O Príncipe das Sombras III
O Príncipe das Sombras III
por Camila Costa
O Príncipe das Sombras III
Por Camila Costa
Capítulo 1 — O Reencontro Sob o Céu Tempestuoso
A chuva caía com a fúria de quem carrega segredos antigos, chicoteando as janelas do casarão em Paraty. Era um prenúncio, talvez um aviso, da tempestade que se avizinhava na vida de Isabella. Três anos. Três anos desde que o mundo dela desabara, levado pelo vento do destino em direção a um abismo de dor e saudade. E agora, ele estava ali. O homem que personificava tanto a luz quanto as trevas em seu coração.
Isabella apertou o xale de lã sobre os ombros, o tecido áspero oferecendo um conforto ilusório contra o frio que não vinha apenas do clima. O salão da casa de sua tia, Dona Adelaide, um refúgio de memórias e objetos de família, parecia pequeno demais para conter a apreensão que a consumia. As venezianas de madeira escura mal conseguiam deter a visão das árvores retorcidas pelo vento, as folhas dançando freneticamente em uma coreografia macabra.
O som da campainha, um tilintar agudo que cortou o barulho da chuva, fez seu coração disparar. Era ele. Não havia como disfarçar a sensação, um arrepio gelado que percorreu sua espinha. Um arrepio que, ironicamente, era familiar. Ela se levantou da poltrona de veludo, os pés descalços afundando levemente no tapete persa gasto. Cada passo em direção à porta parecia pesar uma tonelada.
Dona Adelaide, uma mulher de cabelos grisalhos impecavelmente penteados e um olhar penetrante, observava a sobrinha da varanda, uma xícara de chá fumegante nas mãos. "Você vai atender, Bela? Ou prefere que eu o faça?"
Isabella parou, o olhar fixo na porta maciça de jacarandá. A pergunta de sua tia era um convite para um mergulho em águas profundas e desconhecidas. "Eu vou, tia." Sua voz soou mais firme do que ela esperava, um fio de coragem em meio ao turbilhão.
Ao abrir a porta, o vento gelado invadiu o salão, trazendo consigo o cheiro de terra molhada e algo mais… algo que ela reconheceu de imediato: o perfume amadeirado e levemente picante de Alexandre. Ele estava ali, parado na soleira, envolto em um sobretudo escuro que parecia absorver a pouca luz. A chuva escorria por seus cabelos negros, emoldurando um rosto que ela havia gravado em sua alma. Era o mesmo rosto esculpido, a mandíbula forte, os olhos escuros que pareciam esconder universos inteiros. Mas havia algo diferente. Uma maturidade, uma seriedade que não existia antes.
Alexandre a encarou, e por um instante, o tempo parou. A chuva, o vento, a própria Paraty, tudo desapareceu. Restava apenas o olhar intenso, a conexão que, apesar do tempo e da dor, ainda pulsava entre eles. Ele não disse nada. Apenas a observou, como se estivesse reavaliando cada centímetro de seu ser, buscando traços da mulher que amou e perdeu.
Isabella sentiu suas pernas fraquejarem, mas manteve-se firme. A dor do passado a havia endurecido, a transformado. Ela não era mais a jovem ingênua que ele deixara para trás. "Alexandre", ela disse, a voz embargada, um sopro de emoção contida.
Ele inclinou a cabeça ligeiramente. "Isabella." O som do seu nome em sua voz era como uma melodia esquecida, tocada em um tom mais grave, mais profundo. Era a melodia que a assombrava em seus sonhos.
"Você… você veio." Não era uma pergunta, era uma constatação.
Um leve sorriso, quase imperceptível, brincou nos lábios dele. "Eu disse que voltaria."
A lembrança daquela promessa, feita sob a luz pálida da lua em uma noite que parecia tão distante, a atingiu como um raio. E naquele momento, ela soube que a tempestade que ameaçava se formar em sua vida tinha nome e sobrenome.
Dona Adelaide se aproximou, o olhar avaliando o homem parado na porta. Ela não esquecera de Alexandre, nem o impacto que ele teve na vida da sobrinha. "Alexandre, que surpresa desagradável… ou talvez, não tão desagradável assim. Entre, por favor. A chuva não está para brincadeiras." Sua voz era polida, mas carregava um tom de advertência velada.
