O Príncipe das Sombras III
Capítulo 4 — Sussurros e Sombras nos Corredores
por Camila Costa
Capítulo 4 — Sussurros e Sombras nos Corredores
Os dias em Paraty se arrastavam em um ritmo lento e tenso. Alexandre parecia se mover pelas sombras do casarão como um fantasma, seus passos silenciosos, seu olhar sempre alerta. Isabella sentia sua presença constante, uma mistura de alívio e apreensão. Ela o amava, e a ideia de tê-lo de volta era um bálsamo para sua alma, mas a incerteza sobre o que o cercava a consumia.
Dona Adelaide, com sua sabedoria de vida, observava a dinâmica entre os dois com um misto de preocupação e resignação. Ela via a paixão que ainda ardia entre eles, mas também o perigo que pairava no ar.
"Você não pode ignorar o que está acontecendo, Isabella", disse Dona Adelaide uma tarde, enquanto as duas arrumavam flores no jardim. "Alexandre trouxe uma tempestade para cá. E você está bem no olho do furacão."
Isabella suspirou, cortando um pequeno galho de jasmim. "Eu sei, tia. Mas eu não posso simplesmente virar as costas para ele. Ele voltou. Ele disse que me ama."
"Amor é uma coisa, meu bem. Prudência é outra", Dona Adelaide retrucou, o olhar sério. "Esse homem, por mais que você o ame, tem um passado sombrio. E as sombras que ele carrega parecem querer segui-lo."
Naquela noite, enquanto Alexandre estava em seu quarto, uma ligação misteriosa o tirou de lá abruptamente. Ele saiu sem dizer uma palavra, deixando Isabella com um nó na garganta. Ela sabia que algo estava errado, que o perigo que ele mencionara estava se aproximando.
Horas depois, quando a madrugada já adentrava, Alexandre retornou. Seu sobretudo estava sujo de terra, e seu rosto, pálido e tenso. Ele parecia mais um guerreiro ferido do que um príncipe.
"Onde você esteve?", Isabella perguntou, a voz embargada de preocupação.
Ele a puxou para perto, o abraço apertado e urgente. "Estive resolvendo umas questões, meu amor. Nada com que você precise se preocupar."
"Nada com que eu precise me preocupar? Alexandre, você está machucado!", ela exclamou, notando um arranhão superficial em sua testa e a forma como ele mancava levemente.
"É só um arranhão. Nada que um pouco de descanso não resolva", ele disse, tentando desviar o olhar.
"Mentiroso!", ela o acusou, o coração apertado. "Você está mentindo para mim. Eu sinto isso. O que está acontecendo?"
Ele a segurou pelos ombros, o olhar escuro e intenso. "Eu não posso te contar tudo, Isabella. Não ainda. Mas saiba que eu estou lutando para te proteger. Para que possamos ter um futuro juntos, sem as sombras do meu passado nos assombrando."
"Mas se você não me contar, como posso te ajudar? Como posso te proteger?", ela implorou, as lágrimas rolando pelo seu rosto.
Alexandre a puxou para um abraço, o corpo dele tremendo levemente. "Você já me protege, Isabella. Apenas por existir. Apenas por ser você." Ele a beijou, um beijo profundo e apaixonado, como se quisesse gravá-la em sua memória. "Durma, meu amor. Eu cuidarei de tudo."
Na manhã seguinte, Alexandre parecia ter se recuperado, a energia sombria de volta, mas com um toque de urgência. Ele passou o dia em ligações discretas, saindo e voltando com frequência, sempre evasivo sobre seus compromissos. Isabella se sentia cada vez mais isolada, presa entre o amor que sentia e o medo do desconhecido.
Uma tarde, enquanto organizava alguns livros antigos na biblioteca, ela encontrou um envelope escondido entre as páginas de um volume de poesia. O envelope era velho, amarelado, e continha uma única folha de papel com uma caligrafia elegante e familiar. Eram cartas. Cartas de Alexandre. Cartas que ele havia escrito para ela antes de desaparecer, mas que nunca enviou.
Ela as leu com as mãos trêmulas. Eram declarações de amor, de saudade, de planos para o futuro que nunca se concretizaram. Ele falava de como a amava, de como a perda dela o consumia, de como ele precisava protegê-la de um perigo que ele não podia explicar.
"Minha doce Isabella", dizia uma das cartas. "Se você estiver lendo isso, é porque eu precisei partir. Não foi por falta de amor, mas por amor. Há forças em meu mundo que não te alcançariam se você estivesse perto de mim. Eu tenho que te manter longe para que você possa viver. Para que a sua luz não se apague na escuridão que me cerca. Mas saiba que cada batida do meu coração é por você. E um dia, eu voltarei para reivindicar o meu lugar ao seu lado."
As lágrimas rolavam pelo rosto de Isabella enquanto ela lia. Ela entendeu. Ela compreendeu a dor dele, o sacrifício que ele fez. Mas a compreensão não diminuía a mágoa, nem o medo.
Enquanto ela terminava de ler a última carta, a porta da biblioteca se abriu e Alexandre entrou. Ele a observou por um instante, o olhar escuro fixo nas cartas em suas mãos.
"Você as encontrou", ele disse, a voz baixa.
Isabella assentiu, incapaz de falar.
Ele se aproximou, pegando uma das cartas com a mão. "Eu escrevi essas cartas no auge da minha dor. Quando eu mais precisava me lembrar do porquê eu estava lutando."
"Por que você não as enviou?", ela perguntou, a voz embargada.
"Porque eu sabia que era mais seguro. Mais seguro para você. Eu não queria te dar falsas esperanças, ou te expor a perigos antes da hora."
"Perigos? Que perigos, Alexandre?", ela insistiu, sentindo a urgência em suas palavras.
Ele a olhou nos olhos, a intensidade do seu olhar a prendendo. "Pessoas que me devem favores. Pessoas que querem vingança. E um homem, em particular, que acredita que eu o traí. Ele se chama Victor. E ele é implacável."
O nome "Victor" ecoou em sua mente. Ela nunca o ouvira antes, mas sentia a ameaça em sua voz.
"Ele te persegue?", Isabella perguntou.
"Ele está perto. Eu sinto isso. E ele sabe que eu voltei. Ele sabe que estou perto de você."
O medo tomou conta de Isabella. A sombra do passado de Alexandre não era mais um fantasma distante, mas uma ameaça real e presente.
"E o que você vai fazer?", ela perguntou, a voz trêmula.
Alexandre a puxou para si, o abraço forte e protetor. "Eu vou te proteger, Isabella. Custe o que custar. E eu vou enfrentar Victor. Eu vou acabar com isso de uma vez por todas."
Naquele momento, Isabella percebeu que a volta de Alexandre não era apenas um reencontro de almas, mas o início de uma batalha. Uma batalha contra as sombras do passado, contra um inimigo implacável, e contra os próprios medos que os assombravam.
Naquela noite, enquanto a lua se escondia entre as nuvens, um carro escuro parou discretamente em uma rua lateral próxima ao casarão. Um homem saiu do carro, o rosto escondido pela sombra de um chapéu. Ele observou o casarão por alguns minutos, seus olhos frios e calculistas. Ele sabia que Alexandre estava ali. E ele sabia que Isabella estava com ele. A vingança era um prato que ele servia frio, e ele estava prestes a começar a servir. Os corredores de Paraty guardavam segredos, e as sombras estavam começando a se mover.