O Príncipe das Sombras III

O Príncipe das Sombras III

por Camila Costa

O Príncipe das Sombras III

Por Camila Costa

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Capítulo 6 — O Segredo Sombrio de Paraty

O sol da manhã em Paraty insistia em beijar as pedras centenárias das ruas, mas para Helena, cada raio parecia trazer consigo o peso de um segredo inconfessável. O encontro na capela abandonada, o olhar de desespero de Rafael, as palavras que ele não ousou proferir… tudo ecoava em sua mente como um sino fúnebre. Ela se sentia presa em um labirinto de incertezas, onde cada passo a aproximava de um abismo ainda maior.

Seus olhos varriam a paisagem a partir da varanda do casarão colonial que alugara, um refúgio temporário que, ironicamente, parecia tão opressor quanto as sombras que pairavam sobre Rafael. As buganvílias em tons vibrantes de rosa e roxo que adornavam os muros pareciam zombar de sua tristeza. O cheiro salgado do mar misturava-se ao aroma adocicado das flores, uma combinação que antes a encantava e agora a sufocava.

Desde que descobrira o passado turbulento de Rafael, um passado que o ligava àquela cidade colonial de um modo tão íntimo e doloroso, Helena sentia-se compelida a desvendar a verdade. As ruínas da capela, com suas paredes desmoronadas e a vegetação que as cobria, guardavam mais do que apenas vestígios de uma construção antiga. Guardavam fragmentos de uma história que Rafael tentava sepultar.

Ela se lembrou da noite anterior, do silêncio pesado que se instalou entre eles após o embate nas ruínas. Rafael, com seu semblante endurecido, havia se retirado para seus aposentos, deixando-a com mais perguntas do que respostas. Havia uma fragilidade em seus olhos, um medo que ele tentava mascarar com sua habitual pose de controle, e isso a feria mais do que qualquer rancor.

“Helena?” A voz de sua amiga, Sofia, a tirou de seus devaneios.

Sofia, com seus cabelos castanhos sempre levemente desalinhados e um sorriso genuíno, aproximou-se, um copo de suco de maracujá em mãos. “Você está com a cara emburrada há horas. Pensando no príncipe encantado que se esconde atrás das cortinas de mistério?”

Helena forçou um sorriso. “Algo assim. Paraty tem um jeito de nos fazer encarar nossos próprios fantasmas, não é?”

Sofia sentou-se na cadeira ao lado, seu olhar perspicaz captando a angústia de Helena. “Vocês dois… há algo mais acontecendo, não há? Vi a forma como ele te olhou quando voltaram da capela. Como se tivesse visto um fantasma.”

O estômago de Helena revirou. Sofia era uma observadora nata, e esconder algo dela era quase impossível. “É complicado, Sofi. Rafael… ele tem um passado aqui, em Paraty. Um passado que ele tenta esquecer.”

“E você quer desenterrar?” Sofia suspirou, bebendo um gole de seu suco. “Às vezes, Helena, o melhor é deixar o que está enterrado quieto. A curiosidade pode ser uma besta traiçoeira.”

“Mas se esse passado o machuca tanto, talvez seja porque ele precisa ser confrontado. Talvez ele precise de perdão, ou de… não sei, de um pouco de luz para dissipar essas sombras que o consomem.” Helena sentiu a paixão em sua voz. Ela não era apenas uma espectadora; ela sentia a dor de Rafael como se fosse sua.

“Ou talvez ele esteja te protegendo de algo que você não entenderia”, rebateu Sofia, com uma suavidade que não diminuía a importância de suas palavras. “Você se lembra do que ele disse sobre não envolver você em seus problemas?”

“Eu não sou uma criança, Sofia! Eu posso lidar com a verdade. E… eu o amo. Eu quero estar ao lado dele, seja qual for a tempestade.” As palavras saíram com uma sinceridade avassaladora, o amor por Rafael transbordando em cada sílaba.

Sofia a encarou, um brilho de compaixão nos olhos. “Eu sei que você o ama, Helena. E ele também te ama, de um jeito torto e cheio de cicatrizes, mas ama. A questão é: o que você está disposta a fazer para descobrir essa verdade? E o que você fará se a verdade for ainda mais sombria do que você imagina?”

A pergunta pairou no ar, pesada e incômoda. Helena sabia que Sofia estava certa. A verdade poderia ser devastadora. Mas a alternativa, a incerteza, a sensação de estar separada de Rafael por um véu de segredos, era insuportável.

“Eu preciso saber”, Helena disse, sua voz firme, mas com uma nota de apreensão. “Eu preciso entender o que aconteceu naqueles muros. Quem é a mulher que ele tanto teme ver refletida no meu rosto?” A menção à mulher que Rafael mencionara em seu surto de raiva nas ruínas da capela a incomodava profundamente. Quem era ela? Qual a conexão dela com o passado dele em Paraty?

Decidiu que não podia mais esperar. Precisava agir. Levantou-se da cadeira, a decisão firmada em seu olhar. “Eu vou até o centro da cidade. Quero conversar com algumas pessoas que possam saber de algo. Velhos moradores, talvez funcionários da prefeitura… Alguém que tenha vivido aqui por tempo suficiente para ter visto algo.”

Sofia assentiu lentamente. “Tome cuidado, Helena. As sombras de Paraty têm dentes afiados.”

O sol do meio-dia já castigava as ruas de paralelepípedos quando Helena começou sua peregrinação. As casas coloniais, com suas janelas de madeira escura e varandas coloniais, pareciam guardar segredos em cada fresta. A brisa do mar trazia consigo o murmúrio das ondas e o cheiro de maresia, mas também parecia sussurrar histórias antigas.

Ela abordou alguns comerciantes mais velhos, com rostos marcados pelo tempo e pela vida. Perguntou sobre famílias antigas, sobre eventos marcantes na história da cidade, sempre tentando disfarçar o interesse específico que a movia. Alguns a olharam com desconfiança, outros com uma nostalgia melancólica, mas ninguém parecia ter a informação que ela buscava.

