Promessas Quebradas II

Promessas Quebradas II

por Ana Clara Ferreira

Promessas Quebradas II

Capítulo 6 — A Tempestade que Traz a Chuva

O sol da manhã em Ipanema, que antes parecia um abraço morno e reconfortante, agora ardia na pele de Sofia como um lembrete cruel da solidão que a envolvia. O apartamento, outrora palco de risadas e planos sussurrados, ecoava um silêncio pesado, pontuado apenas pelo som distante das ondas quebrando na praia. A noite anterior havia sido um turbilhão de emoções, uma dança perigosa entre a esperança renovada e o medo ancestral. A revelação de Miguel, a confissão de seus tormentos, havia aberto uma fenda no muro que ela construíra ao redor de seu coração.

Ela se levantou, sentindo os músculos doloridos, um reflexo da tensão que a acompanhava há semanas. A cafeteira fumegava suavemente, um ritual matinal que agora parecia vazio. O cheiro forte do café, antes um convite à energia, agora apenas intensificava a sensação de inércia. Sofia caminhou até a varanda, o vento salgado beijando seu rosto. As palmeiras balançavam, suas folhas parecendo acenar em um ritmo melancólico. Olhou para o mar, para a vastidão azul que parecia espelhar a imensidão de sua confusão.

Miguel. A palavra reverberava em sua mente, um eco persistente. Ela ainda sentia o calor de suas mãos em seus braços, a sinceridade em seus olhos marejados. Ele havia se aberto, ela sabia. Havia mostrado a vulnerabilidade que se escondia por trás da armadura de seu orgulho. Mas, ao mesmo tempo, o espectro de Ricardo pairava, uma sombra persistente que se recusava a desaparecer. As promessas quebradas, os segredos enterrados, tudo se misturava em um emaranhado de dor e desejo.

Sentou-se no sofá, a manta de crochê que sua avó lhe dera enrolada em seus ombros. Era um pedaço de sua infância, um refúgio de tempos mais simples. Lembranças de tardes preguiçosas na casa da fazenda, o cheiro de terra molhada após a chuva, o sorriso acolhedor de sua avó. Naquele tempo, as promessas pareciam eternas, tão sólidas quanto as árvores centenárias que cercavam a propriedade. Agora, a fragilidade de todas elas a assombrava.

Um toque na campainha a sobressaltou. Seu coração deu um salto. Seria ele? A esperança, teimosa, acendeu uma faísca em seu peito. Mas rapidamente a razão a trouxe de volta à terra. Miguel não ligaria antes. Ele viria pessoalmente, se viesse. Talvez fosse a Dona Odete, a zeladora, sempre com um sorriso e um pão de queijo quentinho.

Com passos hesitantes, dirigiu-se à porta. Ao espiar pelo olho mágico, um arrepio percorreu sua espinha. Não era Dona Odete. Era Ricardo.

O ar ficou rarefeito em seus pulmões. Ricardo, com seu terno impecável, o cabelo penteado para trás, o sorriso calculado que sempre a deixava em desvantagem. Ele parecia ter saído diretamente de uma revista de negócios, um homem que sempre soube o que queria e como conseguir. E, por anos, o que ele queria era ela.

Hesitou em abrir. O que ele queria? Como ele a havia encontrado? A última vez que se viram, a conversa havia sido um campo minado de acusações e mágoas. Ela havia dito tudo o que sentia, ou assim pensava.

"Sofia? Eu sei que você está aí." A voz dele, suave, mas com um fio de impaciência, atravessou a porta. "Podemos conversar? Por favor."

Ela respirou fundo, a mão ainda no olho mágico. A teimosia lutava contra a curiosidade, contra um resquício de sentimento que ela se recusava a admitir. Talvez fosse a necessidade de fechar aquele capítulo de vez, de confrontar a última ponta solta antes de se entregar à incerteza que Miguel representava.

Relutantemente, destrancou a porta. O clique da tranca pareceu ecoar na quietude do apartamento. Ricardo entrou sem ser convidado, seus olhos percorrendo o ambiente com um olhar de quem avalia propriedades. Sofia manteve-se a uma distância segura, os braços cruzados, o corpo tenso.

"O que você quer, Ricardo?" A voz saiu mais firme do que esperava.

Ele se virou para ela, o sorriso se alargando, mas sem alcançar os olhos. "Eu vim ver como você estava. Depois de tudo..."

"Eu estou bem, Ricardo. Mais do que bem." A mentira saiu com um toque de veneno.

Ele deu um passo à frente. "Sofia, eu sei que as coisas terminaram de forma... complicada. Mas eu não consigo simplesmente esquecer tudo o que tivemos."

"Nós não tivemos 'tudo', Ricardo. Nós tivemos uma ilusão. Uma ilusão que você construiu com suas meias verdades e seus segredos." Ela sentiu a raiva borbulhar, a velha mágoa ressurgindo.

"Segredos? Sofia, você está falando de quê?" Ele fingiu inocência, e isso a enfureceu ainda mais.

