Promessas Quebradas II
Capítulo 3 — A Verdade Nua e Crua no Apartamento de Ipanema
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — A Verdade Nua e Crua no Apartamento de Ipanema
O apartamento em Ipanema, com sua vista privilegiada para o mar, que outrora fora o refúgio de seus sonhos, agora parecia um palco de suspense. Helena e Rafael estavam sentados no sofá, a sala iluminada apenas pela luz suave de um abajur. O silêncio entre eles era carregado de expectativas, de receios. O som distante das ondas era um contraponto melancólico para a conversa que estava prestes a começar.
Helena observava Rafael. Ele parecia mais velho, mais marcado pela vida. Havia uma gravidade em seu semblante que a inquietava. O homem que ela amara com toda a intensidade era um misto de paixão e leveza. Este Rafael, embora ainda belo, carregava o peso de algo que ela não conseguia decifrar.
"Você quer um café, um vinho?", Helena ofereceu, a voz tensa.
"Não, obrigado. Só quero te contar tudo", Rafael respondeu, a voz firme, mas com um leve tremor. Ele se virou para encará-la, seus olhos escuros fixos nos dela. "Você tem o direito de saber. E eu… eu preciso colocar isso para fora."
Helena respirou fundo. Preparou-se para o que viria. Anos de espera, de sofrimento, tudo culminava naquele momento. "Comece, Rafael. Por favor. Comece do início."
Rafael assentiu. Seus olhos percorreram a sala, como se buscassem em cada objeto um eco do passado. "Lembra-se daquele projeto que eu estava trabalhando? Aquele que me levaria para fora do país por alguns meses?"
Helena assentiu. "Sim. Aquele que você disse que seria a virada na sua carreira."
"Era mais do que isso, Helena. Era algo que eu nunca deveria ter me envolvido. E que colocou você em perigo."
A frase pairou no ar, fria e cortante. Perigo? Helena franziu a testa. "Perigo? Do que você está falando?"
"Eu fui contratado para um trabalho de consultoria para uma empresa de tecnologia. Parecia legítimo, bem remunerado. Mas eu descobri que a empresa estava envolvida em atividades ilícitas. Lavagem de dinheiro, tráfico de informações… coisas muito perigosas."
O coração de Helena começou a bater mais rápido. Aquilo não se encaixava com o Rafael que ela conhecia. Ele sempre fora um homem íntegro, honesto. "Mas… você? Você não faria nada disso."
"Eu não fiz. Mas quando eu descobri, eu me tornei um problema. E eles não podiam me deixar ir embora sabendo o que eu sabia." Rafael fez uma pausa, a voz embargada. "Eu percebi que estavam me vigiando. Começaram a fazer perguntas sobre você, sobre sua rotina. Foi aí que eu soube que você estava em risco."
Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo. A ideia de ter estado em perigo, sem sequer saber, era aterradora. "E você… você foi embora para me proteger?"
"Sim. Foi a única maneira que eu encontrei. Eu fingi que ia viajar para o exterior, para um projeto. E fui, mas com um objetivo: reunir provas contra eles. Eu precisava de tempo, de um lugar seguro para trabalhar, e eu não podia arriscar que eles te usassem contra mim. Eu pensei que, longe daqui, você estaria segura."
"Longe de você, Rafael? Você me deixou sozinha, sem explicações, com o coração em pedaços! Eu não sabia se você estava vivo, se tinha te acontecido algo! Eu sofri, Rafael! Sofri imensamente!" As lágrimas escorriam pelo rosto de Helena, a voz embargada pela dor e pela raiva.
Rafael se aproximou, pegando as mãos dela novamente. "Eu sei. E eu nunca vou me perdoar por isso. Cada dia longe de você foi um tormento. Mas o medo… o medo de que algo te acontecesse era maior. Eu não podia arriscar, Helena. Eu não podia."
Ele contou a ela sobre os meses que se seguiram, sobre a vida que ele levou às sombras, sobre os contatos que fez para obter as informações, sobre o perigo constante que sentiu. Ele descreveu as noites em que dormiu em lugares estranhos, as vezes em que precisou mudar de identidade, o medo de ser descoberto. Era uma história digna de um filme de espionagem, e Helena mal conseguia acreditar que aquilo tinha acontecido com o homem que ela amava.
"Eu consegui as provas, Helena. Provas que incriminavam os diretores daquela empresa. Eu as enviei para as autoridades, anonimamente. E então, eu soube que estava seguro para voltar. Mas eu precisava esperar o momento certo, o momento em que tudo estivesse realmente encerrado. E eu precisava ter certeza de que o perigo para você havia passado completamente."
Ele a olhou nos olhos, com uma sinceridade que Helena não podia duvidar. "Eu voltei para o Rio há algumas semanas. E a primeira coisa que eu quis fazer foi te encontrar. Eu te vi em Copacabana, e meu coração quase parou. Você estava linda, mas… mas a tristeza em seus olhos me partiu. Eu sabia que tinha te feito um mal terrível."
Helena o ouvia, absorvendo cada palavra. A dor de cinco anos de ausência não desaparecera, mas começava a ser tingida por uma nova emoção: a compreensão. Ela via agora a complexidade da situação, o dilema em que Rafael se encontrava.
"Você… você está realmente seguro agora?", ela perguntou, a voz ainda trêmula.
"Sim. A empresa foi desmantelada. Os culpados foram presos. O risco acabou. E agora, eu estou aqui. Com você." Rafael apertou as mãos dela. "Eu sei que te magoei profundamente, Helena. E sei que pedir o seu perdão pode ser pedir demais. Mas eu quero tentar reconstruir o que foi quebrado. Se você me der uma chance."
Helena se levantou e foi até a janela, olhando para o mar. As ondas quebravam na praia, um ritmo constante, como o tempo que passara. Cinquenta anos de vida em cinco anos de dor. Ela pensou em sua solidão, nas noites em que chorou, nas vezes em que pensou que nunca mais amaria alguém. E pensou em Rafael, vivendo uma vida de perigo e isolamento, tudo para protegê-la.
Ela se virou para ele, a determinação em seus olhos. "Rafael, você me fez sofrer. Muito. E eu não sei se consigo apagar todas essas lembranças. Mas eu também te amo. E eu entendo o que você fez. Você agiu por amor, mesmo que tenha sido da maneira mais dolorosa possível."
Um raio de esperança brilhou nos olhos de Rafael. Ele se levantou e se aproximou dela. "Então… o que você quer fazer, Helena?"
Helena respirou fundo. "Eu não sei, Rafael. Eu não sei se posso voltar a confiar em você completamente. Não sei se posso voltar a te amar como antes. Mas… eu estou disposta a tentar. Estou disposta a te ouvir, a te conhecer novamente. E quem sabe… quem sabe o que o futuro nos reserva."
Rafael a abraçou, com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la. Helena retribuiu o abraço, sentindo o calor de seu corpo contra o seu. Era um recomeço, incerto, cheio de cicatrizes, mas um recomeço. A verdade dita, nua e crua, havia dissipado o véu do mistério, mas deixara em seu lugar a complexidade de um amor que fora testado pelas adversidades mais cruéis. A noite em Ipanema, antes marcada pela saudade e pela incerteza, agora se tingia com a promessa frágil de um futuro, um futuro que precisava ser construído tijolo por tijolo, em cima das ruínas de promessas quebradas.