Finalmente, em uma pequena livraria de antiguidades, escondida em uma rua lateral pouco frequentada, ela encontrou alguém que poderia ser a peça que faltava. Dona Clara, a proprietária, uma senhora de cabelos brancos presos em um coque impecável e olhos azuis penetrantes, parecia ter vivido tantas histórias quanto os livros que vendia.

“Um sorriso, minha jovem”, disse Dona Clara, quando Helena entrou, atraindo sua atenção com sua expressão preocupada. “Paraty é uma cidade de beleza, não de tristeza. O que a aflige?”

Helena se aproximou do balcão, sentindo uma pontada de esperança. “Dona Clara, eu estou pesquisando a história de algumas famílias que viveram aqui há muitos anos. Talvez você se lembre de uma família chamada… Salles?”

O nome pareceu atingir Dona Clara como um raio. Seus olhos azuis se arregalaram ligeiramente, e um véu de melancolia cobriu seu rosto. Ela pousou um livro antigo que estava limpando, suas mãos tremendo levemente.

“Salles… sim, eu me lembro dos Salles”, ela disse, sua voz adquirindo um tom mais baixo e solene. “Uma família antiga, com um nome que já foi de grande prestígio nesta cidade. Mas… o tempo é cruel, não é? E o tempo, assim como as marés, leva muitas coisas consigo. Incluindo a reputação e a memória.”

Helena prendeu a respiração, sentindo que estava se aproximando do cerne do mistério. “O que aconteceu com eles? Eu sei que eles tiveram uma ligação com o casarão onde Rafael… onde um homem que eu conheço está residindo temporariamente.”

Dona Clara suspirou, um som pesado que parecia carregar o peso de décadas. “A família Salles… eles eram donos de uma fortuna imensa, construída em parte pelo comércio, em parte por… circunstâncias que a história prefere esquecer. Eram donos de muitas terras, muitos imóveis. E o homem que você mencionou… ele seria um herdeiro, não é?”

“Sim”, confirmou Helena.

“Bem”, continuou Dona Clara, seus olhos fixos em um ponto distante, como se revivesse as memórias. “Houve uma tragédia. Uma tragédia que abalou Paraty até seus alicerces. A filha do patriarca, uma jovem linda e promissora chamada Isabela. Ela… ela desapareceu. Sumiu sem deixar rasto. E junto com ela, uma parte significativa da fortuna da família. Alguns dizem que ela fugiu com um amante, outros que foi sequestrada, outros ainda que… algo mais sinistro aconteceu.”

O nome Isabela soou como um eco sombrio nos ouvidos de Helena. Seria essa a mulher que Rafael via refletida nela? A sombra que o assombrava?

“E o que aconteceu depois?” Helena incentivou, sua voz quase um sussurro.

“O patriarca, um homem duro e implacável, nunca aceitou o desaparecimento da filha. Ele se tornou obcecado. Passou anos procurando por ela, ou por quem quer que a tivesse levado. Gastou toda a sua fortuna em investigações, em capangas, em promessas vazias. A família Salles, que antes era o pináculo da sociedade paratiense, caiu em desgraça. Muitos se afastaram, outros se aproveitaram da fragilidade do patriarca para se apossar de seus bens. No final, restou pouco. E o homem que você conhece, o neto do patriarca, herdou não apenas as terras, mas também a maldição dessa história não resolvida. Dizem que a própria alma de Isabela assombra os corredores daquele casarão, uma alma em busca de justiça… ou de vingança.”

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A história era mais complexa e sombria do que ela jamais imaginara. Rafael não era apenas um príncipe das sombras; ele era um herdeiro de um passado trágico, assombrado por fantasmas de carne e osso, e talvez, por espíritos também. Ela olhou para Dona Clara, seus olhos cheios de gratidão e apreensão. A verdade sobre o segredo sombrio de Paraty estava começando a se revelar, e prometia ser tão devastadora quanto o próprio mar em uma tempestade.

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Capítulo 7 — O Legado da Mulher Esquecida

A informação de Dona Clara ecoava na mente de Helena como um grito silencioso. Isabela. A filha desaparecida, a fortuna perdida, o patriarca obcecado. E Rafael, o neto, carregando o peso de tudo aquilo. Helena sentia uma pontada de compaixão misturada a uma crescente inquietação. A sombra que Rafael via nela, a mulher que ele temia, era a imagem de Isabela?

De volta ao casarão, o silêncio era quase palpável. Helena encontrou Rafael sentado na biblioteca, a luz fraca de um abajur realçando as linhas de preocupação em seu rosto. Ele ergueu os olhos quando ela entrou, e por um breve momento, Helena vislumbrou um vislumbre da fragilidade que ele tentava ocultar.

“Onde você esteve?”, ele perguntou, sua voz baixa, sem a habitual frieza.

“Eu… eu conversei com algumas pessoas. Tentei entender um pouco mais sobre a história da sua família aqui em Paraty”, respondeu Helena, aproximando-se dele. Ela hesitou, reunindo coragem. “Eu ouvi falar de uma mulher chamada Isabela.”

O nome, proferido por Helena, pareceu atingir Rafael como um golpe. Seus olhos se fixaram nela, intensos, quase acusadores. A postura relaxada que ele exibia alguns segundos antes desapareceu, substituída por uma rigidez gélida.

“Quem te contou sobre Isabela?”, ele perguntou, a voz tensa.

“Uma senhora, Dona Clara. Ela era uma antiga moradora. Disse que Isabela era sua irmã… sua tia-avó, se não me engano. Ela desapareceu há muitos anos, não foi?” Helena falava com cautela, observando cada reação dele.

Rafael se levantou, sua sombra se projetando longa sobre as prateleiras de livros empoeirados. Ele andou pela sala, como um animal enjaulado. “Isabela era… uma tempestade. Uma força da natureza. E como todas as tempestades, trouxe destruição.”

