O Retorno do Amor III
Capítulo 18 — A Trama do Passado no Jardim Secreto
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 18 — A Trama do Passado no Jardim Secreto
O jardim secreto, escondido nos fundos da antiga mansão de sua avó, sempre fora o refúgio de Clara. Ali, entre roseiras antigas e um lago sereno, ela buscava paz e clareza. Mas naquela tarde, o perfume das rosas parecia misturar-se a um odor acre de ressentimento e de verdades ocultas. As palavras de Helena na noite anterior ainda reverberavam em sua mente como um eco sombrio, e a necessidade de entender o que estava acontecendo era mais forte do que qualquer desejo de paz.
Rafael a acompanhou, o silêncio entre eles carregado de uma tensão que Clara não conseguia dissipar. Ela sabia que ele escondia algo, um peso em seu olhar que ela reconhecia em si mesma. A revelação sobre a morte de seu pai, a conexão de Helena com o passado, e agora, a sensação de que Rafael também guardava segredos, a deixavam em um estado de apreensão constante.
Eles sentaram-se à beira do lago, as mãos de Rafael envolvendo as dela, um gesto de conforto que, de alguma forma, aumentava a angústia de Clara.
“Rafael”, ela começou, a voz suave, mas firme. “Você sabe mais do que me disse ontem à noite. Eu sinto isso.”
Rafael suspirou, o olhar fixo na água. “Clara, o que Helena disse… é verdade. Seu pai não morreu em um acidente.”
O coração de Clara acelerou. A confirmação, vinda dele, era um golpe ainda mais duro. “Você sabia?”, perguntou ela, a voz embargada pela mágoa. “Você sabia e não me contou?”
“Eu suspeitava. Há muito tempo. Mas eu não tinha provas. E temia te machucar. Temia que você pensasse que eu estava te escondendo algo de propósito.” Rafael virou-se para ela, os olhos verdes cheios de uma dor que espelhava a dela. “Eu não queria que você se sentisse insegura comigo. Eu te amo, Clara. E a última coisa que eu queria era te ver sofrer mais.”
A sinceridade em seu olhar era inegável, mas a mágoa ainda ardia em seu peito. “Mas eu estou sofrendo agora, Rafael. Sofrendo por não saber a verdade. Sofrendo por sentir que você não confia em mim o suficiente para compartilhar seus medos.”
“Eu confio em você mais do que em qualquer pessoa no mundo, Clara. Mas o mundo em que seu pai estava envolvido… é perigoso. E eu queria te proteger.” Rafael apertou as mãos dela. “Ontem à noite, Helena me disse o nome de quem ela acredita ser o mandante. O nome dele é Maurício Almeida.”
Clara arregalou os olhos. Maurício Almeida. O nome era familiar, associado a negócios, a poder, mas também a uma aura de perigo e crueldade. “Maurício Almeida? O empresário?”
“Sim. Ele é conhecido por ser implacável. Helena disse que Valério Dias tinha dívidas com ele. Ou que sabia de algo que não devia.” Rafael respirou fundo. “Eu conversei com um antigo contato meu hoje cedo. Ele confirmou que boatos sobre Almeida e a morte de Valério Dias circulavam nos bastidores.”
Um turbilhão de emoções tomou conta de Clara. Seu pai, assassinado por um dos homens mais poderosos do país. A traição de Helena, que agora parecia ter uma dimensão ainda mais sombria. E Rafael, que tentara protegê-la, mas acabara se distanciando com seu silêncio.
“E Helena?”, perguntou Clara, a voz baixa. “Qual é a ligação dela com isso tudo?”
“Ela disse que conhecia seu pai de outra forma. Que estava envolvida no mesmo mundo. Que viu algo naquela noite.” Rafael hesitou. “Mas eu não sei se posso confiar totalmente nela, Clara. Ela te traiu no passado. E agora, ela tem um motivo para querer desviar a atenção, para se proteger.”
A revelação sobre a ligação de Helena com o pai de Clara abriu um novo leque de dúvidas. O que significava “envolvida no mesmo mundo”? Seria um mero acaso, ou Helena tinha um papel ativo no que aconteceu?
De repente, um movimento na extremidade do jardim chamou a atenção de Clara. Uma figura solitária, sentada em um banco escondido entre as azaléias, observava-os. Era Helena. Ela se levantou e caminhou em direção a eles, o rosto marcado por uma expressão de apreensão e determinação.
