O Retorno do Amor III

Capítulo 17 — As Sementes da Dúvida no Cais

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 17 — As Sementes da Dúvida no Cais

O ar salgado do cais de pescadores trazia um cheiro de maresia e de peixe fresco, um aroma familiar que sempre trazia um certo conforto a Rafael. Mas naquela manhã, o cheiro parecia carregado de presságios. As palavras de Helena na noite anterior ressoavam em sua mente com a força de um trovão, ecoando a verdade que ele tentava desesperadamente ignorar. “Você sabe quem é, Rafael. Você sempre soube.”

Ele observava Clara caminhar pela orla, os cabelos castanhos ao vento, a silhueta esguia envolta em um vestido leve. A fragilidade que ela exibia, a dor em seus olhos, eram um espelho de sua própria angústia. Helena havia plantado uma semente de dúvida, e essa semente já germinava vorazmente em seu peito. Ele amava Clara com toda a sua alma, e a ideia de que pudesse ter escondido dela, mesmo que por proteção, algo tão crucial sobre a morte de seu pai, o atormentava.

A revelação de Helena de que o pai de Clara não morrera em um acidente, mas fora assassinado, abalara os alicerces do mundo de ambos. Clara, ainda em choque, passou o resto da noite em silêncio, o rosto pálido, os olhos perdidos em um abismo de novas perguntas. Rafael a abraçou, oferecendo o conforto que podia, mas a culpa o roía. Ele sabia mais do que deixara transparecer.

Naquela manhã, enquanto Clara tentava absorver a avalanche de informações, Rafael decidiu que precisava confrontar uma parte de seu passado que o assombrava há anos. Ele marcou um encontro com um velho contato, um homem que trabalhava nas docas e que, por necessidade e por uma certa dose de lealdade mal entendida, se tornara seu informante em tempos passados. O nome dele era Jonas, um sujeito de poucas palavras e olhos que pareciam ter visto demais.

O encontro se deu em um pequeno bar à beira-mar, o tipo de lugar frequentado por pescadores e homens do submundo, onde as conversas eram sussurradas e os acordos, selados com um aperto de mão firme. Jonas, um homem corpulento com um rosto marcado pelo sol e pelo tempo, já o esperava em uma mesa nos fundos, um copo de cachaça intocado à sua frente.

“Rafael”, disse Jonas, a voz rouca como cascalho. Um aceno de cabeça confirmou o reconhecimento. “Faz tempo que não nos vemos.”

Rafael sentou-se em frente a ele, sentindo o peso do olhar de Jonas sobre si. “Jonas. Preciso de algumas informações.”

Jonas sorriu, um sorriso sem alegria. “Informações custam caro, Rafael. E você sabe que eu não trabalho de graça.”

“Eu sei. Mas isso é importante. É sobre o pai de Clara. O senhor Valério Dias.”

O nome de Valério Dias pareceu fazer Jonas franzir a testa. Ele pegou o copo e bebeu um gole generoso. “Valério Dias. Um homem complicado. Tinha inimigos, muitos inimigos.”

“Helena disse que não foi um acidente. Que ele foi assassinado.” Rafael observou a reação de Jonas atentamente. Ele buscava qualquer sinal de surpresa, qualquer indício de que as palavras de Helena fossem novas para ele.

Jonas deu de ombros. “No nosso meio, as coisas raramente são o que parecem. Acidentes acontecem, mas nem sempre por acaso.” Ele fez uma pausa, seus olhos perscrutando Rafael. “Por que você quer saber disso agora? Aconteceu há muito tempo.”

“Clara descobriu. Ou está prestes a descobrir. Helena a procurou.” Rafael decidiu ser direto. “Eu sei que você tem contatos. Que você sabe coisas. Você sabia algo sobre o que aconteceu com Valério Dias?”

Jonas ficou em silêncio por um longo momento, o olhar fixo no movimento das ondas. A brisa trazia o som distante de gaivotas. Finalmente, ele suspirou. “Sei o que ouvi. Corriam boatos. Falavam de uma dívida. De um negócio que deu errado. De gente grande envolvida.”

“Que gente grande?”, Rafael insistiu, o tom de voz mais firme.

Jonas hesitou. Ele parecia relutar em ir mais fundo, em desenterrar fantasmas que ele próprio tentava manter adormecidos. “Falavam de um homem. Um empresário. Poderoso. Com conexões no submundo e na política. Um homem que não gostava de ser contrariado. O nome dele… era Maurício Almeida.”

Rafael sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Maurício Almeida. O nome era familiar. Um magnata do ramo imobiliário, conhecido por sua frieza e por seu império construído sobre pilares de poder e influência. Ele era um dos homens mais ricos e temidos do país.

“Maurício Almeida?”, Rafael repetiu, a voz um sussurro. “Por que ele mataria Valério Dias?”

“Como eu disse, dívidas. E talvez Valério soubesse de algo que não deveria. Almeida não deixava pontas soltas.” Jonas bebeu o restante da cachaça. “Mas isso é só o que se falava nas ruas, Rafael. Nada que eu possa provar.”

Rafael sabia que Jonas era cauteloso. Ele não falaria abertamente sobre algo que pudesse incriminá-lo. Mas a menção de Maurício Almeida era significativa. Era um nome que ligava o mundo de negócios de Valério Dias a um submundo ainda mais sombrio.

“E Helena?”, perguntou Rafael, o olhar fixo em Jonas. “Ela estava envolvida com Valério Dias?”

Jonas deu um riso seco. “Helena sempre foi uma garota esperta. E ambiciosa. Tinha seus caminhos. Se ela estava perto de Valério Dias… bem, não me surpreenderia. Ela sempre soube onde encontrar oportunidades.”

A ambiguidade das palavras de Jonas deixava Rafael ainda mais inquieto. Helena, a amiga de Clara, a mulher que a traíra, poderia estar envolvida na morte do pai dela? Ou ela estava apenas buscando se proteger, jogando a culpa em outro lugar?

“Você tem certeza sobre Maurício Almeida?”, Rafael insistiu.

“Eu disse, Rafael. Boatos. Mas Almeida é o tipo de homem que faz esse tipo de coisa. Ele é implacável.” Jonas levantou-se, terminando a conversa. “Se precisar de algo mais, você sabe onde me encontrar. Mas cuidado. Esse assunto é perigoso.”

Rafael ficou sentado por mais alguns minutos, observando Jonas se afastar. Maurício Almeida. O nome ecoava em sua mente, trazendo consigo uma imagem de poder e perigo. Ele amava Clara profundamente, e agora, mais do que nunca, sentia a necessidade de protegê-la. Mas como protegê-la de um inimigo tão poderoso, especialmente quando ele próprio se sentia enredado em uma teia de segredos e omissões?

Ele sabia que precisava contar tudo a Clara. A verdade sobre o que ele sabia, ou suspeitava, sobre a morte de seu pai. A verdade sobre seu envolvimento com Jonas e sobre o nome de Maurício Almeida. A dúvida que Helena plantara era cruel, mas a honestidade, por mais dolorosa que fosse, era o único caminho. A imagem de Clara, com seus olhos cheios de dor e esperança, o impulsionou. Ele teria que ser forte por ela, e para ela. O amor deles, que parecia ter renascido com tanta força, agora precisava enfrentar a escuridão de um passado que se revelava mais sombrio do que jamais imaginara. A sombra de Maurício Almeida pairava sobre eles, um presságio de uma batalha que estava apenas começando.

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