ecoavam em sua cabeça, cada uma delas uma lâmina afiada perfurando sua alma. Ele a olhou, a imagem dela virando as costas e partindo, gravada a fogo em sua memória. A mulher que ele amava, a mulher com quem sonhava um futuro, tinha acabado de lhe dizer que tudo era uma mentira.
A incredulidade era a primeira camada, mas logo a raiva começou a borbulhar. Raiva pela traição, raiva por ter sido enganado tão cruelmente. E por baixo de tudo, uma tristeza avassaladora, uma dor profunda pela perda de algo que ele acreditava ser real e eterno. Ele caminhou até a janela, o mesmo lugar para onde Isabela havia olhado momentos antes. O mundo lá fora parecia cinzento, sem cor. As promessas sussurradas, os beijos roubados, os planos traçados – tudo desmoronara em pó.
Ele não conseguia entender. Por quê? Por que ela faria isso? A menção de Ricardo o atingiu como um raio. Ricardo. O homem que ele desconfiava, o homem que parecia ter um interesse sombrio em sua vida. Seria verdade? Isabela estaria aliada a ele? A ideia era repugnante, mas a forma como ela falara, a frieza em seus olhos quando pronunciou as palavras mais cruéis, era inegável.
De repente, um leve toque em seu braço o fez sobressaltar. Ele olhou para baixo e viu Clara, sua fiel secretária, parada ali, com o rosto marcado pela preocupação.
“Senhor Gabriel? Eu… eu vi a senhora Isabela sair. Ela parecia… ela parecia muito abalada”, disse Clara, a voz baixa e hesitante. Clara sempre fora discreta, mas Gabriel sabia que ela era leal e observadora.
Gabriel tentou recompor-se. “Ela… ela veio me dizer algumas coisas, Clara. Coisas que eu não esperava.”
Clara se aproximou, o olhar fixo no dele. “Senhor Gabriel, eu sei que a senhora Isabela não é essa pessoa. Eu a conheço. Eu a vi tantas vezes com o senhor, tão feliz. E eu vi o desespero nos olhos dela quando ela entrou. Ela estava… ela estava sendo forçada a dizer aquilo, eu tenho certeza.”
Gabriel a encarou, a esperança, por mais frágil que fosse, começando a despontar em meio ao desespero. Clara era uma aliada confiável. “Forçada? O que você quer dizer, Clara?”
“Eu vi o carro. O motorista. Ele parecia um guarda-costas. E a senhora Isabela estava pálida, tremendo. Ela não agia como alguém que está contando a verdade. Ela agia como alguém que está sendo obrigada a contar uma mentira.” Clara olhou para os lados, certificando-se de que ninguém mais pudesse ouvir. “Senhor Gabriel, eu sei que a senhora Isabela está em perigo. Eu tenho um amigo, um contato na polícia, que me disse algumas coisas sobre o Ricardo. Ele é um homem perigoso, envolvido em coisas ilícitas. Se a senhora Isabela está com ele, ela está correndo um risco terrível.”
As palavras de Clara ressoaram com a desconfiança que Gabriel sentia por Ricardo. Ele sabia que algo estava errado. A imagem de Isabela, a sua Isabela, a mulher vibrante e cheia de vida, a repetir aquelas palavras cruéis, não se encaixava. “Clara, você acha que ela está em perigo?”
“Eu tenho certeza, senhor Gabriel. E eu acho que ela está tentando nos avisar. Talvez o que ela disse… foi uma mensagem codificada. Talvez ela estivesse nos dizendo o contrário do que parecia.” Clara pensou por um instante, os olhos fixos em um ponto distante. “O Ricardo quer te destruir, não é? E ele está usando a senhora Isabela para isso. Mas se ela disse que te traiu, e você sabe que não é verdade, então… então ela está apenas jogando o jogo dele para te proteger. E para ganhar tempo.”
Um plano começou a se formar na mente de Gabriel. Se Isabela estava fingindo, se ela estava sendo forçada a mentir, então ele precisava descobrir a verdade e, mais importante, resgatá-la. “Clara, preciso que você me ajude. Preciso que você investigue o Ricardo. Tudo o que puder encontrar sobre ele, seus negócios, seus contatos. E preciso saber onde ele está mantendo a Isabela.”
