Amor Clandestino III

Capítulo 2 — A Sombra de um Passado Inesquecível

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 2 — A Sombra de um Passado Inesquecível

O sol da manhã banhava o Rio de Janeiro em tons dourados, aquecendo a cidade com uma promessa de renovação que, para Isabella, parecia apenas uma ilusão distante. O apartamento na Urca, antes um santuário de amor e cumplicidade com Gabriel, agora era um museu de memórias, cada objeto, cada canto, um fantasma do passado a assombrá-la. A rotina, um mecanismo de defesa contra a dor, a mantinha em movimento: acordar, trabalhar incansavelmente, dormir pouco. Mas mesmo em meio à avalanche de processos e audiências, a imagem de Gabriel, com seu sorriso enigmático e os olhos que refletiam a alma de um artista, teimava em surgir, inoportuna e dolorosa.

Ela tomava seu café preto, amargo como as lembranças que a assaltavam. Naquele dia, um caso particularmente delicado a esperava no escritório: a defesa de um jovem acusado de um crime passionista. A complexidade da situação, a fina linha entre a razão e a emoção, a atraía e a perturbava ao mesmo tempo. Gabriel sempre dizia que ela tinha uma capacidade ímpar de entender os motivos ocultos por trás das ações humanas, de penetrar na psique de seus clientes. Mas essa empatia, agora, parecia mais um fardo do que uma virtude.

"Bom dia, doutora." A voz educada de seu assistente, Pedro, soou ao abrir a porta de seu escritório. Pedro, um rapaz inteligente e dedicado, era uma das poucas presenças constantes e reconfortantes em sua vida profissional. Ele depositou uma pilha de documentos em sua mesa, o aroma de papel e tinta preenchendo o ar.

"Bom dia, Pedro", Isabella respondeu, tentando infundir alguma energia em sua voz. "Alguma novidade sobre o caso do Sr. Ribeiro?"

"Sim, doutora. Recebi os depoimentos preliminares da testemunha principal. Há algumas inconsistências que podem ser exploradas", Pedro informou, com a precisão de quem conhece seu trabalho.

Isabella assentiu, seus dedos traçando a capa de um processo. "Ótimo. Analise tudo com cuidado e me traga um resumo para a reunião de hoje à tarde. Precisamos traçar uma estratégia sólida."

Enquanto Pedro se retirava, Isabella se permitiu um momento de devaneio. Gabriel adorava esses momentos de "inspiração", como ele os chamava. Ele se sentava em frente a uma tela em branco, com um pincel na mão, e ficava horas a fio, contemplando o nada, até que as cores e as formas começassem a brotar de sua mente. Isabella, pragmática e lógica, muitas vezes se frustrava com sua aparente inércia. Mas ele sempre a lembrava que a arte, assim como a justiça, exigia tempo, reflexão e uma profunda compreensão da alma humana.

Ela pegou um dos quadros que Gabriel lhe dera de presente. Era uma representação abstrata do mar, com tons de azul profundo e verde esmeralda, vibrando com uma energia selvagem. Cada vez que olhava para ele, sentia a brisa salgada em seu rosto e ouvia a risada dele, ecoando em sua memória. Era uma tortura e um consolo, uma dualidade que se tornara sua companheira constante.

O telefone em sua mesa tocou, quebrando o silêncio introspectivo. Era Mariana.

"Isa, você viu a notícia?", a voz de Mariana soou urgente.

"Que notícia, Mari?", Isabella perguntou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.

"A galeria que o Gabriel costumava expor… eles estão organizando uma retrospectiva póstuma. Vão apresentar obras que nunca foram exibidas antes. E adivinha quem foi convidado para dar uma palestra sobre a trajetória dele?"

O coração de Isabella acelerou. A galeria. O lugar onde ela e Gabriel passaram tantas tardes felizes, onde ele a apresentou ao mundo da arte, onde suas almas se conectaram de forma tão profunda. Uma retrospectiva póstuma… A ideia era dolorosa, mas também trazia consigo uma faísca de esperança, uma possibilidade de revisitar o passado de uma forma mais concreta.

