Amor Clandestino III

Amor Clandestino III

por Ana Clara Ferreira

Amor Clandestino III

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 1 — O Sussurro do Passado em Noites de Verão

O ar da noite carioca, denso e carregado com o perfume adocicado das jasmins e o salgado insistente do mar, parecia emoldurar uma melodia antiga, um eco distante que ressoava nos corredores da alma de Isabella. Ela observava o brilho trêmulo das luzes da cidade espalhadas pela baía de Guanabara, cada ponto luminoso um lembrete silencioso de vidas que seguiam seus cursos, enquanto o seu parecia estagnado em um limbo de saudade e incerteza. A varanda do luxuoso apartamento na Urca, que um dia fora palco de risadas e planos futuros, agora era um refúgio solitário, um palco para o drama que se desenrolava em seu peito.

Isabella era uma mulher em que a beleza parecia ter sido esculpida pela própria natureza, com cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros e olhos de um verde profundo, capazes de expressar um turbilhão de emoções sem proferir uma palavra. Aos trinta e cinco anos, a vida lhe havia presenteado com sucesso profissional – era uma renomada advogada criminalista, conhecida por sua inteligência afiada e sua postura implacável nos tribunais. No entanto, por trás da armadura de profissionalismo, escondia-se um coração que clamava por um amor que parecia ter sido arrancado de sua raiz.

Há cinco anos, Gabriel partira. Não houve despedidas anunciadas, nem cartas de adeus. Apenas o silêncio gélido de sua ausência, que se instalou na vida de Isabella como um inverno perene. Ele, o artista boêmio com alma de poeta, que a fizera redescobrir a paixão em sua forma mais pura e avassaladora. O amor que compartilharam, intenso e proibido pelas convenções sociais e familiares, havia sido o fio condutor de sua existência por anos. Agora, restavam apenas as lembranças, fantasmagóricas e vívidas, que a assombravam em todos os cantos de sua memória.

A brisa marina, que antes trazia consigo a promessa de um futuro a dois, agora carregava consigo o cheiro inconfundível de chuva iminente, um prenúncio das lágrimas que ela teimava em reter. Um copo de vinho tinto repousava em sua mão, o líquido escuro refletindo as luzes da cidade, um espelho distorcido de sua própria melancolia.

"Sua vida parece tão perfeita, Isabella", a voz de Mariana, sua melhor amiga e sócia no escritório de advocacia, quebrou o silêncio. Ela entrou na varanda, trazendo consigo o aroma suave de um perfume floral e a preocupação genuína estampada em seu rosto. Mariana, com seus cabelos ruivos vibrantes e um sorriso acolhedor, era o porto seguro de Isabella em meio à tempestade.

Isabella soltou um suspiro cansado, sem desviar o olhar do horizonte. "Perfeita aos olhos de quem vê de fora, talvez. Por dentro, Mariana, o caos é quem manda."

Mariana se aproximou, pousando uma mão reconfortante em seu ombro. "Você ainda pensa nele, não é? Depois de tanto tempo."

O nome de Gabriel pairou no ar como uma nuvem carregada. Isabella hesitou por um instante, a garganta apertando. "Pensar nele é como respirar, Mariana. É algo que meu corpo faz sem que eu perceba, uma necessidade fisiológica da minha alma." Ela finalmente se virou para encarar a amiga, um brilho de dor em seus olhos. "São as noites de verão que mais doem. O calor, a música que toca lá longe, as estrelas que parecem mais próximas… tudo me lembra dele. E a saudade, ah, a saudade é um bicho cruel que se alimenta da memória."

"Eu sei que dói", Mariana disse com suavidade. "Mas você construiu tanto desde que ele se foi. Uma carreira brilhante, um nome respeitado… Você é forte, Isabella. Mais forte do que imagina."

"Força é uma armadura, Mariana. E às vezes, essa armadura pesa mais do que o corpo aguenta. Eu me sinto… incompleta. Como se uma parte de mim tivesse sido levada naquele dia que ele sumiu. E eu nunca soube o porquê." A voz de Isabella embargou, e ela lutou para manter a compostura. A injustiça de tudo aquilo, a falta de respostas, era um veneno lento que a corroía.

"Talvez você precise de uma distração", Mariana sugeriu, mudando sutilmente de assunto. "Temos o jantar de gala da associação de advogados na semana que vem. Uma ótima oportunidade para se divertir, conhecer gente nova… quem sabe?"

Isabella deu um sorriso fraco. "Gente nova… como se alguém pudesse preencher o vazio que ele deixou." Ela voltou a fitar o mar. "Ele era… diferente, Mariana. Ele via o mundo com outros olhos. Ele me ensinou a ver a beleza nas imperfeições, a encontrar a arte na vida cotidiana. Eu me sentia viva com ele. E agora… sinto que apenas existo."

O silêncio se instalou novamente, preenchido apenas pelo som das ondas quebrando na praia. Isabella fechou os olhos, revivendo um momento específico: o dia em que Gabriel a levou para uma galeria de arte escondida em Santa Teresa. Ele, com seus cabelos despenteados e o cheiro de tinta a óleo, mostrando a ela uma tela que retratava um pôr do sol vibrante sobre a cidade. "Olha, Isa", ele sussurrara, o hálito quente em sua orelha, "cada pincelada é um sentimento, cada cor é uma emoção. A vida é a nossa tela, e nós somos os artistas." Naquele momento, ela sentiu que poderia pintar o mundo inteiro ao lado dele.

"Ele não se explicou?", Mariana insistiu, com a paciência que só uma amiga de anos poderia ter. "Nunca mandou uma mensagem, uma carta… nada?"

"Nada", Isabella respondeu, a voz quase um sussurro. "Um dia, estava lá, e no outro, a porta do nosso apartamento estava trancada e o meu mundo desabou. A única coisa que encontrei foi um pequeno bilhete, preso na geladeira, com apenas uma palavra: 'Desculpe'. Desculpe o quê? Por quê? Perguntas que me corroem até hoje."

Mariana a abraçou forte. "Eu sinto muito, Isa. De verdade. Mas você não pode viver presa ao passado. Ele escolheu ir. E você tem que escolher viver."

Isabella retribuiu o abraço, sentindo o conforto familiar da amiga. Mas sabia que as palavras dela, por mais sinceras que fossem, não podiam apagar a chama que ainda ardia em seu peito, a esperança teimosa de que um dia, de alguma forma, Gabriel voltaria. E naquela noite de verão, sob o céu estrelado do Rio de Janeiro, Isabella se permitiu ser consumida pela saudade, enquanto o sussurro do passado se misturava ao barulho das ondas, criando uma sinfonia agridoce de amor e perda. A vida, ela sabia, era um palco complexo, e as cortinas de seu próprio drama pareciam ainda longe de se fechar. A incerteza pairava no ar, tão palpável quanto o cheiro das jasmins, e Isabella se perguntava se algum dia encontraria a paz, ou se viveria para sempre à sombra de um amor que se recusava a morrer.

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