“Destruição?”, Helena repetiu, a perplexidade em sua voz. “Dona Clara disse que o desaparecimento dela abalou a família, que seu pai ficou obcecado…”

“Obcecado?”, Rafael riu, um som amargo, desprovido de humor. “Ele era um monstro, Helena. E Isabela era a única criatura que ousava desafiá-lo. Ela tinha um espírito livre, uma alma que não se curvava. Mas esse espírito… a levou para um caminho perigoso.”

Ele parou diante de uma janela, olhando para a escuridão que envolvia o jardim. “Meu avô, o patriarca, nunca se recuperou do desaparecimento dela. Ele se tornou um homem amargo, consumido pela própria raiva e pelo desejo de vingança. Ele acreditava que alguém a havia levado, que alguém a havia roubado dele. E ele gastou uma fortuna tentando provar isso, arruinando a si mesmo e à família no processo.”

“E você?”, Helena perguntou, sentindo a urgência de chegar ao âmago da questão. “O que você sabe sobre o que aconteceu com ela? É por isso que você tem tanto medo de me ver… de me perder?”

Rafael se virou para ela, seus olhos escuros como a noite. Havia uma dor profunda neles, uma dor que parecia corroê-lo por dentro. “Você não entende, Helena. Isabela era bela. Tinha a mesma cor de cabelo que você, o mesmo brilho nos olhos. E o meu avô… após o desaparecimento dela, ele se tornou obcecado com a ideia de que eu encontraria alguém como ela. Alguém que pudesse repetir o seu… erro.”

“Erro?”, Helena estava confusa. “Que erro?”

“Ela se apaixonou. Por alguém que meu avô desaprovava completamente. Um homem sem posses, sem nome, que ele via como um parasita. Isabela era orgulhosa, e quando meu avô tentou separá-los, ela… ela tomou uma decisão drástica. Uma decisão que mudou o curso de nossas vidas para sempre.” A voz de Rafael falhou, e ele se afastou, incapaz de continuar.

Helena se aproximou, tocando suavemente seu braço. “Rafael, por favor. Conte-me. Eu preciso entender.”

Ele respirou fundo, como se estivesse se afogando. “Dizem que ela foi encontrada morta. Nas ruínas daquela capela que você visitou. Dizem que foi um suicídio. Mas meu avô… ele nunca acreditou. Ele sempre jurou que alguém a matou, que alguém a usou e depois a descartou. E ele passou o resto de sua vida tentando desvendar esse mistério, culpando a todos e a ninguém ao mesmo tempo.”

Um calafrio percorreu Helena. A capela. As ruínas. A história de Isabela estava intrinsecamente ligada a esse lugar. E a semelhança com ela… a cor do cabelo, o brilho nos olhos… tudo se encaixava de uma forma aterradora.

“E você… você tem medo que eu siga o mesmo caminho? Que eu me apaixone por alguém que sua família… que seu avô desaprovaria?” Helena sentiu uma onda de emoção tomar conta dela. Era esse o medo que o consumia? O medo de que a história se repetisse, de que ela, como Isabela, fosse levada por um amor proibido e acabasse destruída?

Rafael a puxou para perto, seus braços envolvendo-a com uma força que denotava desespero. “Não, Helena. Não é isso. É mais profundo. O fantasma de Isabela não é apenas a memória dela. É a influência dela. A forma como ela moldou a mente do meu avô, a forma como ele projetou em mim suas próprias frustrações e medos. Ele me ensinou a desconfiar do amor, a ver a beleza como uma armadilha, a associar a paixão à ruína.”

Ele afastou o rosto dela, seus olhos buscando os dela com uma intensidade avassaladora. “O fantasma de Isabela é a sombra que me impede de acreditar que alguém possa me amar de verdade, sem segundas intenções, sem me ver como um meio para um fim. É a voz que sussurra em minha mente que toda beleza um dia se corrompe, que todo amor um dia se torna uma ferida aberta.”

Helena sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. A dor de Rafael era palpável, uma dor antiga, transmitida através de gerações. Ele não era apenas um príncipe das sombras; era um homem assombrado por um legado de dor e desconfiança.

“Mas eu não sou Isabela, Rafael”, Helena disse, sua voz embargada pela emoção. “Eu sou Helena. E eu te amo. Eu não sou uma armadilha, nem uma corrupção. Eu sou eu, e o meu amor por você é sincero, é puro.”

Rafael a olhou, seus olhos profundos e cheios de uma mistura de esperança e desespero. “Eu quero acreditar em você, Helena. Deus, como eu quero acreditar. Mas a sombra… a sombra é tão forte.”

Ele a beijou, um beijo desesperado, cheio de anseios reprimidos e medos antigos. Era um beijo que buscava reafirmação, que buscava consolo, que buscava uma prova de que o amor poderia, sim, superar as sombras do passado. Helena retribuiu o beijo com a mesma intensidade, seu corpo se entregando à necessidade de conforto e conexão.

Naquele momento, o casarão colonial parecia menos opressor. As sombras nos corredores pareciam menos ameaçadoras. A história de Isabela ainda pairava no ar, um espectro de dor, mas a presença de Helena, seu amor e sua determinação, pareciam oferecer uma frágil promessa de redenção.

Naquela noite, Rafael compartilhou mais histórias sobre sua infância, sobre a figura sombria de seu avô, sobre a maneira como ele o criara para ser um homem desconfiado e solitário. Ele falava sobre a pressão constante para manter o nome da família, para resgatar a honra perdida. E Helena ouvia, absorvendo cada palavra, sentindo a profundidade da dor que ele carregava.

“Eu nunca senti que era bom o suficiente para ele”, Rafael confessou, sua voz rouca de emoção. “Ele sempre me comparava a Isabela, de uma forma distorcida. Dizia que eu tinha a sua teimosia, a sua audácia, mas que eu precisava ter mais… cautela. Que o amor era uma fraqueza que os fracos exploravam.”

