Amor na Tempestade II

Capítulo 17 — A Sombra de um Passado Esquecido

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 17 — A Sombra de um Passado Esquecido

O silêncio da noite em Paraty era denso, quebrado apenas pelo murmúrio distante das ondas e pelo assobio do vento que se infiltrava pelas frestas da janela. Helena, deitada em sua cama, lutava contra o sono, a mente agitada como o mar revolto. As palavras de Dona Clara ecoavam em seus pensamentos, cada uma delas um pequeno farol na escuridão que a envolvia. A força na saudade, a busca pela verdade.

Ela se levantou, acendeu o abajur e pegou o pequeno caderno de capa gasta que guardava em sua bolsa. Era seu diário, um confidente silencioso desde a adolescência. Abriu-o em uma página aleatória e começou a ler, relendo memórias que, de repente, pareciam tingidas de um novo significado. Havia algo que ela se esquecera, algo que talvez nunca tivesse percebido.

A lembrança de uma conversa antiga com sua mãe, Dona Lúcia, ressurgiu com clareza assustadora. Sua mãe sempre fora reservada sobre o passado de seu pai, um homem que partira antes mesmo de Helena nascer, deixando para trás um rastro de mistérios e boatos. Falava-se de negócios obscuros, de uma dívida que jamais seria paga. Helena sempre descartara essas histórias como meras fofocas, mas agora, com as revelações sobre a crueldade de Sofia e a possibilidade de haver mais jogos em andamento, ela não podia mais ignorar.

Ela se lembrou de um dia em particular, anos atrás, quando mexia em caixas antigas no sótão da casa de sua infância. Encontrara uma pasta com documentos que pareciam pertencer a seu pai. Havia cartas, contratos e uma pequena fotografia desbotada. Na foto, seu pai aparecia ao lado de um homem que ela não reconheceu de imediato, um homem com um olhar penetrante e um sorriso que beirava o sinistro. Sua mãe, ao ver a foto, apagara-a rapidamente, dizendo que era melhor esquecer o passado.

"Mas por quê, mãe?", Helena havia perguntado.

"Porque algumas lembranças são venenosas, Helena. Elas podem destruir o presente e roubar o futuro."

Na época, Helena era jovem e ingênua. Acreditava na pureza das relações familiares e não via a necessidade de desenterrar fantasmas. Agora, a história de Sofia e sua família parecia um eco sinistro daquele aviso. Será que o passado de seu pai estava de alguma forma ligado à teia de mentiras e manipulações em que ela se encontrava?

Ela sentou-se à escrivaninha e começou a escrever, não no diário, mas em folhas soltas. Tentava organizar seus pensamentos, traçar uma linha do tempo, conectar os pontos que pareciam dispersos. O nome "Ricardo Almeida" surgiu em sua mente, um nome que ela ouvira sussurrado por sua mãe em momentos de aflição, mas que nunca associara a nada concreto. Seria esse o nome do homem na fotografia?

A necessidade de voltar à São Paulo era crescente. Ela não podia mais se esconder em Paraty. Precisava vasculhar os pertences de seu pai, encontrar aqueles documentos antigos que sua mãe tanto temia. Talvez ali estivesse a chave para entender quem era Sofia de verdade, e por que ela agia com tanto ódio.

A noite avançava, e com ela, uma certeza pairava no ar. O envolvimento de Sofia com Rafael e Miguel não era apenas uma vingança pessoal. Havia algo mais profundo, algo enraizado em histórias que se perderam no tempo. E Helena sentia que a raiz daquela maldição podia estar em seu próprio sangue, em seu próprio legado.

Ela fechou os olhos, respirando fundo. A imagem de Rafael, com seu olhar sincero e seu amor confuso, ainda a assombrava. Ela sabia que ele estava sendo usado, manipulado por Sofia. Mas a revelação de que ele era pai de Miguel, fruto de um momento de fragilidade, de uma noite que ele mesmo parecia não se lembrar claramente, era um golpe duro. Ela amava Rafael, amava a ideia de família que ele representava, mas como poderia reconstruir algo sobre as ruínas da confiança?

A manhã chegou tímida, com os primeiros raios de sol filtrando-se pela janela. Helena sentiu o peso da decisão. Paraty era um porto seguro, mas a tempestade a chamava de volta. Ela pegou o telefone e discou o número da pousada.

"Dona Clara?", Helena disse, a voz firme. "Preciso fazer o check-out. Preciso voltar para São Paulo."

Houve um breve silêncio do outro lado da linha. "A senhora tem certeza, minha filha? O caminho para a verdade nem sempre é o mais fácil."

"Eu sei", Helena respondeu, um sorriso melancólico nos lábios. "Mas a saudade de quem eu sou me chama de volta. E a sombra de um passado esquecido precisa ser iluminada."

Enquanto se arrumava, Helena sentiu uma mistura de apreensão e determinação. A volta para São Paulo seria mais do que um reencontro com a cidade; seria um mergulho em sua própria história, uma busca por respostas que poderiam mudar tudo o que ela acreditava ser. Ela não sabia o que encontraria, mas sabia que não podia mais fugir. O passado, afinal, sempre encontra uma maneira de nos alcançar. E Helena estava pronta para enfrentá-lo.

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