Cap. 22 / 21

Cativa do seu Amor

Capítulo 22 — A Resistência do Coração

por Isabela Santos

Capítulo 22 — A Resistência do Coração

Os dias que se seguiram foram um borrão de emoções conflitantes para Helena. O ateliê, antes seu refúgio, agora parecia um campo de batalha onde suas crenças mais profundas eram desmanteladas. A imagem de Arthur Valente, o pai que ela idealizara, se chocava violentamente com a figura sombria e manipuladora que Rafael descrevera. A cada lembrança de infância, uma nova camada de dúvida se depositava, tornando tudo turvo e incerto.

Ela se sentia como uma ilha cercada por um mar revolto de incertezas. Sua mãe, Dona Clara, parecia mais frágil do que nunca. Helena a observava com olhos diferentes, buscando nas suas feições sinais da mulher assustada que Rafael descrevera, a mulher que ousou mentir por amor. Dona Clara, alheia à tormenta que assolava a filha, continuava com sua rotina gentil, mas Helena percebia um véu de melancolia em seus olhos, uma saudade não expressa que agora ganhava novas dimensões.

Rafael tentou contato. Mensagens curtas, mensagens longas, tentativas de chamadas que Helena ignorava ou encerrava rapidamente. Ele entendia a necessidade dela de espaço, mas a angústia de vê-la sofrer, de saber que a verdade dita por ele a estava dilacerando, era insuportável. Ele se sentia um predador que, em sua tentativa de saciar a própria fome, havia destruído a inocência da presa.

Uma tarde, enquanto Helena tentava pintar, as cores pareciam sem vida, os traços hesitantes. A tela, antes um convite à expressão, agora era um espelho de sua confusão interior. Ela jogou o pincel no chão, frustrada. A arte, sua paixão, sua fuga, parecia ter perdido o sentido.

Seus pensamentos vagavam para a conversa com Rafael. A maneira como ele falava sobre sua mãe, com uma mistura de carinho e remorso, o fazia parecer menos um calculista e mais um homem atormentado por seus próprios demônios. Mas a culpa que ele assumia era tão grande, a sua participação em um passado tão sombrio... como ela poderia conciliar isso com os sentimentos que começavam a florescer em seu peito por ele?

Ela se pegou lembrando do toque dele, da intensidade do olhar, da sensação de segurança que ele lhe proporcionava em seus momentos mais íntimos. Seria possível amar alguém que havia estado tão envolvido na teia de mentiras que a cercava? Seria possível perdoar?

Em um impulso, Helena pegou o celular e discou o número de Rafael. Hesitou antes de apertar o botão de ligar, o coração batendo acelerado. Era um passo incerto em um terreno desconhecido.

"Alô?", a voz dele soou na linha, um misto de surpresa e esperança contida.

"Rafael...", Helena começou, a voz ainda trêmula. "Eu... eu preciso falar com você. Mas não aqui."

"Onde você quiser, Helena. Quando você quiser." A urgência em sua voz era palpável.

"O parque... aquele perto da sua casa. Amanhã, ao entardecer." Ela disse, o nome do local soando como um convite a um novo começo, ou a um adeus definitivo.

"Estarei lá", ele respondeu, a voz carregada de emoção.

O dia seguinte chegou com a promessa de um sol tímido, como se a natureza também estivesse em um estado de expectativa. Helena vestiu um casaco leve e saiu, sentindo o peso da decisão em cada passo. Ao chegar ao parque, viu Rafael sentado em um banco, observando as crianças brincarem. Ele se levantou quando a viu, o rosto iluminado por um alívio que ela não conseguia espelhar completamente.

Eles caminharam em silêncio por um tempo, o barulho da cidade abafado pelas árvores. Finalmente, Helena parou e se virou para ele.

"Eu pensei muito, Rafael", ela começou, o olhar fixo no dele. "Eu pensei sobre tudo o que você me disse. E eu ainda estou confusa. Ainda estou magoada. A imagem que eu tinha do meu pai... foi destruída. E a imagem da minha mãe... eu a vejo de forma diferente agora."

Rafael assentiu, compreensivo. "Eu sei, Helena. Eu sinto muito por ter sido o mensageiro de notícias tão dolorosas."

"Mas...", ela continuou, ganhando um pouco de coragem. "Eu também pensei sobre você. Sobre o que você disse sobre o meu pai. Sobre a sua culpa. E eu vi a dor em seus olhos. Eu não acredito que você seja um monstro, Rafael. Acredito que você seja um homem que cometeu erros, assim como todos nós. E eu acredito que você amou a minha mãe."

Um fio de esperança se acendeu no peito de Rafael. Ele nunca imaginara que ela seria capaz de ver além da sombra de seu passado.

"Helena, o meu amor por sua mãe foi real. E a minha culpa... ela me assombra todos os dias. Mas eu nunca quis te machucar. A sua mãe era uma mulher incrível. Ela lutou tanto para te dar uma vida digna, para te proteger da crueldade do seu pai. E eu... eu a amei por isso também."

"E por quê você se afastou?", Helena perguntou, a pergunta que a atormentava.

"Arthur Valente era um homem perigoso. Ele me ameaçou. Ameaçou a sua mãe. Ele era capaz de tudo. Eu percebi que a minha presença ao lado dela só traria mais perigo. Eu tomei uma decisão egoísta, acreditando que me afastar seria a melhor forma de protegê-las. Mas era covardia. Era medo. E eu me arrependi amargamente de cada dia que passei longe de vocês."

Helena o observou atentamente, absorvendo cada palavra. A sinceridade em sua voz, a vulnerabilidade em seus olhos, começaram a quebrar as barreiras que ela havia erguido. Ela ainda sentia a dor, a confusão, mas algo mais começava a emergir: a compreensão. E, talvez, um perdão tímido.

"Eu não posso te perdoar completamente agora, Rafael", ela disse, a voz mais firme. "É muita coisa para processar. Mas eu não quero mais fugir. Eu quero entender. Quero entender a história completa. Quero entender a minha mãe. E quero entender você."

Rafael deu um passo em direção a ela, e desta vez, Helena não se afastou. Ele estendeu a mão, hesitante, e ela, após um momento de reflexão, a pegou. O toque foi elétrico, mas diferente da primeira vez. Havia ali uma suavidade, uma promessa de cura.

"Eu te contarei tudo, Helena", Rafael disse, a voz embargada pela emoção. "Tudo o que eu sei. E juntos, nós vamos encontrar a verdade. E, talvez, encontrar um caminho para seguir em frente."

Eles ficaram ali, de mãos dadas, o sol se pondo no horizonte, pintando o céu com cores vibrantes. As cicatrizes do passado ainda estavam presentes, mas pela primeira vez em muito tempo, um raio de esperança genuína parecia romper as nuvens escuras que os cercavam. A resistência do coração de Helena, que ela pensou ter sido esmagada pela verdade, começava a mostrar a sua força, abrindo espaço para um amor que, apesar de ter nascido em meio a mentiras e dores, prometia ser tão real e intenso quanto as cores que ela tanto amava pintar.

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