Helena segurou sua mão, apertando-a com firmeza. “Ele estava errado, Rafael. Seu avô estava completamente errado. O amor não é uma fraqueza. É a nossa maior força. E você não é ele. Você é você. E eu te amo exatamente por quem você é.”

Rafael a olhou, um vislumbre de esperança finalmente se acendendo em seus olhos. “Eu quero acreditar nisso, Helena. De verdade.”

“Então acredite”, ela sussurrou, acariciando seu rosto. “Acredite em mim. Acredite em nós.”

O caminho para desvendar o mistério de Isabela e a verdade sobre o passado de Rafael estava longe de terminar. Mas, naquela noite, sob o teto de um casarão antigo, envoltos pelas sombras de Paraty, uma nova luz começava a brilhar. O legado da mulher esquecida, antes apenas uma história de tragédia, agora se tornava um chamado à libertação. E Helena estava determinada a ajudar Rafael a encontrar a sua.

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Capítulo 8 — Os Sussurros da Vila de Pescadores

A brisa do mar, que antes trazia apenas o cheiro de sal e a promessa de um novo dia, agora carregava consigo os ecos das confissões de Rafael e o peso do legado de Isabela. Helena sentia uma urgência crescente em desvendar completamente o que havia acontecido com a mulher que assombrava a família Salles. A semelhança física era assustadora, e a ideia de que Rafael pudesse temer vê-la se tornar a próxima vítima de um destino trágico a impulsionava.

Ela sabia que informações adicionais seriam cruciais. Dona Clara lhe dera um ponto de partida, mas a verdade sobre o desaparecimento e a morte de Isabela poderia estar enterrada em memórias mais íntimas, em locais que guardavam a essência da vida local. A vila de pescadores, com suas casas coloridas e o burburinho constante das redes sendo consertadas, parecia o lugar ideal para buscar essas histórias esquecidas.

“Você tem certeza que quer ir lá sozinha?”, Sofia perguntou, enquanto observava Helena arrumar uma bolsa com alguns pertences. “É um lugar mais afastado, e as pessoas nem sempre são receptivas a estranhos.”

Helena assentiu, um sorriso confiante em seus lábios. “Eu preciso fazer isso, Sofi. Rafael está começando a se abrir, e eu quero ter o máximo de informação possível para ajudá-lo. E eu não sou mais uma estranha completa aqui. Fui bem recebida pela maioria.”

“Ainda assim, tome cuidado. As águas de Paraty podem parecer calmas na superfície, mas escondem correntes perigosas.” Sofia a abraçou. “Se precisar de qualquer coisa, é só ligar. Estarei aqui.”

Helena sentiu um aperto no peito. A preocupação de Sofia era genuína, e ela sabia que estava se arriscando, mas a necessidade de descobrir a verdade era mais forte do que o medo.

Ao chegar à vila de pescadores, o ar se encheu do cheiro forte de peixe fresco, de sal e de madeira antiga. As redes de pesca, penduradas para secar, formavam um intrincado mosaico de cores e texturas contra o céu azul. Barcos coloridos balançavam suavemente na água, suas proas apontando para o mar aberto.

Ela caminhou pelas ruas estreitas, onde os moradores a observavam com uma curiosidade discreta. A maioria parecia familiarizada com os visitantes que vinham de fora, mas havia uma aura de intimidade e pertencimento que ela não sentia nas ruas mais turísticas do centro histórico.

Ela parou perto de um grupo de pescadores que consertavam suas redes, suas mãos habilidosas trabalhando com a precisão de quem faz aquilo há uma vida inteira. Hesitou por um momento, mas a urgência a impeliu a se aproximar.

“Bom dia”, ela disse, com um sorriso caloroso. “Com licença, eu estou procurando algumas informações sobre a história antiga desta região. Talvez vocês possam me ajudar.”

Um dos pescadores mais velhos, com um rosto enrugado como o mapa de uma vida inteira e olhos azuis que refletiam o brilho do mar, a encarou. “Informação é o que não falta aqui, moça. O mar conta muitas histórias, e nós as ouvimos desde que nascemos.”

“É sobre uma família que viveu aqui há muitos anos”, Helena continuou, tentando ser o mais vaga possível, mas ao mesmo tempo, guiando a conversa. “A família Salles. Vocês se lembram deles?”

Um silêncio momentâneo pairou sobre o grupo. Os olhares se cruzaram, um entendimento mudo passando entre eles. O pescador mais velho suspirou, o som quase inaudível em meio ao barulho das ondas.

“Salles… sim. Um nome que já foi forte por aqui. Tinham terras, tinham influência. Mas o tempo, como a maré, leva tudo embora.” Ele coçou a barba grisalha. “O que você quer saber sobre eles?”

Helena se aproximou um pouco mais, sentindo que estava no caminho certo. “Eu soube que eles tiveram uma filha, uma jovem chamada Isabela. Dizem que ela… desapareceu.”

Outro pescador mais jovem, com braços fortes e bronzeados pelo sol, soltou um riso irônico. “Desapareceu? Essa é uma forma educada de dizer. Ninguém aqui se esquece de Isabela. A bela Isabela, que se achava melhor do que todos nós.”

Helena sentiu um arrepio. A rejeição nas palavras do pescador era clara. “O que aconteceu com ela?”, ela perguntou, sua voz suave. “Eu soube que ela… morreu.”

O pescador mais velho balançou a cabeça. “Morreu. Ou foi morta. Ninguém sabe ao certo. Ela era uma flor exótica, acostumada aos luxos da casa grande. Mas tinha um coração que batia no ritmo da vila. Se apaixonou por um dos nossos. Um rapaz bom, mas pobre. Um peixe pequeno para um tubarão como o pai dela.”

Helena sentiu seu coração apertar. “O pai dela… ele era contra o relacionamento?”

