O Retorno do Amor III

Capítulo 2 — Fragmentos de um Passado Quebrado

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 2 — Fragmentos de um Passado Quebrado

O aroma reconfortante do chá de camomila se mistura ao cheiro úmido da madeira antiga da pousada, mas para Helena, o perfume que domina o ar é o de Gabriel. Um perfume sutil, de maresia e algo mais, algo intrinsecamente dele, que ela jurava ter esquecido. O silêncio entre eles após as últimas palavras de Gabriel paira pesado, denso como a neblina que começa a se dissipar lá fora, revelando um céu ainda carregado de nuvens, mas com lampejos de um sol tímido. Helena sente um nó na garganta, uma mistura de ansiedade e de uma curiosidade perigosa. O que ele quis dizer com aquilo? "O amor sempre encontra um jeito de retornar." Era um aviso? Uma provocação? Ou, quem sabe, um convite velado?

Gabriel continua a observá-la, seus olhos azuis como o mar em um dia de sol, agora nublados por uma emoção que Helena não consegue decifrar. Ele parece buscar em seu rosto uma resposta que ela mesma não tem. A Helena de dez anos atrás, impulsiva e apaixonada, teria gritado, chorado, o confrontado. Mas a Helena de agora, mais madura, mais cautelosa, apenas se encolhe em sua poltrona, sentindo-se exposta.

"Não sei se o amor encontra um jeito", Helena responde finalmente, a voz um pouco trêmula. "Às vezes, ele simplesmente morre. E a gente aprende a viver com a ausência."

Gabriel dá um passo hesitante, como se temesse quebrar um delicado encanto. Ele se aproxima da janela, observando a paisagem que começa a se revelar. As cores vibrantes de Paraty, o verde exuberante da Mata Atlântica, o azul do mar – tudo parece intensificado após a chuva. "Morrer é uma palavra forte, Helena. Acho que o amor, quando é verdadeiro, ele se transforma. Ele se esconde, ele cicatriza, mas nunca morre completamente."

Helena desvia o olhar para suas mãos, que seguram a xícara de chá com força. Ela lembra-se da força com que se agarrou a essa ideia de que o amor havia morrido, que ela havia enterrado Gabriel e tudo o que ele representava. Mas, no fundo, uma pequena voz sussurrava que era mentira. Que o amor, o deles, era forte demais para ser extinto tão facilmente.

"Talvez você esteja certo", ela admite, a voz quase inaudível. "Ou talvez eu esteja apenas cansada de lutar contra fantasmas."

Gabriel se vira para ela, um leve sorriso melancólico nos lábios. "Fantasmas… Sim, sei bem como é isso." Ele se aproxima mais, sentando-se na beirada da mesa de centro, a pouca distância que os separa parecendo um abismo e, ao mesmo tempo, uma ponte. "Você acha que eu não lutei contra os meus, Helena? Acha que a minha vida foi fácil depois que você foi embora?"

A pergunta o atinge como um golpe. Ela nunca pensou em Gabriel depois de sua partida, não realmente. Ele era o ponto final de sua história, o motivo de seu recomeço. Ela se refugiou em seu trabalho, em sua carreira em São Paulo, construindo uma vida sólida e independente, longe das lembranças dolorosas. Mas agora, olhando para ele, para a dor em seus olhos, ela percebe que também o havia ferido.

"Eu não sei, Gabriel", ela confessa, a honestidade crua em sua voz. "Eu estava… quebrada. Eu precisava ir embora. Precisava me salvar."

"Eu entendo", ele diz, a voz baixa e rouca. "Eu também estava quebrado. E talvez, se eu tivesse sido um homem melhor…"

"Não", Helena o interrompe, sentindo uma necessidade repentina de defendê-lo, de defender a memória daquele amor. "Não foi culpa sua. Foi… foi tudo. A gente era jovem demais, apaixonado demais, e a vida nos atropelou."

