O Príncipe das Sombras III

Capítulo 2 — Fantasmas do Passado em Paraty

por Camila Costa

Capítulo 2 — Fantasmas do Passado em Paraty

A noite em Paraty, envolta em um manto de chuva implacável, parecia ter o dom de evocar os fantasmas que Isabella tentava enterrar. A presença de Alexandre no casarão de sua tia não era apenas um retorno físico; era uma invasão de memórias, um despertar de sentimentos que ela julgava extintos.

Enquanto Dona Adelaide preparava um jantar simples, mas reconfortante, Isabella e Alexandre permaneceram em um silêncio denso, pontuado pelo som da chuva e pelo crepitar da lareira. Ele parecia à vontade naquele ambiente, como se nunca tivesse partido, apenas se afastado temporariamente. Seus olhos escuros percorriam os móveis antigos, os quadros nas paredes, cada detalhe que compunha a história da família de Isabella.

"Este lugar não mudou nada", ele comentou, a voz soando mais relaxada agora.

Isabella o encarou, a testa franzida. "Algumas coisas não precisam mudar para serem significativas."

Ele se virou para ela, um leve sorriso nos lábios. "Ou talvez, algumas coisas mudam tanto que se tornam irreconhecíveis." O olhar dele pairou sobre ela, carregado de uma profundidade que a fez sentir-se exposta.

"Você fala muito em metáforas, Alexandre", ela respondeu, tentando manter uma distância emocional. "Eu prefiro a clareza."

"Clareza nem sempre é o que se busca. Às vezes, o que se busca é a sombra, onde os segredos prosperam." Ele deu um passo na direção dela, diminuindo a distância que ela tentava manter.

"E você é um mestre em prosperar nas sombras, não é?", ela retrucou, sentindo o corpo tensionar.

"Eu aprendi com a melhor professora", ele disse, o olhar escuro capturando o dela.

Aquele jogo de palavras, carregado de duplos sentidos e lembranças, era perigoso. Isabella sabia disso. Cada frase trocada era um fio de uma teia que ele tecia ao redor dela, e ela se sentia cada vez mais enredada.

Dona Adelaide retornou com um tabuleiro de queijos, pães e um vinho tinto que ela guardava para ocasiões especiais. "Para espantar o frio e as lembranças ruins", ela disse, servindo uma taça para cada um.

Enquanto comiam, a conversa fluiu com uma relutância velada. Alexandre perguntava sobre a vida de Isabella em São Paulo, sobre seu trabalho como arquiteta. Ela respondia com poucas palavras, detalhando os aspectos profissionais, mas omitindo a solidão que muitas vezes a acompanhava.

"E você, Alexandre?", Dona Adelaide perguntou, o olhar afiado fixo nele. "O que o traz de volta a Paraty depois de tanto tempo? Ouvi dizer que seus negócios o levaram para o outro lado do mundo."

Alexandre tomou um gole de vinho, o olhar distante. "O mundo é um lugar pequeno, tia Adelaide. E os negócios me trazem de volta às minhas origens." Ele fez uma pausa, o olhar encontrando o de Isabella. "Havia assuntos pendentes."

"Assuntos pendentes", Isabella repetiu, a voz baixa. "Como o que você disse que 'voltaria'?"

Ele não desviou o olhar. "Exatamente. Palavras que foram ditas e que, para mim, têm peso."

O jantar prosseguiu em um clima de tensão subjacente. Cada pergunta parecia um passo em um campo minado. Isabella sentia a necessidade de saber por que ele havia partido, o que o impulsionou a deixá-la, mas o medo de uma resposta dolorosa a impedia de perguntar diretamente.

Após o jantar, Dona Adelaide se retirou para seus aposentos, deixando Isabella e Alexandre a sós novamente. A chuva havia diminuído, mas o céu ainda estava nublado, um espelho da alma de Isabella.

Alexandre se levantou e caminhou até a janela, observando a noite. "Paraty tem um jeito de nos trazer de volta ao que importa, não acha?"

Isabella o seguiu com o olhar, a mão apertando a taça de vinho vazia. "Ou de nos lembrar do que queríamos esquecer."