“Contra?”, o pescador mais jovem riu novamente. “Ele queria casá-la com um nobre rico, alguém que pudesse restaurar a glória dos Salles. Mas Isabela era teimosa. Tinha o sangue dela para provar isso. Dizia que amava o rapaz, que fugiria com ele.”

“E ela fugiu?”, Helena perguntou, sua voz quase um sussurro.

O pescador mais velho suspirou. “Não sabemos. O rapaz desapareceu junto com ela. E dias depois, o corpo de Isabela foi encontrado perto da praia, nas pedras. Afogada. Mas… alguns diziam que o corpo não parecia o de alguém que se afogou. Parecia… machucado de outra forma.”

As palavras do pescador pintaram um quadro ainda mais sombrio. Isabela não apenas desapareceu, mas seu corpo foi encontrado em circunstâncias suspeitas. E o rapaz que ela amava… ele também sumiu.

“O rapaz… qual era o nome dele?”, Helena perguntou, sua mente trabalhando freneticamente.

“Joaquim”, respondeu o pescador mais velho. “Joaquim era um bom rapaz. Um dos melhores pescadores que já tivemos. Amava Isabela com todo o seu coração. Quando ela sumiu, ele também sumiu. Ninguém mais o viu. Dizem que ele fugiu com medo, que foi preso, que foi morto pelo pai dela. Ninguém sabe a verdade.”

Helena sentiu uma onda de compaixão por Joaquim e Isabela. Um amor que parecia destinado à tragédia desde o início. Ela olhou para os pescadores, seus rostos marcados pela dureza da vida, mas também pela sabedoria adquirida com as marés e as histórias.

“Obrigada”, ela disse, genuinamente grata. “Vocês me ajudaram muito.”

Ela se afastou, o peso das novas informações se somando ao fardo que já carregava. O mistério de Isabela era mais complexo do que imaginava. Não se tratava apenas de um desaparecimento, mas de um amor proibido, de um pai cruel, e de um rapaz que desapareceu sem deixar rasto.

Continuou a caminhar pela vila, sentindo a necessidade de encontrar mais peças para esse quebra-cabeça. Parou perto de uma pequena igreja, onde uma senhora idosa estava varrendo a entrada.

“Bom dia”, Helena disse, aproximando-se. “A senhora parece ser uma moradora antiga desta vila.”

A senhora, com cabelos brancos como a espuma do mar e olhos gentis, sorriu. “Há mais de oitenta anos que a poeira destas ruas conhece os meus passos, minha filha.”

“Eu estou tentando juntar as peças de uma história antiga. Sobre uma jovem chamada Isabela Salles. Ela… ela era apaixonada por um rapaz daqui, não era?”

Os olhos da senhora se encheram de uma melancolia suave. “Ah, Isabela. Uma alma linda, mas perdida. Sim, ela amava Joaquim. Um rapaz de alma pura, que a via como ela realmente era, não como a filha de um homem rico e arrogante.”

“O que aconteceu com eles?”, Helena perguntou, sentindo que a resposta viria dela.

“O pai dela… o senhor Salles, era um homem com muito orgulho e pouca compaixão. Ele não suportava a ideia de sua filha se envolver com um pescador. Mandou Joaquim embora, ameaçou-o. Mas Isabela era forte. Ela disse que amava Joaquim, que não abriria mão dele.” A senhora suspirou. “Um dia, eles desapareceram. Ninguém sabia para onde tinham ido. E depois… depois encontraram o corpo de Isabela na praia. Dizem que ela se jogou do penhasco, desesperada por perder o seu amor. Mas outros dizem… outros dizem que ela foi empurrada.”

A versão do empurrão se repetia, ganhando força com cada relato. Helena sentiu um aperto no estômago. “E Joaquim? O que aconteceu com ele?”

“Ninguém mais o viu. Uns dizem que ele fugiu, com medo de ser acusado. Outros que o pai de Isabela o mandou matar. A verdade… a verdade morreu com o mar. Mas o espírito dele, dizem, ainda anda por aqui, procurando por ela.”

Helena agradeceu à senhora, sentindo-se mais confusa do que antes, mas também com uma certeza crescente. Havia algo sombrio e oculto na morte de Isabela. E Joaquim, o rapaz que a amava, era uma peça fundamental que precisava ser encontrada, ou pelo menos, sua história desvendada.

Ao retornar ao casarão, Helena sentiu o peso das novas informações. Rafael precisava saber de tudo. A história de Isabela não era apenas um conto de tragédia, mas uma narrativa de amor, perda e possivelmente, de assassinato. E a semelhança dela com Isabela, o medo de Rafael, tudo se encaixava em um padrão aterrador.

Ela encontrou Rafael na sala de estar, um livro aberto em seu colo, mas seus olhos pareciam perdidos em pensamentos distantes.

“Rafael”, ela começou, aproximando-se dele. “Eu voltei da vila de pescadores. Eu conversei com algumas pessoas. Elas falaram sobre Isabela. E sobre Joaquim.”

Rafael ergueu os olhos, sua expressão tensa. “E o que elas disseram?”

Helena sentou-se ao lado dele, pegando sua mão. “Disseram que Isabela amava Joaquim, um pescador daqui. E que o seu pai era contra. Disseram que eles desapareceram juntos, e que o corpo de Isabela foi encontrado dias depois, nas pedras. Mas… não foi um simples afogamento. Muitos acreditam que ela foi assassinada. E Joaquim… ninguém mais o viu.”

Rafael apertou a mão dela, seus olhos escuros como a noite. Havia uma mistura de dor e raiva em seu olhar. “Meu avô nunca acreditou na versão oficial. Ele sempre suspeitou que Joaquim teve algo a ver com o desaparecimento de Isabela. Ele acreditava que Joaquim a havia seduzido e depois a abandonado, ou pior.”

