Amor Clandestino III

Capítulo 4 — A Tempestade de Palavras Não Ditas

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 4 — A Tempestade de Palavras Não Ditas

O silêncio que pairava entre Isabella e Gabriel era mais denso que a própria noite. As luzes distantes da cidade pareciam dançar sobre seus rostos, iluminando a tensão palpável que os envolvia. Isabella, ainda sentada no muro baixo, o observava se aproximar, cada passo dele um eco em sua alma. A advogada em sua essência analisava a situação, catalogando a linguagem corporal, os sinais de hesitação. Mas a mulher, a que Gabriel um dia chamara de musa, sentia o coração acelerado, os lábios secos, a respiração presa na garganta.

Gabriel parou a poucos metros dela, o olhar fixo no dela, como se procurasse em seus olhos a permissão para continuar. "Isabella", ele repetiu, a voz embargada, mais um lamento do que uma saudação. O nome dela, pronunciado por ele após tantos anos, soou como um bálsamo e um veneno.

Mariana, percebendo a profundidade do momento, levantou-se discretamente. "Vou deixar vocês dois conversarem", disse ela, com um sorriso compreensivo para Isabella. "Qualquer coisa, estarei lá dentro." Ela depositou um beijo na testa de Isabella e se afastou, adentrando novamente a galeria, deixando os dois amantes separados pelo abismo do tempo e do silêncio.

Isabella finalmente encontrou sua voz, um sussurro rouco. "Gabriel. Por quê?"

A pergunta simples, mas carregada de cinco anos de angústia, pairou no ar. Gabriel engoliu em seco, o olhar desviando por um instante para o céu estrelado, como se buscasse força em sua imensidão.

"É… é complicado, Isa", ele começou, a voz falhando. "Muita coisa aconteceu."

"Complicado?", Isabella repetiu, a voz ganhando força, a mágoa borbulhando. "Você sumiu. Desapareceu. Sem uma explicação, sem uma despedida. Deixou apenas um bilhete idiota com um 'Desculpe'. Você chama isso de complicado?"

A dor em sua voz parecia atingi-lo profundamente. Ele deu um passo à frente, as mãos cerradas em punhos. "Eu sei que fui um covarde. Eu sei que te magoei terrivelmente. E eu me arrependo todos os dias, Isabella. Todos os malditos dias."

"Arrependimento não apaga a dor, Gabriel. Não preenche o vazio que você deixou." Isabella se levantou, a figura esguia ganhando uma imponência que vinha da sua força interior, da sua resiliência. "Eu passei anos tentando entender. Eu me culpei. Pensei que não fui boa o suficiente, que fiz algo errado. E o pior é que eu nunca soube o motivo. Esse silêncio… essa ausência… foi o que mais me destruiu."

Gabriel a olhava, os olhos azuis marejados. A paixão que um dia ardeu entre eles parecia ter dado lugar a uma tristeza compartilhada. "Você é tudo que eu poderia desejar em uma mulher, Isabella. A sua inteligência, a sua força, a sua beleza… você era a minha inspiração. Mas eu estava em um momento muito sombrio da minha vida. Eu estava afundando em… problemas. Problemas que eu não queria que te afetassem."

"Que problemas, Gabriel? Que problemas eram tão grandes que te impediram de falar comigo? De me contar? Nós éramos um time. Nós compartilhávamos tudo." A voz de Isabella tremia, a raiva e a mágoa lutando pelo domínio.

"Problemas com pessoas… erradas. Dívidas. Coisas que eu me envolvi sem pensar, achando que conseguiria resolver sozinho. E quando percebi, já era tarde. Eles começaram a me ameaçar, a me pressionar. E o pior, começaram a mencionar você. Dizer que seria uma pena se algo acontecesse com a sua carreira promissora… com a sua vida."

Isabella o encarou, chocada. As palavras dele caíram como pedras em sua alma. Ela nunca imaginou que a vida de Gabriel fosse tão turbulenta. Ele, com sua alma de artista, tão descontraído e aparentemente livre.

"Você… você fez isso por mim?", ela perguntou, a voz embargada pela emoção.

Gabriel assentiu lentamente, o rosto marcado pela dor. "Eu te amava demais para te colocar em perigo. A única maneira que eu vi de te proteger, de garantir que você ficasse segura, era desaparecer. Me afastar completamente. O bilhete foi a minha forma patética de tentar dizer que sentia muito, mas que precisava ir."