"Não se faça de desentendido. Você sabe muito bem do que estou falando. As reuniões secretas, as viagens... A Clara." A última palavra saiu como um golpe.

O rosto de Ricardo endureceu. A máscara de cortesia caiu, revelando a frieza que ela conhecia tão bem. "Clara não tem nada a ver com isso. E você sabe disso."

"Eu não sei mais de nada, Ricardo. E francamente, não me importo mais. Eu vim para cá para recomeçar. Para tentar ser feliz."

"Feliz? Com quem, Sofia? Aquele cara da noite passada? Você não sabe quem ele é. Não sabe de onde ele vem. Ele é perigoso."

A menção a Miguel, dita com aquela insinuação maliciosa, acendeu uma nova onda de raiva em Sofia. "Você não tem o direito de falar dele. E você não tem o direito de vir aqui me dizer o que eu devo ou não fazer."

"Eu tenho o direito de me preocupar com você, Sofia. Eu a amei. Eu ainda..." Ele parou, o olhar desviando por um instante. "Eu ainda me importo."

O "ainda" soou como um gracejo. Ela não acreditava mais em uma palavra que saía da boca dele. "Você se importa com o quê, Ricardo? Com a sua reputação? Com o que os outros vão pensar se eu seguir em frente com alguém que não seja do seu círculo? Você sempre se importou mais com as aparências do que com os sentimentos."

Ele deu mais um passo, invadindo seu espaço pessoal. "Isso não é verdade. Eu fiz muitas coisas por você, Sofia. Sacrifícios."

"Sacrifícios? Ou chantagem emocional? Você sempre soube como me fazer sentir culpada, como me prender com suas teias." Ela o encarou, a determinação endurecendo sua expressão. "Eu não sou mais aquela garota ingênua, Ricardo. Eu aprendi a me valorizar. E você, com toda a sua perfeição aparente, me ensinou uma lição muito valiosa: a de que às vezes, o que parece ouro, na verdade é apenas latão."

Ricardo a encarou, a surpresa estampada em seu rosto. Ele não estava acostumado a ser confrontado assim. Ele estava acostumado a ter controle. "Sofia, você está sendo irracional."

"Irracional é acreditar que você veio aqui para se redimir. Você veio para tentar me controlar, me afastar de qualquer chance de felicidade. Mas eu não vou permitir." Ela ergueu o queixo, desafiadora. "Agora, por favor, saia da minha casa."

Ele riu, um riso seco e amargo. "Você acha que pode simplesmente me dispensar assim? Eu não terminei de falar."

"Eu terminei de ouvir." Sofia apontou para a porta. "Saia. E não volte mais. Eu não quero mais ter nada a ver com você, com seu passado, com suas promessas quebradas."

Por um longo momento, eles se encararam. O silêncio no apartamento se tornou denso, carregado de ressentimento e de um passado que se recusava a morrer. Ricardo parecia analisar cada traço do rosto de Sofia, como se procurasse uma falha, uma fraqueza que pudesse explorar. Mas ele não encontrou nada além de uma resolução fria e inabalável.

Finalmente, com um movimento brusco e mal disfarçado de raiva, ele se virou e caminhou em direção à porta. Parou por um instante, a mão no batente. "Você vai se arrepender disso, Sofia. Você não tem ideia do que está perdendo."

Ele saiu, fechando a porta com um baque que reverberou pelo apartamento. Sofia encostou-se na porta, o corpo tremendo. A adrenalina a mantinha alerta, mas a exaustão emocional a consumia. Ela havia enfrentado o fantasma do seu passado, e a vitória, embora agridoce, lhe trouxe uma clareza inesperada.

Ela sabia que Ricardo não desistiria tão facilmente. Ele era persistente, calculista. Mas ela não era mais a mesma. O amor que Miguel despertava nela, por mais incerto que fosse, era real. Era um sentimento que a impulsionava para frente, não a prendia em correntes de culpa e decepção.

A tempestade havia chegado, sim. A visita de Ricardo fora como um raio em céu azul, perturbador e ameaçador. Mas, de alguma forma, ela sentia que, após a tempestade, a chuva traria a limpeza que ela tanto precisava. A chuva que lavaria as últimas vestígios de Ricardo de sua vida, abrindo espaço para um novo amanhecer, um amanhecer que ela esperava poder compartilhar com Miguel.

Ainda tremendo, ela se dirigiu para a cozinha. A cafeteira ainda estava ali, fumegando. Pegou uma caneca, o calor reconfortante aquecendo suas mãos frias. Olhou para o celular, hesitando. Deveria ligar para Miguel? Contar sobre a visita de Ricardo? Não. Ainda não. Ela precisava processar tudo sozinha primeiro. Precisava sentir que podia enfrentar seus próprios demônios antes de pedir ajuda.

Enquanto o café esfriava em sua mão, Sofia fechou os olhos. Imaginou o rosto de Miguel, a fragilidade que ele havia revelado. E, pela primeira vez em muito tempo, um sorriso genuíno surgiu em seus lábios. A chuva estava chegando, e ela estava pronta para ser lavada por ela.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%