Destinos Entrelaçados
Capítulo 22 — O Chamado da Capital e as Sombras do Passado
por Valentina Oliveira
Capítulo 22 — O Chamado da Capital e as Sombras do Passado
O telefone tocou, estridente, quebrando o silêncio opressivo do casarão. Sofia, imersa em suas memórias e no diário de couro que agora parecia uma extensão de sua própria alma, sobressaltou-se. A voz de sua mãe, Dona Cecília, vinha do andar de baixo, em um tom de urgência.
“Sofia! Atenda o telefone, por favor! É importante!”
Com um suspiro, Sofia pousou o diário e caminhou lentamente em direção à sala de estar. O aparelho, um modelo antigo e pesado, repousava sobre um móvel de madeira escura, decorado com porcelanas delicadas. Ao pegar o fone, sentiu um frio percorrer sua espinha. Quem poderia estar ligando em uma tarde de terça-feira, em São Luís, com tanta insistência?
“Alô?”, atendeu, a voz soando mais fraca do que pretendia.
“Sofia? É a Clara.”
O nome da amiga, tão familiar e reconfortante, trouxe um alívio imediato, mas também uma pontada de apreensão. Clara, sua melhor amiga desde a infância, que havia se mudado para o Rio de Janeiro há alguns anos, trabalhando em uma galeria de arte renomada.
“Clara! Meu Deus, que surpresa! Como você está?”, exclamou, um leve sorriso surgindo em seus lábios.
“Estou bem, querida. Mas liguei porque… bem, tenho uma proposta para você. Algo que pode mudar sua vida.” A voz de Clara, embora sempre animada, carregava uma nota de seriedade que intrigou Sofia.
Sofia sentou-se no sofá de veludo, sentindo o peso do mundo diminuir um pouco. “Uma proposta? Do que se trata?”
“Lembra-se do meu chefe, o Sr. Almeida? Ele está abrindo uma nova filial da galeria no Rio. E ele precisa de um curador adjunto. Alguém com um olhar sensível para a arte, com conhecimento e, principalmente, com uma paixão que contagie. Ele sabe do seu trabalho, do seu talento. E eu, claro, falei maravilhas de você.” Clara fez uma pausa, permitindo que a informação amadurecesse. “Ele quer te conhecer. Para discutir a possibilidade. Ele te mandou uma passagem e um convite formal. Chega amanhã.”
Os olhos de Sofia se arregalaram. O Rio de Janeiro. A capital. O palco de tantos sonhos que ela havia guardado em seu coração. A cidade vibrante, cheia de arte, de cultura, de vida. Uma oportunidade de recomeçar, de se reinventar, longe das sombras que a perseguiam em São Luís.
“Rio de Janeiro? Sr. Almeida?”, Sofia repetiu, processando a informação com dificuldade. A ideia era tentadora, mas também assustadora. Deixar para trás a casa de sua mãe, a cidade que a viu crescer, a única coisa que a ligava a um passado que ela tentava, desesperadamente, compreender.
“Sim! Ele quer que você assuma a posição o mais rápido possível. Acredita que seu perfil se encaixa perfeitamente com o que ele procura. É uma oportunidade única, Sofia! Uma chance de você se reencontrar, de mostrar seu verdadeiro potencial.” A voz de Clara estava cheia de entusiasmo, como se ela já pudesse ver Sofia brilhando nos salões da galeria.
Sofia ficou em silêncio por um momento, o coração acelerado. O Rio de Janeiro. E Marcos? Ele estaria lá? A possibilidade de encontrá-lo novamente, de ter uma nova chance, fez seu estômago revirar. Mas também a dor da traição, da mentira, da ausência, voltou com força total.
“Clara, eu… eu não sei o que dizer. É tudo tão repentino.”
“Eu sei, querida. Mas pense com carinho. É uma chance de ouro. Deixar São Luís para trás, o que quer que esteja te prendendo aqui… O Rio pode ser um novo começo. Uma nova vida.” A amiga parecia sentir a angústia de Sofia, a hesitação.
Sofia olhou ao redor, para as paredes que guardavam tantas lembranças de Marcos, para os móveis que testemunharam seus encontros secretos. Ela sentia que estava sufocando ali. A necessidade de escapar, de respirar um ar novo, era quase palpável.
“Eu vou pensar, Clara. Juro que vou pensar. Quando chega a passagem?”