Um silêncio pesado se instalou entre eles. Isabella tentava processar a informação. A covardia que ela via em sua atitude era, na verdade, um ato de amor desesperado. A complexidade de Gabriel, o artista boêmio, escondia um homem capaz de sacrifícios extremos.

"E você achou que sumir era a melhor forma de me proteger?", Isabella perguntou, mais para si mesma do que para ele. "Você achou que me deixar à deriva, sem explicações, seria mais gentil do que enfrentar a verdade comigo?"

"Eu não pensei direito, Isabella", Gabriel confessou, a voz baixa. "Eu estava em pânico. E eu era jovem, arrogante, achando que podia resolver tudo. A verdade é que eu fugi. Fugi dos meus problemas e fugi de você, porque não queria que o meu mundo sombrio te contaminasse."

Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto de Isabella. A raiva começou a dar lugar a uma onda de compaixão e, estranhamente, de compreensão. Ela se lembrava da intensidade com que Gabriel viveu, da forma como ele se entregava às suas paixões. Ele era um homem de extremos.

"E as dívidas?", ela perguntou, a voz mais suave agora. "Você conseguiu resolver?"

Gabriel deu um leve sorriso triste. "Demorou. Foi um caminho longo e árduo. Tive que trabalhar como nunca, aceitar trabalhos que eu não gostava, vender algumas de minhas obras a preços irrisórios para quitar tudo. Eu me afastei da arte por um tempo, me perdi em trabalhos braçais, em qualquer coisa que me desse dinheiro para sair daquela situação." Ele olhou para a galeria, para as obras expostas. "Retornar à arte foi o meu caminho de redenção. E essa exposição… é um marco para mim. Significa que eu finalmente superei aquela fase."

Ele a olhou novamente, os olhos azuis fixos nos dela, implorando por algo que ela ainda não conseguia dar. "Eu sinto muito, Isabella. Por tudo. Por ter te deixado, por ter te feito sofrer. Se eu pudesse voltar atrás…"

Isabella suspirou, um som carregado de anos de dor reprimida. Ela se aproximou dele, hesitando por um instante antes de estender a mão e tocar seu rosto. Sua pele estava quente. Era real. Ele estava ali.

"Eu não sei o que dizer, Gabriel", ela admitiu, a voz embargada. "Você me causou uma dor imensa. Mas… eu também entendo. A sua forma de me proteger… foi destrutiva, mas o motivo… o motivo era amor."

O olhar dele se iluminou com uma faísca de esperança. "Então… você me perdoa?"

Isabella balançou a cabeça lentamente. "Perdoar é um processo, Gabriel. Não é algo que acontece da noite para o dia. Especialmente depois de cinco anos de silêncio e incertezas." Ela retirou a mão do rosto dele, mas manteve o olhar fixo no dele. "Mas… eu estou disposta a ouvir. A entender. A talvez, quem sabe, reconstruir alguma ponte. Porque, no fundo, você também não saiu da minha vida. Você se tornou uma sombra constante, uma pergunta sem resposta."

Gabriel deu um passo à frente, a distância entre eles diminuindo. "Eu quero te reconquistar, Isabella. Quero te mostrar que o homem que você amou ainda está aqui, e que aprendeu com seus erros. Quero te mostrar que o nosso amor… que ele ainda pode existir."

O coração de Isabella martelava em seu peito. O turbilhão de emoções era avassalador. A raiva se misturava à saudade, a dor à uma esperança recém-descoberta. Ela o amou intensamente, e aquele amor, por mais que ela tentasse enterrá-lo, continuava a pulsar em sua alma.

"Eu não sei se é possível, Gabriel", ela disse, a voz ainda trêmula. "O tempo… ele muda as pessoas. Muda as situações."

"Mas o amor verdadeiro, Isabella", ele sussurrou, a voz cheia de paixão, "ele transcende o tempo. Ele encontra um caminho." Ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos. A sensação era eletrizante, familiar. "Me dê uma chance. Me deixe te mostrar."

Isabella olhou para as mãos entrelaçadas, para os olhos dele que a imploravam. O caminho à frente era incerto, repleto de desafios. A tempestade de palavras não ditas havia, finalmente, se dissipado, mas as cicatrizes permaneciam. No entanto, naquele momento, sob o céu estrelado do Rio de Janeiro, sentindo o calor da mão de Gabriel na sua, Isabella sentiu uma fagulha de algo que há muito tempo acreditava ter perdido: a esperança de um recomeço. A possibilidade de que o amor clandestino, que um dia os uniu e os separou, pudesse encontrar uma nova forma de florescer.

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