Clara assentiu com determinação. “Eu farei isso, senhor Gabriel. Eu farei tudo o que estiver ao meu alcance.”
Enquanto Clara se retirava para começar sua investigação, Gabriel sentiu um fio de esperança se solidificar. Ele não estava sozinho. E Isabela não o havia traído. Ela estava lutando, à sua maneira. Ele precisava confiar nela, confiar que ela era tão forte quanto ele sempre soube que ela era.
Do outro lado da cidade, em um local discreto, Pedro estava em contato com os homens de confiança de Gabriel. Ele havia conseguido enviar uma mensagem utilizando um dos poucos rádios que Ricardo não havia descoberto. A mensagem era curta, mas carregada de urgência: “Isabela sob controle de Ricardo. Plano de fuga em andamento. Preciso de apoio. Local: Fazenda da Serra Negra.”
Um dos homens de Gabriel, um ex-militar chamado Rafael, conhecido por sua discrição e eficiência, já estava traçando uma rota de infiltração. “Precisamos ser rápidos e silenciosos”, disse Rafael a seus homens. “Ricardo é perigoso e tem seus capangas bem armados. Não podemos nos dar ao luxo de cometer erros.”
Na fazenda, Isabela sentiu um alívio imenso ao ver o carro de Marcos se afastar. Agora, ela estava sozinha com Ricardo, mas com Pedro por perto. Ela sabia que o risco era imenso, mas a decisão estava tomada. Ela não seria mais uma peça no jogo dele.
À noite, Ricardo a chamou para jantar. Ele parecia satisfeito, quase triunfante, como se a partida de Gabriel fosse um sinal de sua vitória completa. “Vejo que você fez um bom trabalho, minha querida”, disse ele, servindo vinho em suas taças. “Gabriel está destruído. E logo, tudo o que ele construiu será meu.”
Isabela sorriu friamente. “E você acha que eu me importo, Ricardo?”
Ricardo riu. “Você vai se importar quando estiver ao meu lado, vendo tudo aquilo que era dele se tornar nosso.”
“Você está enganado”, disse Isabela, a voz baixa e ameaçadora. “Você não me conhece. E você cometeu um erro terrível ao pensar que podia me controlar.”
O sorriso de Ricardo vacilou. “O que você quer dizer com isso, Isabela?”
“Eu disse a Gabriel que não te amava, mas que estava voltando para você. Eu disse que te traí. Mas a verdade, Ricardo, é que eu nunca te amei. E eu nunca vou amar. Você é um monstro, e eu não quero ter nada a ver com você.” Ela o encarou, a determinação brilhando em seus olhos. “E quando eu sair daqui, eu vou fazer de tudo para te ver pagar por tudo o que você fez.”
Ricardo se levantou abruptamente, o rosto contorcido de fúria. “Você acha que pode fugir de mim? Você é minha, Isabela! Eu te controlo!”
“Você não me controla mais”, disse Isabela, levantando-se também. “Você me subestimou. E agora, você vai pagar por isso.”
Nesse exato momento, um barulho alto vindo do lado de fora da casa quebrou a tensão. Gritos, disparos de armas. Ricardo olhou para a janela, perplexo.
“O que é isso?”, ele sibilou, a raiva em seu rosto dando lugar à apreensão.
Pedro apareceu na porta, o rosto sujo de terra, mas com um sorriso de triunfo. “É a ajuda que você não esperava, Ricardo. A ajuda que a dona Isabela merecia.”
Os homens de Gabriel, liderados por Rafael, invadiram a casa. A luta foi rápida e brutal. Ricardo, pego de surpresa, tentou sacar uma arma, mas foi dominado pelos homens de Gabriel. Isabela correu para os braços de Pedro, sentindo o alívio de estar segura.
“Você conseguiu, Pedro”, sussurrou ela, a voz embargada pela emoção.
“Nós conseguimos, dona Isabela”, respondeu Pedro, abraçando-a com força. “O senhor Gabriel não a abandonou.”
Enquanto os homens de Ricardo eram detidos, Isabela olhou para a escuridão lá fora, imaginando Gabriel. Ela sabia que a luta ainda não havia acabado, mas agora, ela tinha aliados. Ela não estava mais sozinha. E a verdade, por mais dolorosa que tivesse sido, havia se tornado a sua maior arma.