O Milionário Solitário III

Capítulo 3 — O Eco de Uma Voz Que Ele Não Esperava Ouvir

por Valentina Oliveira

Capítulo 3 — O Eco de Uma Voz Que Ele Não Esperava Ouvir

Os dias que se seguiram na fazenda Santa Cecília foram marcados por uma tensão sutil, uma energia diferente pairando no ar. Clara, sob os cuidados de Ricardo e com o auxílio de Jonas, se recuperava lentamente de seus ferimentos. O braço fraturado estava engessado, mas a sua resiliência era palpável. Ela se recusava a ficar parada, tentando auxiliar em tudo o que podia, mesmo que de forma limitada.

Ricardo se viu, para sua própria surpresa, passando mais tempo na sede do que em seus escritórios improvisados na mansão. Ele observava Clara com uma atenção que beirava a obsessão. Via-a interagindo com os animais, sua paixão evidente em cada gesto, em cada palavra. Ela era diferente de todas as mulheres que ele conhecera nos últimos anos. Não havia interesse em sua fortuna, apenas uma genuína preocupação com o bem-estar dela e um senso de responsabilidade que o tocava.

"Você não precisa se preocupar tanto comigo, Sr. Montenegro", disse Clara um dia, enquanto ele lhe trazia uma bandeja com um chá reconfortante. "Eu sou mais forte do que pareço."

Ricardo sorriu, um sorriso genuíno que há muito não aflorava em seus lábios. "Eu não duvido disso, Clara. Mas um ferimento é um ferimento. E eu me sinto responsável."

"Responsável? Pelo meu descuido?", ela brincou, o brilho nos olhos denunciando um humor contagiante.

"Por… estar lá", ele corrigiu, sentindo um rubor inesperado subir ao rosto. Era a primeira vez em anos que se sentia constrangido.

Clara o olhou com uma curiosidade gentil. "Ainda bem que o senhor estava lá. Eu não sei o que teria acontecido se… se não fosse por você e o Jonas."

Ela era doce, atenciosa e incrivelmente forte. Ricardo se pegava conversando com ela por horas, compartilhando detalhes de sua vida que ele jamais revelaria a outra pessoa. Falava sobre seus sonhos de juventude, sobre a paixão que o impulsionava nos negócios, e, de forma sutil, sobre a dor que o assombrava. Clara ouvia com atenção, sem julgamentos, com uma empatia que o desarmava.

"Sabe, Sr. Montenegro", disse Clara em um de seus momentos de conversa, "às vezes, as tempestades que parecem nos destruir são, na verdade, o que nos purifica. Elas levam embora o que não serve mais e abrem espaço para algo novo."

As palavras dela ressoaram em Ricardo de uma forma profunda. Ele se sentiu nu, exposto. Era como se ela pudesse ver através da fachada de homem frio e calculista, enxergando a alma ferida por baixo.

Um dia, enquanto revisava alguns documentos na sala de estar da sede, um som familiar o fez gelar. Era uma melodia de piano, suave e melancólica, tocada com uma delicadeza que ele reconheceria em qualquer lugar do mundo. Era a mesma melodia que Mariana costumava tocar nas noites de chuva.

Seu coração disparou. Ele se levantou abruptamente, o copo de água escorregando de sua mão e caindo no chão, espalhando água por todos os lados. "Quem está tocando?", perguntou, a voz trêmula.

Jonas, que estava por perto, olhou para ele com surpresa. "Ninguém, senhor. Creio que o senhor está ouvindo coisas."

"Não!", Ricardo insistiu, com os olhos fixos em direção à origem do som. "Eu ouvi. Mariana… ela costumava tocar essa música."

Clara entrou na sala, atraída pelo barulho. "Está tudo bem, Sr. Montenegro? Ouvi um barulho."

Ricardo a olhou, a confusão e a dor estampadas em seu rosto. "Você não ouviu? A música… O piano…"

Clara franziu a testa, olhando ao redor. "Não, senhor. Não ouvi nada. Talvez seja o vento nos beirais, ou algum rádio ligado em outra parte da fazenda."

Mas Ricardo sabia o que tinha ouvido. Era a melodia que ecoava em sua alma, a trilha sonora de sua vida com Mariana. Ele se sentiu desorientado, como se o chão tivesse sumido sob seus pés. A fragilidade que Clara lhe havia trazido, a esperança de um recomeço, tudo parecia ruir diante daquele fantasma do passado.

Ele saiu da sala abruptamente, precisando de ar, precisando se afastar daquela ilusão cruel. Caminhou pela fazenda, o som da música agora apenas em sua mente, um lamento persistente. Ele havia tentado escapar, tentado se curar, mas o passado parecia sempre encontrar uma maneira de se infiltrar em sua vida, como uma erva daninha teimosa que se recusa a ser erradicada.

Naquele momento, ele se sentiu mais solitário do que nunca. A presença de Clara, tão reconfortante e cheia de vida, agora parecia zombar dele, um lembrete constante do que ele havia perdido e do quão difícil seria encontrar algo semelhante novamente. O eco daquela voz que ele não esperava ouvir, a melodia que trazia de volta todas as lembranças, o assombrava, deixando-o à beira de um precipício de desespero. Seria possível encontrar a paz, ou ele estaria condenado a vagar para sempre nas sombras de seu passado? A fazenda, que deveria ser um refúgio, agora se tornava um campo de batalha entre o presente e a memória, entre a esperança e a dor.

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