O Retorno do Amor III

Capítulo 3 — A Galeria das Sombras e das Lembranças

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 3 — A Galeria das Sombras e das Lembranças

O sol tímido de Paraty, filtrado pelas nuvens que ainda se agarram ao céu, banha a cidade em uma luz suave e melancólica. Helena caminha pelas ruas de pedra, a brisa marinha acariciando seu rosto, tentando absorver a atmosfera pacífica que sempre a acalmou. O convite para a exposição póstuma de Antônio Brandão ainda está em sua bolsa, um lembrete palpável do motivo de seu retorno. Mas, desde o reencontro inesperado com Gabriel na pousada, outro motivo, muito mais intenso e perturbador, ocupa seus pensamentos.

A galeria de arte, um casarão colonial restaurado com a elegância de um salão de exposições, exibe as obras de Antônio em todo o seu esplendor. As telas coloridas, as esculturas vibrantes, a paixão que transborda de cada peça – tudo fala da genialidade do artista. Helena caminha entre as obras, absorvida pela arte, pela presença silenciosa e poderosa de Antônio que parece emanar de cada canto. Ela conversa com alguns dos presentes, a maioria rostos familiares que a cumprimentam com surpresa e carinho. A cidade a recebeu de braços abertos, mas a presença de Gabriel lança uma sombra sobre a sua volta.

Ela o avista de longe, no centro da galeria, conversando animadamente com um grupo de colecionadores. Ele está impecável em um terno escuro, um sorriso confiante no rosto. A imagem dele, tão diferente do homem vulnerável que ela viu na pousada, a atinge em cheio. Era o Gabriel de sempre, o homem de sucesso, o artista respeitado, o centro das atenções. E ela, Helena, era apenas uma espectadora distante, observando-o de sua nova vida em São Paulo.

Um nó se forma em sua garganta. Ela se afasta para um canto mais reservado, sentindo-se subitamente deslocada. A exposição, que deveria ser um momento de reencontro com a arte e com memórias felizes, agora se torna um palco para as tensões não resolvidas entre ela e Gabriel.

"Helena!"

A voz dela soa atrás dela, um tom familiar, mas carregado de uma certa apreensão. É Clara, sua amiga de longa data, a mulher que sempre soube de tudo, a confidente de seus amores e desamores. Clara a abraça com força, um abraço caloroso e acolhedor que traz um alívio imediato.

"Clara! Que bom te ver!", Helena diz, retribuindo o abraço. "Nem acredito que você está aqui."

"E você não é a única surpresa!", Clara ri, os olhos brilhando de emoção. "Fiquei chocada quando soube que você viria. Dez anos, Helena! Dez anos sem dar notícias."

"Eu… eu sei. Muita coisa aconteceu", Helena murmura, sentindo-se um pouco envergonhada.

"E você nem imagina o quanto a gente sentiu sua falta", Clara diz, o tom de voz mais sério. "E mais ainda, o quanto a gente ficou preocupado quando… quando tudo aconteceu."

O olhar de Clara se desvia para Gabriel, que agora se aproxima deles, um sorriso educado no rosto. Helena sente seu coração disparar. A conversa sobre o passado se torna subitamente mais tensa.

"Gabriel!", Clara exclama, surpresa com a presença dele. "Que bom que você veio."

"Clara, sempre um prazer", Gabriel responde, seus olhos encontrando os de Helena por um instante fugaz. "Estou aqui para prestar minhas homenagens ao Antônio. E para garantir que tudo esteja perfeito."

"E está tudo perfeito!", Clara elogia. "Você sempre foi o melhor nisso." Ela olha de um para o outro, sentindo a tensão no ar. "Bom, eu vou dar uma olhada nas outras obras. Helena, depois me procure. Quero saber de tudo."

Clara se afasta, deixando Helena e Gabriel sozinhos em um silêncio carregado. A galeria, antes um refúgio, agora parece uma armadilha.

"Você parece… bem, Helena", Gabriel diz, quebrando o silêncio. Sua voz é calma, mas há uma nuance de algo que ela não consegue identificar. Curiosidade? Ciúme?

"Estou me saindo bem", Helena responde, tentando manter a compostura. "E você? Parece que a vida te tratou bem."

"Tenho minhas lutas", ele responde, o olhar fixo em uma das telas. "Mas, sim, estou construindo meu caminho." Ele se vira para ela, um leve sorriso nos lábios. "Você sempre disse que eu tinha talento para construir coisas. Lembra?"

Helena assente, a memória daquela noite, daquela conversa, voltando com força total. Era a noite em que ela decidiu ficar. A noite em que eles se declararam. E a noite em que tudo começou a desmoronar.