“Eu sabia que vocês estariam aqui”, disse Helena, a voz um pouco trêmula. “Eu precisava falar com vocês. Juntos.”
Clara e Rafael trocaram olhares. A presença de Helena ali, em seu refúgio, parecia uma invasão, mas Clara sentiu que precisava ouvir o que ela tinha a dizer.
“Por que você veio, Helena?”, perguntou Clara, a voz calma, mas carregada de desconfiança.
“Porque eu não posso mais viver com esse segredo”, respondeu Helena, aproximando-se. Ela olhou para Rafael, um breve lampejo de reconhecimento em seus olhos, algo que Clara não compreendeu. “Eu preciso contar a verdade. Não apenas para você, Clara, mas para mim mesma.”
Ela se sentou em um banco próximo, o corpo curvado como se o peso da confissão a estivesse esmagando. “Seu pai, Clara… ele estava fazendo algo grande. Algo que ameaçava os interesses de Maurício Almeida. Ele tinha provas de corrupção, de lavagem de dinheiro. E Almeida não podia permitir que isso viesse à tona.”
“E você sabia disso?”, perguntou Clara, a voz fria.
Helena balançou a cabeça. “Eu não sabia da dimensão completa. Mas eu sabia que Valério estava em perigo. Eu o avisei. Mas ele era teimoso. Achava que podia enfrentar Almeida.” Ela olhou para Clara, os olhos cheios de uma tristeza genuína. “Naquela noite… eu estava lá. Eu o segui. Queria ter certeza de que ele estava seguro. Mas cheguei tarde demais. Vi o carro dele ser interceptado. Vi dois homens… mas não vi o rosto deles. Eles me viram também. Eu tive que fugir. Se eles soubessem que eu vi… eu teria o mesmo destino.”
Um arrepio percorreu o corpo de Clara. A história de Helena, embora dolorosa, parecia sincera. Mas a desconfiança ainda persistia.
“E você não contou nada para a polícia?”, perguntou Rafael, o tom de voz incisivo.
Helena riu, um riso amargo. “Polícia? E contar para quem, Rafael? Para a polícia que trabalha para homens como Maurício Almeida? Eu seria a próxima da lista. Eu tive que desaparecer por um tempo. Me refazer. E esperar a hora certa de voltar. E a hora certa é agora.”
Ela olhou para Clara. “Eu sei que você não confia em mim. E eu não a culpo. Eu te traí. Mas eu nunca quis que você sofresse. E agora, você está em perigo. Se Almeida souber que você está investigando o passado do seu pai… ele pode te ver como uma ameaça.”
A preocupação genuína nos olhos de Helena era palpável. Clara sentiu um misto de raiva, tristeza e um fio de esperança. Talvez Helena estivesse falando a verdade. Talvez eles pudessem, juntos, desvendar esse mistério.
“E você, Rafael?”, disse Helena, o olhar fixo nele. “Você também tem segredos sobre isso, não tem? Você sempre foi muito curioso sobre os negócios de Almeida. Você sabia que Valério Dias estava incomodando ele?”
Rafael desviou o olhar, uma expressão de desconforto em seu rosto. Clara o olhou, a angústia em seu peito se intensificando. Ele sabia mais.
“Rafael?”, ela chamou, a voz suave.
Ele respirou fundo. “Eu… eu sabia que Valério Dias estava em negociações com Almeida. E que as coisas estavam tensas. Mas eu não tinha ideia de que seria algo tão… drástico.” A hesitação em sua voz era clara. “Eu estava investigando Almeida há algum tempo. Por conta própria. Ele está envolvido em muitas coisas ilegais. Mas eu não sabia que ele seria capaz de assassinar alguém.”
Clara sentiu o chão sumir sob seus pés. Rafael, investigando Maurício Almeida? O homem que, segundo Helena, matou seu pai? A complexidade da situação era esmagadora. A traição de Helena, a dor da perda de seu pai, os segredos de Rafael, e agora, um inimigo poderoso e implacável. O jardim secreto, antes um lugar de paz, agora se tornara o palco de uma trama do passado, um labirinto de verdades e mentiras que os envolvia em uma teia perigosa. A esperança de um novo começo parecia cada vez mais distante, ofuscada pelas sombras de um passado que se recusava a ser esquecido.