Ele se virou, um brilho nos olhos escuros. "Você tentou esquecer, Isabella? De verdade?"

O silêncio que se seguiu foi carregado de uma verdade não dita. Ela não havia conseguido. Ele era uma marca em sua alma, uma cicatriz que, ao invés de desaparecer, parecia ter se aprofundado com o tempo.

"Você sabe a resposta", ela sussurrou.

Alexandre se aproximou dela, o olhar fixo no dela. A proximidade era vertiginosa. Ela podia sentir o calor do corpo dele, o cheiro dele. Era um convite perigoso, um lembrete de que as sombras, embora temidas, também guardavam um fascínio irresistível.

"Eu sei", ele disse, a voz rouca. "E por isso eu voltei." Ele levantou a mão e acariciou o rosto dela, o polegar traçando a linha do seu maxilar. "Eu voltei por você, Isabella."

O toque dele enviou arrepios por todo o corpo de Isabella. Era um toque que ela ansiava e temia em igual medida. "Você não pode simplesmente aparecer depois de três anos e dizer isso. Não é justo."

"Justiça?", ele riu, um som baixo e sombrio. "O que você sabe sobre justiça, Isabella? Eu perdi tudo. Eu fui obrigado a ir embora. E você… você ficou. Você seguiu em frente."

A acusação em sua voz a machucou. "Seguir em frente? Você acha que foi fácil? Você sumiu sem uma palavra, Alexandre! Você me deixou à deriva!" A dor reprimida emergiu em sua voz, forte e clara.

Ele a segurou pelos ombros, o olhar intenso. "E você acha que foi fácil para mim? Eu tive que te deixar para te proteger. Você não entende o perigo que corria. O perigo que eu representava."

"Proteger? Você me abandonou!", ela gritou, as lágrimas começando a brotar em seus olhos.

"Eu precisava me afastar para que você pudesse viver. Para que você pudesse ter um futuro", ele disse, a voz carregada de uma angústia que ela nunca tinha ouvido antes.

"Um futuro sem você não era o futuro que eu queria!", ela desabafou, as lágrimas rolando livremente pelo seu rosto. "Você me roubou a chance de escolher!"

Alexandre a puxou para perto, seu corpo forte e protetor. Ele a abraçou, e pela primeira vez em três anos, Isabella permitiu-se ser abraçada por ele. O cheiro dele, a força dele, a segurança ilusória que ele transmitia… tudo era avassalador.

"Eu sinto muito, Isabella", ele sussurrou em seu ouvido. "Eu sinto muito por cada lágrima que você chorou por minha causa. Mas eu fiz o que eu achava que era certo. O que eu achava que era necessário."

Ela se afastou um pouco, olhando em seus olhos. As sombras ainda estavam lá, mas agora ela via também a dor, o arrependimento. "Eu não te entendo, Alexandre. Você me ama ou me usou como uma peça em um jogo maior?"

Ele a segurou pelos braços, os olhos escuros penetrantes. "Eu te amo, Isabella. Mais do que minha própria vida. E foi por isso que eu tive que ir embora. Para que você pudesse continuar a ser a luz que ilumina o mundo, e eu… eu continuo sendo o príncipe das sombras."

A declaração de amor, tão esperada e tão inesperada, deixou Isabella sem fôlego. Mas a separação que ele impunha, a dualidade que ele representava, era um fardo pesado demais.

"Mas você voltou", ela sussurrou, a voz embargada. "Por quê?"

"Porque eu não posso mais viver sem você. Porque a escuridão não tem graça sem a sua luz para contrastar", ele disse, aproximando o rosto do dela. "E porque eu não vou mais te deixar ir, Isabella. Não importa o que aconteça."

O beijo que se seguiu foi um turbilhão de emoções. Era paixão, saudade, dor, reconciliação. Era o reencontro de duas almas que se pertenciam, mas que o destino teimava em separar. A chuva lá fora havia cessado, mas a tempestade dentro de Isabella apenas começava. Ela sabia que a volta de Alexandre significava o fim de sua paz, mas também o início de um amor que ela julgava perdido para sempre. E naquele momento, ela se permitiu ser levada pela correnteza, para o centro da tempestade, para os braços do homem que era seu paraíso e seu inferno.

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