Amor na Tempestade II
Amor na Tempestade II
por Ana Clara Ferreira
Amor na Tempestade II
Por Ana Clara Ferreira
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Capítulo 1 — O Eco de um Passado Inquieto
O vento uivava, um lamento fantasmagórico que se infiltrava pelas frestas da velha mansão em Paraty. Era um som familiar para Helena, quase um companheiro nas noites solitárias que se arrastavam desde que o mundo dela desabara. A chuva batia impiedosa contra os vidros pesados, cada gota parecendo ecoar a tristeza que se instalara em seu peito como um tumor. Há cinco anos, a vida lhe roubara o sol, deixando-a imersa em um crepúsculo perpétuo.
Helena se encolheu ainda mais no sofá de veludo puído, o xale de lã fina mal aquecendo seus ombros magros. A luz fraca da luminária de abajur lançava sombras dançantes pelas paredes repletas de quadros antigos, rostos de antepassados que a observavam com seus olhos de óleo, mudos testemunhos de uma história que parecia se repetir em desgraça. A mansão, antes um palco de risadas e celebrações, agora era um mausoléu de memórias dolorosas.
Seu olhar se perdeu no emaranhado de chuva lá fora. Ela se lembrava daquela noite. A festa no iate, as estrelas cintilando sobre o mar, a promessa de um futuro que parecia tão brilhante quanto o céu. E depois, o caos. O estrondo, o grito de desespero, o silêncio aterrador que se seguiu. A imagem de Ricardo, seu Ricardo, desaparecendo nas águas negras, levado pela fúria da tempestade. Um acidente, disseram. Uma fatalidade, repetiram. Mas para Helena, era uma ferida aberta, uma pergunta sem resposta que a corroía por dentro.
Ela fechou os olhos, tentando afastar as lembranças, mas elas se agarravam a ela como hera em ruínas. O cheiro salgado do mar, o toque de seus lábios, a forma como ele a olhava, como se ela fosse a única estrela em seu universo. Tudo era tão vívido, tão real, que a dor voltava com a força de um soco no estômago.
"Ricardo", sussurrou para o vazio, a voz embargada. "Onde você está?"
Um ruído no andar de cima a sobressaltou. Dona Odete, a governanta fiel que a acompanhava há décadas, provavelmente. A velha senhora era a única alma viva que ainda cruzava os corredores dessa casa esquecida pelo tempo, um elo tênue com o passado. Helena não tinha mais forças para interagir, para sorrir, para fingir que a vida ainda tinha algum sentido.
Respirou fundo, tentando controlar a trepidação que a tomava. A chuva parecia intensificar-se, como se o próprio céu chorasse com ela. Naquela noite, não era apenas a tempestade externa que a assolava, mas a tempestade interna, um furacão de saudade e desespero que ameaçava engoli-la.
De repente, um trovão retumbou, sacudindo a mansão até os alicerces. Helena deu um pulo, o coração disparado. Ela nunca fora medrosa, mas desde a tragédia, qualquer barulho repentino a deixava em estado de alerta, como um animal ferido. A eletricidade falhou por um instante, mergulhando a sala em uma escuridão absoluta. Um suspiro de angústia escapou de seus lábios.
Quando a luz voltou, fraca e instável, ela viu. Uma figura parada à porta da sala. Um homem. Alto, forte, com os cabelos escuros molhados pela chuva e um olhar que ela reconheceria em qualquer lugar.
Seu corpo congelou. O ar faltou em seus pulmões. Era impossível. Era um fantasma. Um truque da sua mente atormentada.
"Helena?", a voz masculina, rouca e incerta, quebrou o silêncio pesado.
Ela não conseguia se mover, nem falar. Apenas olhava, os olhos arregalados, tentando assimilar a visão. O homem deu um passo à frente, a silhueta nítida contra a luz bruxuleante. O rosto. Aquele rosto que ela gravara em sua alma. As feições eram as mesmas, mas marcadas pelo tempo, por uma dureza que não existia antes. Havia uma ruga profunda entre as sobrancelhas, um traço de preocupação que antes era desconhecido.
"Ricardo?", a palavra saiu como um sussurro rouco, quase inaudível.
Ele parou, o corpo tenso. Um sorriso melancólico surgiu em seus lábios, um sorriso que não alcançava os olhos. "Sim, Helena. Sou eu."
A verdade a atingiu com a força de um raio. Ele estava ali. Vivo. Depois de cinco anos. A tempestade lá fora parecia insignificante comparada à tempestade que se formava dentro dela. A incredulidade lutava com a esperança, a dor com o alívio.
"Como?", foi tudo o que ela conseguiu balbuciar. "Como você está aqui?"
Ricardo deu mais alguns passos, aproximando-se. A chuva escorria pelo seu rosto, misturando-se às lágrimas que agora rolavam livremente pelas faces de Helena. "É uma longa história, Helena. Uma história que preciso te contar."
Ele estendeu a mão, hesitantemente. Helena olhou para a mão dele, depois para o rosto dele, perdido em um turbilhão de emoções. O passado, que ela acreditava estar enterrado sob as águas escuras, ressurgiu com uma força avassaladora. A tempestade lá fora podia ser fúria da natureza, mas a tempestade que se iniciava ali, entre eles, era a do reencontro de dois corações que foram separados pela tragédia.
Ele esperou, o olhar fixo no dela, um misto de angústia e súplica. Helena sentiu o corpo tremer. O homem que ela amara, o homem que ela chorou, estava ali. Vivo. Mas quem era ele agora? E o que o trouxe de volta? As perguntas ecoavam em sua mente, tão violentas quanto os trovões que ainda cortavam o céu de Paraty. Ela ainda não sabia se ele era a salvação ou a perdição. A única coisa que sabia era que sua vida, que já parecia estagnada em um luto eterno, acabara de ser virada de cabeça para baixo por um fantasma do passado que se materializou em carne e osso.