"Eu… eu não sabia", Isabella gaguejou, sentindo as pernas fracas.

"Eu sei que é difícil, mas pense nisso, Isa. É uma chance de… talvez, entender um pouco mais. E de mostrar ao mundo o gênio que ele era."

"Entender mais… ou me afogar ainda mais em lembranças?", Isabella respondeu, a voz tingida de melancolia.

"Não diga isso. Gabriel não gostaria de te ver assim. Ele te amava demais para isso."

Amor. A palavra pairava no ar, carregada de significado e dor. Isabella se lembrava da intensidade desse amor, um fogo que consumia tudo em seu caminho, que desafiava as convenções e as expectativas. Era um amor que ela jamais imaginou sentir, e que, agora, a assombrava como um fantasma.

"Eu preciso pensar, Mari", Isabella disse, a voz embargada.

"Claro. Mas não se feche. O mundo continua girando, Isa. E você não pode ficar parada no tempo."

Após desligar, Isabella se levantou e caminhou até a janela. O céu, antes azul e convidativo, agora parecia carregar a mesma nuvem de incerteza que pairava sobre sua vida. A retrospectiva. Seria uma oportunidade de honrar Gabriel, ou uma armadilha para reviver a dor? A ideia de estar naquele lugar, cercada pelas obras dele, vendo o trabalho de sua vida exposto para o mundo, era ao mesmo tempo tentadora e aterrorizante.

Ela se lembrou de uma conversa com Gabriel em uma dessas tardes na galeria. Ele apontava para uma tela vibrante, cheia de cores explosivas. "Veja, Isa", ele dissera, "a vida é assim. Cheia de altos e baixos, de luz e sombra. A beleza está em aceitar essa dualidade, em encontrar a harmonia no caos." Naquele momento, ela sentira que entendia o que ele queria dizer. Agora, a dualidade parecia esmagá-la.

"Eu nunca fui boa em lidar com o caos, Gabriel", ela sussurrou para o quadro, como se ele pudesse ouvi-la. "Você era o meu caos organizado, a minha beleza imperfeita. E sem você, eu me perco na ordem sem graça da existência."

A ideia da retrospectiva insistia em sua mente. Talvez fosse hora de encarar de frente os fantasmas que a perseguiam. Talvez fosse hora de buscar as respostas que lhe foram negadas. Talvez fosse hora de tentar entender o porquê de um amor tão intenso ter terminado em um silêncio tão cruel.

Ela voltou para sua mesa, com uma nova determinação em seus olhos. O caso do Sr. Ribeiro parecia, de repente, menos importante. Havia algo mais urgente a ser enfrentado. A retrospectiva. Seria um mergulho profundo no passado, um risco calculado para talvez encontrar um caminho para o futuro.

"Pedro", ela chamou, a voz firme. "Preciso que você pesquise tudo sobre a retrospectiva do Gabriel na galeria. Datas, horários, informações sobre a palestra… e se houver alguma forma de conseguir um convite especial, eu preciso disso."

Pedro a olhou com uma surpresa contida. "Sim, doutora. Farei isso imediatamente."

Isabella sabia que a jornada seria árdua. Encarar as obras de Gabriel, ouvir as pessoas falarem sobre ele, seria como abrir feridas que ela tentava cicatrizar há cinco anos. Mas algo a impulsionava, uma força interior que não conseguia explicar. Talvez fosse a esperança, ou talvez apenas a necessidade de fechar um ciclo.

O perfume das jasmins, que entrava pela janela aberta, parecia trazer consigo uma nova fragrância, uma mistura de saudade e coragem. Isabella se sentiu, pela primeira vez em muito tempo, conectada a algo maior que sua própria dor. A sombra do passado, que antes a sufocava, agora parecia oferecer um caminho, um convite para revisitar a própria história, para desenterrar as razões de um amor clandestino que, mesmo findo, continuava a pulsar em sua alma. E assim, Isabella, a advogada implacável, a mulher que se erguia com a força de mil batalhas, decidiu que era hora de enfrentar o artista que habitava em seu coração, e talvez, apenas talvez, encontrar um vislumbre de paz em meio à tempestade de suas memórias.

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