"E a culpa é toda sua por ter partido", Gabriel completa, um tom de amargura que o faz estremecer. "Você me deixou aqui, sozinho, com os destroços."

"Eu também fiquei sozinha, Gabriel!", Helena exclama, a voz embargada pela emoção. "Você acha que foi fácil para mim? Deixar tudo para trás, a minha casa, os meus amigos, a minha vida… Deixar você?" As lágrimas começam a rolar por seu rosto, incontroláveis. Ela não as segura. Dez anos de dor, de saudade reprimida, de culpa, tudo vem à tona.

Gabriel se levanta e se aproxima dela, seus olhos azuis fixos nos dela. Ele se ajoelha diante dela, sem tocá-la, mas com uma proximidade que a faz prender a respiração. As lágrimas dela caem sobre as mãos dela, como gotas de chuva em uma flor murcha.

"Eu sei que não foi fácil, Helena", ele diz, a voz carregada de emoção. "E eu sinto muito. Sinto muito por tudo. Por não ter sido forte o suficiente para te segurar, por não ter te mostrado que poderíamos ter superado aquilo juntos. Sinto muito por ter te assustado com a intensidade do meu amor."

"Não se desculpe por me amar, Gabriel", Helena sussurra, a voz embargada. "Desculpe-se por ter me feito duvidar que o nosso amor era forte o suficiente."

Ele estende a mão e com a ponta dos dedos toca uma lágrima que escorre em seu rosto. O toque, mesmo que leve, envia um choque elétrico por todo o corpo de Helena. É um toque que ela nunca imaginou sentir novamente.

"Você sempre foi a minha força, Helena", Gabriel diz, os olhos cheios de um amor antigo e profundo. "E você me ensinou que o amor não se trata de controle, mas de liberdade. E eu… eu te dei a liberdade de ir. Eu só não esperava que você fosse tão longe."

Helena se recosta na poltrona, o corpo ainda tremendo. A intensidade daquele momento a desnorteia. Ela olha para Gabriel, para o homem que foi o centro do seu mundo, e vê o reflexo do passado, mas também um vislumbre de um futuro incerto. A exposição de Antônio, que a trouxe de volta a Paraty, agora parece um pretexto, um convite do destino para que ela revivesse o que havia tentado enterrar.

"Eu preciso de um tempo, Gabriel", Helena diz, a voz firme, mas carregada de emoção. "Preciso de um tempo para… para respirar. Para lembrar quem eu sou sem você."

Gabriel se levanta, um leve sorriso triste nos lábios. "Eu entendo. Eu estarei aqui. Em Paraty. Não vou a lugar nenhum." Ele se afasta dela, deixando um espaço vazio que antes era preenchido por uma presença avassaladora. "A exposição começa amanhã à noite. Na galeria do centro. Antônio ficaria feliz em te ver lá."

Ele se vira e caminha em direção à porta, parando por um instante antes de sair. "Eu não acredito que o amor morra, Helena. Acredito que ele apenas espera o momento certo para renascer."

A porta se fecha, deixando Helena sozinha na sala, o som da chuva agora um murmúrio distante. Ela olha para a xícara de chá, agora fria, e sente o peso daquele reencontro. Gabriel está ali. Ele não a esqueceu. E o amor, aquele amor antigo e avassalador, parece ter encontrado um jeito de retornar, justamente quando ela menos esperava. A exposição de Antônio Brandão, que deveria ser um momento de despedida e de celebração, agora se torna o pano de fundo para um drama que está apenas começando, um drama onde os fragmentos de um passado quebrado ameaçam reconstruir um futuro que Helena não sabe se está pronta para viver. Ela fecha os olhos, tentando afastar a imagem de Gabriel, mas o sussurro do passado em meio à tempestade de suas emoções é alto demais para ser ignorado. O retorno para Paraty, o retorno para Gabriel, é um caminho sem volta.

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