Amor Clandestino III
Capítulo 3 — O Encontro Inesperado em Meio à Nostalgia
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — O Encontro Inesperado em Meio à Nostalgia
O dia da retrospectiva chegou como um presságio. O céu do Rio de Janeiro, em um espetáculo de nuvens e raios de sol, parecia refletir a dualidade de sentimentos que fervilhava no peito de Isabella. A galeria, um casarão antigo em Santa Teresa, exalava um charme boêmio, com suas paredes de pedra aparente e a luz suave filtrada pelas janelas em arco. Um burburinho de vozes, um misto de admiração e saudade, preenchia o ambiente.
Isabella, vestida com um elegante vestido preto que acentuava sua beleza clássica, sentiu o peso dos olhares sobre si. Ela era conhecida, respeitada. Mas ali, naquele espaço imerso nas memórias de Gabriel, ela era apenas Isabella, a mulher que o amou. Ao seu lado, Mariana, em um vestido vibrante de cor coral, irradiava um apoio silencioso, um farol de serenidade em meio à turbulência emocional de sua amiga.
"Você está linda, Isa", Mariana sussurrou, apertando levemente seu braço. "E você vai se sair bem. Lembre-se do que conversamos."
Isabella forçou um sorriso. "Eu espero que sim."
Ao adentrarem o salão principal, a visão era avassaladora. As paredes, antes adornadas com suas próprias coleções, agora exibiam as obras de Gabriel. Telas vibrantes, esculturas delicadas, esboços que revelavam um talento nato. Cada peça contava uma história, uma emoção, um fragmento da alma do artista que ela tanto amou e um dia perdeu. Um misto de orgulho e dor aguda apertou seu peito.
Eles caminharam lentamente, absorvendo a atmosfera. Isabella parou diante de uma tela que retratava um abraço entre duas figuras etéreas, envoltas em tons de roxo e dourado. Era uma representação singela do amor, puro e transcendental. Ela se lembrou da noite em que Gabriel a presenteara com essa pintura, em seu aniversário de trinta anos. Ele dissera que ela era sua musa, a inspiração por trás de suas mais belas criações. As lágrimas começaram a brotar em seus olhos, mas ela as conteve.
"É… é maravilhoso", Isabella murmurou, a voz embargada. "Ele tinha um dom único para capturar a essência das coisas."
"Ele tinha um dom para te amar, Isabella", Mariana respondeu suavemente, a voz carregada de ternura.
De repente, um som familiar chamou a atenção de Isabella. Uma risada rouca, inconfundível. Seu coração deu um salto no peito, um misto de incredulidade e pânico. Ela se virou lentamente, como se temesse o que veria.
E lá estava ele.
Gabriel.
Parecia que o tempo não havia passado para ele. A mesma cabeleira escura levemente despenteada, os mesmos olhos azuis profundos, agora mais intensos, o mesmo sorriso enigmático que um dia a desarmou por completo. Ele estava mais velho, sim, as linhas de expressão ao redor dos olhos um pouco mais marcadas, mas a essência, a aura magnética, era a mesma. Ele estava conversando com um grupo de pessoas, gesticulando com a paixão de sempre.
Isabella sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O mundo girou, as cores da galeria se misturaram em um borrão. Era ele. Depois de cinco anos de silêncio, de ausência, de questionamentos sem resposta, ele estava ali, vivo, respirando, a poucos metros de distância.
"Não pode ser", ela sussurrou, as mãos tremendo.
Mariana a segurou firmemente. "Isabella, respire fundo. Eu sabia que ele estaria aqui. Ele foi um dos curadores dessa exposição. Por isso me perguntaram sobre você."
"Você sabia?", Isabella perguntou, a voz quase inaudível. "E não me disse nada?"
"Eu… eu não tinha certeza. E sabia que seria um choque para você. Eu queria te dar a chance de vir por conta própria, de escolher se queria vê-lo ou não."
O choque era imenso, mas a dor que o acompanhava era ainda maior. Uma dor aguda, profunda, que a fez se curvar ligeiramente. Ela se sentiu exposta, vulnerável. Todos aqueles anos de luta para seguir em frente, de tentar apagar a memória dele, pareciam ter sido em vão.
Gabriel, como se sentisse o olhar dela, virou-se lentamente. Seus olhos encontraram os dela. Por um instante, o tempo parou. A multidão ao redor desapareceu. Havia apenas eles dois, presos em um silêncio carregado de anos de ausência e de perguntas não respondidas. O sorriso que brincava em seus lábios se desfez, substituído por uma expressão de surpresa e, talvez, de arrependimento.
Ele fez um gesto hesitante, como se quisesse se aproximar, mas foi interrompido por uma voz.
"Gabriel! Que bom que você veio!"
Uma mulher elegante, de cabelos loiros e um sorriso radiante, o abraçou efusivamente. Isabella sentiu uma pontada de ciúmes, um sentimento que ela pensava ter superado. A mulher, uma conhecida do mundo da arte, parecia ter uma intimidade com ele que Isabella não via há anos.
Gabriel sorriu para a mulher, mas seus olhos voltaram a buscar os de Isabella, que se mantinha imóvel, como uma estátua. Ele se afastou da mulher, o olhar fixo no dela.
"Isabella…", ele começou, a voz rouca, cheia de emoção.
Mas Isabella não conseguiu mais. A dor, a surpresa, a raiva, tudo se misturou em um turbilhão. Ela se virou abruptamente e saiu caminhando rapidamente em direção à saída, sem se importar com os olhares curiosos. Mariana a seguiu de perto, a preocupação estampada em seu rosto.
"Isa, espere!", Mariana a chamou.
Mas Isabella não parou. Precisava de ar, precisava fugir daquele lugar que se tornara um pesadelo. Ela saiu da galeria, o ar fresco da noite de Santa Teresa um alívio momentâneo. Sentou-se em um muro baixo, observando as luzes da cidade que se acendiam.
Gabriel estava ali. A pergunta que a atormentava há cinco anos estava diante dela. Por quê? Por que ele foi embora? E por que, agora, ele reaparecia em sua vida como um fantasma?
As lágrimas finalmente rolaram livremente por seu rosto. Eram lágrimas de dor, de saudade, de raiva, mas também, de uma estranha esperança. Ele estava vivo. E talvez, apenas talvez, houvesse uma chance de obter as respostas que tanto ansiava.
Mariana se sentou ao seu lado. "Você está bem?"
Isabella soluçou, sem conseguir responder. Ela olhou para as luzes da cidade, para o céu estrelado que parecia zombar de sua dor. A noite, que prometia ser apenas uma lembrança do passado, havia se transformado em um reencontro inesperado, um ponto de virada em sua vida.
De repente, um vulto apareceu na entrada da galeria. Era Gabriel. Ele a observava de longe, um misto de angústia e hesitação em seu olhar. Ele parecia querer se aproximar, mas algo o impedia.
Isabella sentiu um nó na garganta. Ela não sabia o que fazer. Fugir novamente? Enfrentá-lo? A advogada implacável que vivia dentro dela lutava contra a mulher ferida que ansiava por respostas.
Gabriel começou a caminhar em sua direção, lentamente, cada passo carregado de uma história não contada. Isabella o observava se aproximar, o coração batendo descompassado. A noite de nostalgia havia se transformado em um palco de um drama inesperado, onde o passado e o presente se chocavam, e o futuro, outrora tão claro, agora se apresentava em tons de incerteza.