“Mas as pessoas da vila acreditam que foi o seu avô, ou alguém contratado por ele, que machucou Isabela, ou até mesmo a empurrou”, Helena disse, a voz firme. “E Joaquim… eles acreditam que ele também foi vítima. Talvez ele tenha tentado protegê-la, e por isso desapareceu.”

Um silêncio pesado se instalou entre eles. A história de Isabela e Joaquim estava se tornando mais clara, e com ela, a profundidade da tragédia que assombrava a família Salles. Helena sabia que não podia deixar isso para trás. O legado da mulher esquecida precisava ser resgatado da escuridão, e ela estava determinada a fazer isso por Rafael, por Isabela, e por Joaquim.

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Capítulo 9 — A Cartilha do Desespero

A noite em Paraty descia como um manto escuro, tingido pela lua cheia que espreitava por entre as nuvens. O casarão, antes um refúgio, agora parecia uma prisão de memórias, seus corredores ecoando com as histórias de Isabela e Joaquim. Helena sentia o peso da verdade que começava a se desvelar, uma verdade que envolvia amor, traição e possivelmente, um crime brutal.

Rafael, imerso em seus pensamentos, parecia ainda mais distante do que o habitual. Ele se movia pelo salão principal com uma inquietação palpável, seus olhos fixos em um ponto invisível, como se estivesse revivendo os fantasmas do passado. Helena o observava, a dor em seu semblante tocando-a profundamente.

“Rafael”, ela chamou suavemente, aproximando-se dele. “Você precisa descansar. Temos muito o que pensar.”

Ele se virou para ela, um brilho de angústia em seus olhos. “Descansar? Como posso descansar, Helena, quando a história que você me contou soa tão familiar? A paixão proibida, o pai tirano, o desaparecimento… é como se o passado estivesse se repetindo. E eu… eu tenho medo.”

“Medo de quê?”, Helena perguntou, pegando suas mãos. Suas palmas estavam frias e ligeiramente úmidas.

“Medo de que a história se repita. Medo de que você, como Isabela, acabe se machucando por minha causa. Medo de que eu seja incapaz de te proteger das sombras que nos cercam.” Sua voz era um sussurro rouco, carregado de um desespero que Elena nunca tinha visto antes.

Ela o puxou para mais perto, seu corpo encontrando o dele em um abraço reconfortante. “Não diga isso, Rafael. Eu não sou Isabela. E você não é o seu avô. Nós somos diferentes. O nosso amor é diferente.”

“Mas as circunstâncias… o legado… é difícil ignorar, Helena. Meu avô passou a vida inteira obcecado com a ideia de vingança, com a necessidade de encontrar o culpado. Ele me ensinou a ver o mundo através de lentes de desconfiança. E agora… agora eu vejo o quão fundo essa desconfiança pode chegar.”

Ele se afastou um pouco, seu olhar varrendo a sala como se procurasse algo. “Preciso encontrar algo. Algo que possa provar… algo que possa libertar Joaquim. Ou pelo menos, honrar a sua memória.”

Helena sentiu uma pontada de curiosidade. “O que você está procurando?”

Rafael hesitou por um momento, depois apontou para uma antiga escrivaninha de madeira escura, repleta de objetos empoeirados. “Meu avô guardava tudo. Documentos, cartas, anotações… tudo relacionado à busca por justiça para Isabela. Talvez haja algo ali. Algum indício que ele tenha ignorado, ou que não tenha conseguido decifrar.”

Juntos, eles se aproximaram da escrivaninha. O pó se ergueu no ar com o toque, revelando a antiguidade dos objetos ali guardados. Havia pilhas de papéis amarelados, um tinteiro seco, uma pena de ave, e um pequeno cofre de metal, corroído pelo tempo.

“Este cofre”, Rafael disse, sua voz tensa. “Eu nunca o vi aberto. Meu avô o guardava como um tesouro.”

Helena observou o cofre. Era pequeno, mas parecia pesado. A fechadura estava desgastada, mas intacta. “Você tem a chave?”

Rafael balançou a cabeça. “Não. Ele nunca me disse onde a guardava.”

Eles começaram a vasculhar os papéis. Cartas de advogados, relatórios de investigadores particulares, recortes de jornais antigos, tudo em uma desordem caótica. Helena sentiu a frustração aumentar a cada minuto que passava. A busca por um fio de esperança em meio a tanto caos era um desafio.

De repente, Rafael parou, seus olhos fixos em um pequeno envelope de cor creme, quase escondido sob uma pilha de documentos. “Esta caligrafia… é da minha avó.”

Ele pegou o envelope com cuidado. Dentro, havia uma única chave pequena e um bilhete dobrado. Helena observou enquanto ele desdobrava o bilhete. Era um pedido de desculpas, escrito em uma caligrafia elegante, mas trêmula.

“Meu querido Jorge”, Rafael leu em voz alta, o nome de seu avô. “‘Sei que você está furioso, mas a verdade é mais complexa do que você imagina. Joaquim não é o monstro que você pensa. Por favor, apenas entenda. A chave para a verdade está aqui dentro. Use-a com sabedoria.’ Assinado, Clara.”

Clara. A avó de Rafael. Uma mulher que ele mal conhecia, falecida quando ele ainda era criança.

“Minha avó… ela sabia de algo”, Rafael murmurou, seus olhos fixos no cofre. “Ela tentou me alertar, mesmo sem me conhecer. Ela sabia que meu avô estava cego pelo ódio.”

Com as mãos trêmulas, Rafael inseriu a pequena chave na fechadura do cofre. Um clique suave soou na sala silenciosa, e a tampa se abriu.

Dentro do cofre, repousavam algumas fotografias antigas, desbotadas pelo tempo, e um pequeno caderno de capa escura, semelhante a uma cartilha escolar.

Rafael pegou as fotografias. Eram imagens de Isabela, radiante e sorridente, em diferentes momentos de sua vida. E em algumas delas, ele estava lá também, Joaquim, o rapaz de olhos sonhadores e sorriso cativante. Em uma das fotos, Isabela e Joaquim estavam abraçados, um amor genuíno transbordando da imagem.