"Acho que você se superou", Helena diz, a voz um pouco mais firme. "Essa exposição é a prova."

"Antônio me ensinou muito", Gabriel diz, o tom de voz suave. "Ele me ensinou a ver a beleza nas coisas imperfeitas. E a nunca desistir do que a gente ama."

As palavras dele a atingem como um raio. Ele está falando de arte? Ou de algo mais? Helena desvia o olhar, incapaz de encarar a intensidade em seus olhos.

"A arte dele era… única", Helena murmura, buscando refúgio em uma conversa segura. "Ele tinha um jeito especial de capturar a essência das coisas."

"Assim como você", Gabriel responde, surpreendendo-a. "Você sempre teve esse dom, Helena. De ver o que ninguém mais via. De sentir o que ninguém mais sentia."

Ela sente o rosto corar. A proximidade dele, as lembranças que suas palavras evocam, a deixam em um estado de alerta constante.

"Acho que todos nós temos nossos dons, Gabriel", Helena diz, tentando soar indiferente. "O importante é saber usá-los."

"E você os usou muito bem em São Paulo, não é?", ele pergunta, a voz mais séria agora. "Ouvi dizer que você se tornou uma artista de renome."

"Eu trabalhei duro", Helena responde, sem entrar em detalhes. Ela não quer falar de sua carreira, não quer falar de sua vida longe dele.

"Imagino", Gabriel diz, um leve tom de admiração em sua voz. "Você sempre foi dedicada." Ele pausa, o olhar fixo em seu rosto. "Mas eu me pergunto se você está feliz, Helena. De verdade."

A pergunta a desarma. A felicidade. Ela construiu uma vida que parecia perfeita aos olhos dos outros. Uma carreira de sucesso, independência financeira, uma vida social ativa. Mas a felicidade verdadeira? Ela não tem certeza se a alcançou.

"A felicidade é uma construção, Gabriel. A gente a busca, a gente a molda", Helena responde, a voz um pouco trêmula.

"E você a encontrou em São Paulo?", ele insiste, o olhar penetrante.

Helena desvia o olhar. Ela não pode mentir para ele, não depois de tudo. Mas também não pode revelar a verdade. A verdade é que, mesmo com todo o sucesso, havia um vazio. Um vazio que, ela percebe agora com uma clareza assustadora, só Gabriel poderia preencher.

"Eu tenho vivido", Helena diz, a voz baixa. "E isso tem sido suficiente."

Gabriel suspira, um som quase inaudível. "Por quanto tempo mais, Helena? Por quanto tempo você vai se contentar em apenas viver, quando você merece muito mais?"

Ele se aproxima um pouco mais, o olhar fixo no dela. "Eu sei que eu errei. Eu sei que te machuquei. Mas eu também aprendi. E eu mudei."

Helena sente um turbilhão de emoções. Esperança, medo, desejo, tudo se misturando em seu peito. Ela quer acreditar nele, quer acreditar que o amor deles, aquele amor que parecia forte demais para ser quebrado, ainda pode ser reconstruído. Mas o medo é maior. O medo de se entregar novamente e se machucar. O medo de descobrir que o tempo mudou não apenas eles, mas também o amor que sentiam.

"Eu não sei se acredito em segundas chances, Gabriel", Helena sussurra, a voz embargada.

"Eu também não acreditava", ele responde, estendendo a mão e tocando suavemente o braço dela. "Mas aí você voltou. E tudo mudou."

Helena olha para a mão dele em seu braço, sentindo o calor familiar. Um arrepio percorre seu corpo. O toque dele, tão gentil, tão cheio de promessas, a faz se lembrar de tudo o que eles viveram. A paixão, a cumplicidade, a intimidade. E a dor. A dor da separação.

"Eu preciso ir", Helena diz, afastando-se dele abruptamente. "Preciso de um tempo para pensar."

Ela se vira e caminha rapidamente em direção à saída da galeria, deixando Gabriel para trás. O som de sua própria respiração ofegante ecoa em seus ouvidos. Ela sai para a noite fria de Paraty, a lua escondida entre as nuvens. O reencontro na galeria, que deveria ser uma celebração, se tornou um turbilhão de emoções. Gabriel está ali, mais maduro, mais experiente, mas com os mesmos olhos azuis que a fizeram se apaixonar perdidamente. E o amor, aquele amor que ela tentou enterrar, parece ter encontrado um jeito de renascer, plantando a semente da dúvida e da esperança em seu coração. A exposição de Antônio Brandão foi apenas o começo. A verdadeira exposição, a exposição de seus próprios sentimentos, está prestes a começar.

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