Ele assentiu para Dona Adelaide, um gesto de respeito que não diminuía a tensão entre ele e Isabella. Ao passar pela porta, ele trouxe consigo uma aura de mistério e poder, um ar de quem carrega o peso de mundos nas costas. Ele era o príncipe das sombras, e ela, de alguma forma, havia sido atraída para o seu reino.
Enquanto Alexandre tirava o sobretudo molhado, Isabella o observava. Ele estava mais imponente, os ombros mais largos, a expressão mais sombria. Os anos haviam esculpido nele um homem de aço, com cicatrizes invisíveis que ela podia sentir de longe. Ele parecia ter se tornado ainda mais atraente, de uma forma perigosa e sedutora, um predador em seu ambiente natural.
"Você está diferente", ele disse, o olhar fixo nela.
Isabella riu, um riso seco e sem humor. "E você não. Ou melhor, você está ainda mais… você."
Ele a encarou, e por um breve momento, a intensidade em seus olhos amoleceu, revelando um vislumbre do homem que ela conhecera. "E você, Isabella? O que você tem feito nesses três anos? Tem estado bem?"
A pergunta, tão simples, soou como um interrogatório. Ela se afastou um pouco, buscando se recompor. "Tenho vivido, Alexandre. Tenho sobrevivido." A palavra "sobrevivido" pairou no ar, carregada de significado.
Ele ergueu uma sobrancelha. "Sobrevivido? Isabella, você sempre foi mais do que uma sobrevivente."
"Talvez eu tenha aprendido a ser. O mundo ensina, não é mesmo?" Ela sentiu a ironia em sua voz e sabia que ele a perceberia.
Alexandre deu um passo à frente, o olhar escuro fixo no dela. "Não foi o mundo que te ensinou, Isabella. Fui eu. E você aprendeu bem demais."
A proximidade dele era sufocante. O perfume dele, a intensidade do seu olhar, tudo a desarmava. Ela podia sentir o calor emanando dele, o mesmo calor que um dia a consumiu. "Você não tem o direito de dizer isso."
"Eu tenho o direito de tudo que me tiraram", ele respondeu, a voz baixa, carregada de uma emoção que ela não conseguia decifrar.
Dona Adelaide, sentindo a tensão no ar, interveio. "Basta. Alexandre, sente-se. Vou preparar algo para vocês comerem. É uma noite longa e chuvosa."
Ela se retirou para a cozinha, deixando Isabella e Alexandre sozinhos no silêncio carregado. A chuva batia contra as janelas, o vento uivava como um lobo solitário. Era o som da saudade, da dor e do desejo que pareciam ter voltado para assombrá-la.
Alexandre se aproximou dela, cada passo calculado, preciso. Ele parou a poucos centímetros de distância, o olhar intenso preso no dela. "Eu sei que você me odeia, Isabella. E eu… eu não posso te culpar."
As palavras dele a atingiram. "Odiar? Eu não sei se odeio, Alexandre. Eu… eu sinto falta. E isso é pior." A confissão escapou antes que ela pudesse contê-la.
Ele a observou por um longo momento, a expressão ilegível. "Sentir falta… Eu também. Todos os dias." Ele estendeu a mão, hesitando por um instante antes de tocar seu rosto. A pele dele estava fria pela chuva, mas o toque era eletrizante.
Isabella fechou os olhos, absorvendo a sensação. Era um toque que ela pensara nunca mais sentir. Era a lembrança de um tempo em que o amor parecia invencível. "Por que você voltou, Alexandre?"
Ele afastou a mão, o olhar voltando a ser sombrio. "Porque você é minha, Isabella. E eu vim reclamar o que é meu."
A declaração, crua e sem rodeios, ecoou no salão, tão forte quanto os trovões lá fora. O príncipe das sombras havia retornado, e seu objetivo era claro. Isabella sentiu um misto de pavor e uma excitação perigosa. Ela sabia que a tempestade que ela temia havia chegado, e dessa vez, ela não sabia se conseguiria sobreviver a ela.