Mas foi o caderno que atraiu a atenção de Helena. Era pequeno, com páginas amareladas e uma caligrafia elegante e familiar. Ela reconheceu a letra: era de Isabela.

“É um diário”, Helena sussurrou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.

Rafael pegou o caderno, suas mãos ainda trêmulas. Ele abriu na primeira página. “O diário de Isabela”, ele confirmou.

Eles começaram a ler, alternando as páginas, as palavras de Isabela ecoando através das décadas, pintando um quadro vivo de sua vida, de seu amor por Joaquim, e de seu conflito com o pai.

“‘Papai insiste em me casar com o Conde de Almeida’”, Helena leu em voz alta, sua voz embargada. “‘Ele fala em dever, em honra. Mas tudo o que eu vejo é um homem frio e calculista. Meu coração pertence a outro. Joaquim é a luz em minha vida, o ar que respiro. Ele não tem posses, mas tem um coração de ouro. E ele me ama. Isso é tudo o que importa.’”

Mais à frente, Isabela descrevia o confronto com o pai. “‘Papai me ameaçou. Disse que arruinaria Joaquim, que o deixaria sem nada. Que me fecharia em um convento se eu ousasse desobedecê-lo. Mas eu não vou ceder. O amor que sinto por Joaquim é mais forte do que qualquer ameaça.’”

E então, as últimas páginas. Escritas com urgência, com medo.

“‘Joaquim está assustado. Papai está mais obcecado do que nunca. Ele enviou seus capangas para vigiar Joaquim. Estamos planejando fugir. Encontrar um lugar onde possamos ser livres, longe de tudo isso. Nosso amor não pode ser destruído.’”

A última entrada, escrita com uma caligrafia apressada e quase ilegível:

“‘Ele sabe. Papai sabe do nosso plano. Estamos em perigo. Joaquim vai nos encontrar no porto ao anoitecer. Se algo acontecer… se não conseguirmos… saibam que meu amor por ele é verdadeiro. Saibam que a vida sem ele não tem sentido. A verdade está lá fora… busquem a verdade.’”

As últimas palavras de Isabela pairaram no ar, carregadas de angústia e um apelo desesperado por justiça.

“‘A verdade…’”, Rafael repetiu, sua voz embargada. “O que ela quis dizer com isso? O que ela sabia?”

Helena pegou outra fotografia do cofre. Era uma imagem de Isabela, mas diferente das outras. Ela estava mais velha, com um semblante cansado, mas havia um brilho diferente em seus olhos. Ao seu lado, estava Joaquim, mas ele parecia diferente também. Havia algo sutilmente perturbador na forma como ele olhava para ela, um olhar que não parecia de amor, mas de… possessividade?

“Rafael”, Helena disse, sua voz hesitante. “Essa foto… há algo estranho nela.”

Rafael pegou a foto, seus olhos se fixando nela. “O quê?”

“Joaquim. Ele parece… diferente. Não é o mesmo olhar das outras fotos. É como se ele estivesse… forçando um sorriso.”

Rafael virou a foto. No verso, havia uma anotação em sua avó, Clara. “‘A verdade que Jorge nunca quis ver.’”

“Meu avô estava cego pelo ódio”, Rafael disse, sua voz baixa e cheia de pesar. “Ele se concentrou em culpar Joaquim pela fuga de Isabela, por sua desonra. Mas talvez a verdade fosse outra. Talvez Joaquim não fosse o mocinho da história.”

A cartilha do desespero de Isabela, o diário que ela deixou para trás, abriu um novo capítulo na investigação. A história não era tão simples quanto parecia. O amor proibido, a tirania do pai, o desaparecimento de ambos… tudo se tornava mais complexo e sombrio. Helena sentiu um arrepio. A semelhança com ela, o medo de Rafael, tudo se tornava mais real. E se o fantasma de Isabela não fosse apenas um símbolo de amor perdido, mas de algo muito mais sombrio?

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Capítulo 10 — O Espelho da Verdade

A revelação contida nas últimas páginas do diário de Isabela e na fotografia enigmática pairava sobre o casal como um presságio sombrio. A imagem de Joaquim, com aquele olhar perturbador, e a anotação da avó de Rafael, “A verdade que Jorge nunca quis ver”, lançavam uma nova e perturbadora luz sobre a história. A narrativa de amor puro e trágico que Helena imaginava começava a se desfazer, revelando uma complexidade que a assustava.

“Não pode ser”, Helena murmurou, olhando para a fotografia, para o rosto de Joaquim que parecia distorcido por uma emoção que ela não conseguia definir. “Ele amava Isabela. As pessoas da vila dizem isso. O diário também sugere isso.”

Rafael, pálido, segurava o diário com firmeza, como se as palavras escritas ali pudessem lhe queimar os dedos. “Meu avô estava obcecado com a ideia de que Joaquim era o culpado. Ele se agarrou a essa narrativa com todas as suas forças. Talvez porque fosse mais fácil culpar um único indivíduo do que confrontar a complexidade da situação, ou a possibilidade de que sua própria filha tivesse um papel mais ativo em seu destino.”

Ele folheou o diário, parando em outra entrada, escrita com a mesma urgência, mas com um tom diferente. “‘Ele me disse que me ama’, Isabela escrevera. ‘Mas seu olhar… às vezes, ele me assusta. Há algo em seus olhos que não consigo decifrar. Ele é possessivo, ciumento. Diz que é o amor, mas às vezes parece algo mais sombrio. Me sinto presa. Quero fugir, não apenas dele, mas da pressão que meu pai exerce. Joaquim é a minha única esperança de liberdade.’”

Helena sentiu um frio percorrer sua espinha. “Presa… O diário sugere que ela se sentia presa a Joaquim também?”

