O Milionário Solitário III

Capítulo 7 — A Sombra no Espelho e o Sussurro do Passado

por Valentina Oliveira

Capítulo 7 — A Sombra no Espelho e o Sussurro do Passado

Os dias que se seguiram ao beijo na varanda foram um turbilhão de sensações para Helena. A fazenda "Recanto da Lua", antes um refúgio, agora se transformara em um cenário de intensidade crescente. A presença de Miguel era uma constante, um imã que a atraía irresistivelmente. Os encontros se tornaram mais frequentes, as conversas mais íntimas, os olhares mais carregados de promessas não ditas.

Ela se pegava sorrindo sozinha, revivendo a sensação dos lábios dele nos seus, o calor de seu abraço. Aquele homem, tão reservado e aparentemente inatingível, havia despertado nela uma paixão que ela julgava ter morrido para sempre. O medo ainda estava lá, uma pequena voz em sua mente, lembrando-a das razões pelas quais ela se afastara de qualquer envolvimento profundo. Mas a força do que sentia por Miguel era avassaladora, como um rio caudaloso que rompe as margens.

Miguel, por sua vez, estava visivelmente transformado. A rigidez em sua postura parecia ter se amenizado, substituída por uma leveza que ele não sentia há anos. Seus olhos, antes frequentemente perdidos em uma melancolia distante, agora brilhavam com um novo interesse, uma nova luz. Ele a procurava constantemente, compartilhava com ela os detalhes de sua rotina, os segredos da fazenda, os sonhos que nutria em silêncio.

Certa tarde, enquanto ele a levava para conhecer uma cachoeira escondida nas profundezas da propriedade, o assunto, inevitavelmente, voltou a pairar.

"Você parece mais… leve, Miguel", comentou Helena, observando-o enquanto ele guiava o cavalo pela trilha sinuosa.

Ele sorriu, o sol refletindo em seus cabelos escuros. "Talvez seja a brisa da montanha. Ou talvez seja a companhia." Ele a olhou de relance. "Você tem um efeito peculiar em mim, Helena."

"Eu?", ela riu, o coração batendo mais forte. "E qual seria esse efeito?"

"Você me faz lembrar que a vida é mais do que apenas trabalho e solidão. Que existe beleza, existe… esperança." Ele parou o cavalo e desceu, oferecendo a mão para ajudá-la. "E você, Helena, é a personificação dessa beleza."

Ao descer, seus corpos se tocaram novamente. A atração era palpável. Miguel não resistiu à tentação e a beijou, um beijo mais urgente, mais profundo do que os anteriores. A cachoeira murmurava ao fundo, suas águas cristalinas testemunhando a intensidade do momento. O mundo parecia girar em torno deles, esquecendo-se de tudo mais.

No entanto, como em um roteiro de novela dramática, nem tudo era feito de luz e romance. Naquela mesma noite, enquanto Miguel se preparava para dormir em seu quarto espaçoso e austero, algo o perturbou. Ele estava em frente ao grande espelho veneziano que adornava a parede, observando seu reflexo. A imagem de Helena, em sua mente, se sobrepôs à sua própria. O sorriso dela, o brilho em seus olhos… E então, algo mais sombrio começou a se insinuar.

Uma sombra, sutil e fugaz, pareceu dançar nas profundezas do espelho, como um vulto passando atrás de seu ombro. Miguel franziu a testa. Ele se virou bruscamente, mas não havia nada ali. Apenas o silêncio da noite e o reflexo de seu próprio rosto, agora carregado de uma nova apreensão.

"Estou ficando louco?", murmurou ele para si mesmo, a voz carregada de uma preocupação crescente.

A memória de sua mãe, de seus surtos de paranoia, de suas falas desconexas sobre vozes e sombras, começou a assombrá-lo. Ele sempre lutara contra aquela herança sombria, dedicando sua vida à lógica, à ordem, ao controle absoluto. Mas aquela imagem, aquela sensação de algo alheio presente em seu quarto… era perturbador.