“Amanhã de manhã. Para o voo da tarde. O Sr. Almeida vai te buscar no aeroporto.”
“Certo. Obrigada por pensar em mim, Clara. De verdade.”
“Não precisa agradecer. É para o seu bem. Agora, preciso ir. Nos falamos mais tarde. E pense bem, Sofia. O Rio te espera!”
Ao desligar o telefone, Sofia sentiu-se em um turbilhão de emoções. O Rio de Janeiro. Uma nova vida. A fuga de São Luís. Mas e Marcos? A ideia de encontrá-lo, de confrontá-lo, era tentadora e aterrorizante. Ele a havia ferido profundamente, mas o amor que sentia por ele, por mais confuso que fosse, ainda existia.
Dona Cecília entrou na sala, o rosto preocupado. “Quem era, querida?”
“Era a Clara, mãe. Ela… ela me fez uma proposta. Uma oportunidade de trabalho no Rio de Janeiro. Uma galeria de arte.”
Os olhos de Dona Cecília se iluminaram por um instante, antes de voltarem a se enrugar de preocupação. “Rio de Janeiro? Mas você está tão mal aqui, Sofia. Você precisa de tempo para se curar.”
“E talvez o Rio seja o lugar para isso, mãe. Talvez eu precise de um recomeço. De um lugar onde as sombras do passado não me alcancem com tanta força.” As palavras saíram com uma convicção que surpreendeu até mesmo a si mesma.
“Mas… o Marcos? Você acha que vai conseguir se afastar dele se for para o Rio? Ele pode aparecer lá a qualquer momento!” A voz de Dona Cecília era tingida de um medo palpável.
Sofia estremeceu com a menção do nome dele. “É exatamente por isso, mãe. Talvez lá eu consiga ter respostas. Ou talvez eu consiga finalmente deixá-lo para trás. Eu não sei. Mas eu não posso mais ficar aqui, me afogando nas lembranças.”
Ela levantou-se e foi até a janela, olhando para o céu que começava a escurecer. As luzes da cidade começavam a acender, criando um manto cintilante. São Luís, com toda a sua beleza e dor, estava prestes a ficar para trás. A decisão não seria fácil. Havia a incerteza, o medo do desconhecido, a possibilidade de reencontrar Marcos em circunstâncias ainda mais dolorosas. Mas havia também a esperança de um novo começo, a promessa de um futuro onde ela pudesse, finalmente, encontrar a paz.
Naquela noite, Sofia não conseguiu dormir. Ela revirou o diário de Marcos em suas mãos, relendo as palavras dele, tentando decifrar os enigmas de seus sentimentos. As palavras dele eram um misto de paixão, arrependimento e um amor profundo, mas também de segredos e de uma dor que ele parecia carregar consigo. Ela se perguntava se ele sabia de sua partida iminente. Se ele sentiria sua falta. Se ele viria procurá-la.
A passagem de avião, estendida sobre a escrivaninha, parecia um portal para um destino incerto. O Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa, que agora representava para ela a esperança de um recomeço, mas também a ameaça de reviver as feridas do passado. Ela sabia que a jornada seria árdua, que as sombras de Marcos a acompanhariam, mas a necessidade de se libertar, de encontrar seu próprio caminho, era mais forte do que o medo. O Rio de Janeiro a chamava, e Sofia, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que poderia ter a coragem de atender.
A manhã seguinte chegou fria e nublada em São Luís. Sofia, com a mala feita e o coração apertado, despediu-se de sua mãe. Dona Cecília a abraçou forte, as lágrimas rolando por seu rosto.
“Vai com Deus, minha filha. E não se esqueça de quem você é. Não deixe que ninguém, jamais, te apague.”
Sofia retribuiu o abraço, sentindo a força e o amor de sua mãe. “Eu não vou, mãe. Eu prometo.”
Ao entrar no carro que a levaria ao aeroporto, ela olhou para trás, para o casarão que guardava tantas alegrias e tantas tristezas. Um aceno final para um capítulo que estava prestes a ser encerrado. O Rio de Janeiro a esperava, com suas promessas e seus perigos. E Sofia, com a cicatriz de Marcos ainda pulsando em seu peito, estava pronta para enfrentar o que viesse. O passado se fechava em São Luís, e o futuro se abria, vertiginoso, na Cidade Maravilhosa.