Rafael assentiu lentamente. “Parece que sim. O amor dela por ele era genuíno, mas talvez houvesse uma complicação que meu avô, em sua raiva, ignorou completamente. Talvez Joaquim não fosse a vítima inocente que as pessoas da vila pintaram. Talvez ele fosse… algo mais.”

O peso do legado de Isabela ganhava novas e sombrias camadas. A imagem de Joaquim, o rapaz amado, transformava-se em uma figura ambígua, capaz de amar e de atormentar. E se Isabela não tivesse se afogado, ou sido empurrada por seu pai, mas sim… por Joaquim? A ideia era aterradora, mas a fotografia e as palavras de Isabela no diário não podiam ser ignoradas.

“O que aconteceu com o corpo dela?”, Helena perguntou, sua voz baixa e trêmula. “A necropsia da época… meu avô a mandou fazer, é claro, mas ele a manipulou. Ele queria que o resultado fosse o que ele precisava para incriminar Joaquim. Mas a senhora na vila disse que o corpo não parecia de alguém que se afogou.”

Rafael levantou-se abruptamente, sua inquietação retornando com força total. “Precisamos encontrar os registros originais. A verdadeira autópsia. Se ela foi de fato assassinada, os detalhes podem estar escondidos em algum lugar.”

Eles passaram horas naquela noite, e na manhã seguinte, mergulhados em arquivos empoeirados da antiga delegacia de polícia de Paraty, um lugar esquecido pelo tempo, onde o cheiro de mofo e papel velho pairava no ar. A busca era árdua, mas a determinação de Rafael, agora alimentada por uma necessidade visceral de descobrir a verdade completa, era inabalável.

Finalmente, em meio a um monte de papéis desorganizados, eles encontraram um volume antigo, encadernado em couro desgastado. Era o livro de registro de ocorrências do período em que Isabela desapareceu.

Com as mãos trêmulas, Rafael folheou as páginas até encontrar a data correspondente. Ali estava, o relato do desaparecimento de Isabela Salles e do sumiço de Joaquim. E logo abaixo, o relatório preliminar da autópsia.

“Aqui está”, Rafael disse, sua voz embargada. Ele leu em voz alta: “‘Corpo encontrado nas rochas da praia. Sinais de afogamento, porém, com marcas de contusão no pescoço e nos membros superiores, compatíveis com luta corporal. Presença de edema pulmonar, mas com indícios de sufocamento antecedente.’”

Helena cobriu a boca com as mãos, seus olhos marejados. “Sufocamento… Eles sabem que ela foi sufocada. Não foi um afogamento, Rafael. Foi um assassinato.”

Rafael fechou os olhos por um momento, como se a realidade fosse um peso insuportável. “E Joaquim? O relatório diz que ele foi interrogado, mas alegou inocência. Disse que encontrou Isabela morta na praia e entrou em pânico. Mas… ninguém acreditou nele. Meu avô o acusou publicamente, e ele desapareceu pouco depois. Talvez para fugir da acusação, talvez… porque ele era o culpado.”

A imagem de Joaquim, o rapaz de olhos ambíguos, se solidificou em suas mentes. O amor dele por Isabela poderia ter se transformado em obsessão. A possessividade descrita por ela no diário poderia ter levado a um ato de violência.

“A sua avó, Clara, sabia disso, não é?”, Helena disse, olhando para Rafael. “Ela sabia que a verdade era mais sombria do que seu avô queria admitir. Ela deixou a chave do cofre para você, para que você pudesse descobrir.”

“Sim”, Rafael respondeu, sua voz baixa e pensativa. “Ela sabia. E talvez ela tenha tentado proteger Joaquim, ou talvez ela simplesmente quisesse que a verdade viesse à tona, por mais dolorosa que fosse. Ela sabia que meu avô estava cego pelo ódio, e que ele nunca veria a verdade se ela não fosse revelada de forma inquestionável.”

A revelação pairava no ar, carregada de uma tragédia que se estendia por gerações. Isabela, a jovem de espírito livre, presa entre a tirania do pai e a obsessão de um amor que se tornou sombrio. Joaquim, o rapaz amado, possivelmente o assassino. E o avô de Rafael, cegado pelo ódio e pela desonra, incapaz de ver a verdade.

“Mas e quanto a mim?”, Helena perguntou, a voz embargada, sua própria semelhança com Isabela a assustando ainda mais. “Por que eu me pareço tanto com ela, Rafael? É coincidência? Ou há algo mais?”

Rafael a abraçou, seus braços envolvendo-a com uma força que buscava proteção. “Eu não sei, Helena. Talvez seja apenas uma coincidência cruel. Ou talvez… talvez o destino queira nos mostrar algo. Talvez o fantasma de Isabela não seja apenas uma lembrança do passado, mas um aviso. Um aviso de que o amor, quando distorcido pelo ódio e pela obsessão, pode ser destrutivo.”

Ele a segurou mais perto, seus lábios buscando os dela em um beijo que misturava desespero, amor e uma promessa de proteção. “Eu não vou deixar que nada de ruim aconteça com você, Helena. Eu não sou meu avô. E você não é Isabela. O nosso amor é diferente. É real.”

Helena retribuiu o beijo, sentindo a sinceridade em suas palavras, mas a sombra do passado ainda pairava sobre eles. A verdade sobre Isabela e Joaquim havia sido desvendada, mas a complexidade das emoções e o peso desse legado ainda precisavam ser processados.

Naquela noite, enquanto a lua se escondia por entre as nuvens, Helena e Rafael se entregaram um ao outro, buscando consolo e reafirmação em meio à tempestade de revelações. O amor deles, testado pelas sombras do passado, parecia mais forte do que nunca, mas a incerteza sobre o futuro e a persistente semelhança de Helena com a trágica Isabela permaneciam como um espelho da verdade, refletindo um legado de dor que eles precisariam, juntos, superar. A busca pela verdade havia terminado, mas a jornada para a cura estava apenas começando.

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