Nos dias seguintes, a sensação se intensificou. Pequenos eventos, que antes ele ignoraria, agora o deixavam em alerta. Um objeto fora do lugar, um barulho inexplicável, a sensação constante de estar sendo observado. Ele tentava racionalizar, culpar o cansaço, o estresse. Mas a sombra no espelho, a impressão de uma presença… era algo que ele não conseguia ignorar.

Ele começou a evitar o espelho. Passava cada vez menos tempo em seu quarto, preferindo a companhia de Helena na vastidão da fazenda. A proximidade dela era um bálsamo, um contraponto à escuridão que parecia querer engoli-lo.

Um dia, enquanto eles trabalhavam juntos no cuidado de um novo pomar, Helena notou a inquietação em Miguel. Ele parecia distraído, seus olhos frequentemente vagando para pontos aleatórios, sua testa franzida em preocupação.

"Miguel, você está bem?", perguntou ela, parando de plantar as mudas de laranjeira. "Você parece… distante."

Ele tentou sorrir, mas o sorriso não alcançou seus olhos. "Estou bem, Helena. Apenas… pensando em algumas coisas da fazenda."

"Coisas da fazenda que te deixam com essa expressão de quem viu um fantasma?", ela brincou, tentando aliviar a tensão.

Miguel hesitou. A ideia de compartilhar suas apreensões com ela, de admitir sua vulnerabilidade, o aterrorizava. Mas a confiança que ele depositava nela era cada vez maior. "Não é bem um fantasma, Helena. Mas… às vezes, tenho a sensação de que não estou sozinho."

Helena o encarou, seus olhos cheios de preocupação genuína. "Você se sente observado?"

"É mais do que isso. Às vezes… é como se houvesse uma presença. Uma sombra." Ele olhou ao redor, como se esperasse que a sombra se materializasse ali, entre as árvores. "Coisas que me lembram… de coisas que eu preferiria esquecer."

Helena sentiu um aperto no peito. Ela sabia pouco sobre o passado de Miguel, sobre sua família, sobre as razões de sua solidão. Mas ela sentia a dor em sua voz, a angústia em seus olhos. "O que você quer dizer, Miguel? O que te faz lembrar?"

Ele respirou fundo, a voz baixa. "Minha mãe. Ela… ela sofria de uma doença mental. Via coisas que não existiam, ouvia vozes. Tinha episódios de paranoia intensa. Eu me lembro de passar no quarto dela e sentir… uma presença no ar, mesmo quando ela estava sozinha." Ele desviou o olhar. "Tenho medo de que essa… herança, me alcance."

Helena se aproximou dele, tocando suavemente seu braço. A pele dele estava fria, apesar do calor da tarde. "Miguel, você não é sua mãe. Você é forte. E você não está sozinho agora."

Ele a olhou, a gratidão em seus olhos era imensa. "Eu sei. E você é a razão pela qual eu me sinto mais forte." Ele a puxou para um abraço apertado. "Mas às vezes, o passado tem um jeito cruel de sussurrar no nosso ouvido, de nos fazer duvidar da nossa própria sanidade."

Enquanto estavam abraçados, Helena sentiu uma estranha corrente de ar frio passar por eles, apesar de não haver vento. Um arrepio percorreu sua espinha. Ela olhou para Miguel, ele também sentiu. A sensação era inegável. A sombra que Miguel sentia parecia se materializar, não como uma figura visível, mas como uma aura de desespero e angústia que pairava sobre eles.

"Você sentiu isso?", perguntou Helena, a voz trêmula.

Miguel assentiu, seus olhos arregalados. "Sim. É… é exatamente como eu me lembro."

Aquele momento, que deveria ser de conforto e união, transformou-se em um prenúncio sombrio. A sombra no espelho de Miguel não era apenas um reflexo distorcido de seu medo. Era um convite para um passado que ele tentava desesperadamente enterrar, um passado que parecia ter voltado para assombrá-lo, ameaçando destruir não apenas sua paz, mas também o florescente amor que nascia entre ele e Helena. O "Recanto da Lua", que antes parecia um paraíso, agora revelava suas próprias sombras, e elas eram mais profundas e perigosas do que qualquer um deles imaginava.

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