A Armadilha do Amor III
Capítulo 2 — A Reencontro Amargo na Sede da OAB
por Camila Costa
Capítulo 2 — A Reencontro Amargo na Sede da OAB
O escritório do Dr. Ramiro, na Rua das Flores, em Rio Claro, era um casarão antigo, com janelas altas e uma fachada que exalava a solenidade do tempo. Helena estacionou seu carro em frente, o coração batendo em um ritmo frenético que parecia ecoar o barulho do trânsito da cidade, tão diferente da paz da serra. Respirou fundo, tentando controlar o nervosismo. Era a primeira vez que voltava a Rio Claro em quinze anos. Quinze anos de silêncio, de distanciamento, de uma vida construída longe das lembranças que a assombravam.
Ao entrar no escritório, a recepcionista, uma jovem de aparência impecável, a cumprimentou com um sorriso profissional. "Bom dia. Posso ajudar?"
"Bom dia. Tenho uma consulta marcada com o Dr. Ramiro. Helena Oliveira."
A recepcionista digitou algo no computador, seus olhos percorrendo a tela. "Ah, sim. Sra. Oliveira. Por favor, aguarde um momento. O Dr. Ramiro já a receberá."
Enquanto esperava, Helena observava o ambiente. O cheiro de livros antigos e cera de móveis se misturava ao aroma sutil de lavanda. As paredes eram adornadas com quadros de paisagens serenas, uma ironia diante da tempestade que se formava em seu interior. Cada objeto parecia desprovido de vida, um reflexo do vazio que ela sentia ao pisar naquele chão.
A porta de um escritório maior se abriu, e um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos e um olhar penetrante, surgiu no corredor. "Sra. Oliveira? Por favor, entre."
Helena o seguiu, sentindo o peso dos olhares da recepcionista em suas costas. O escritório do Dr. Ramiro era ainda mais imponente. Uma mesa de mogno maciço dominava o centro, um mar de papéis organizados em pilhas ordenadas. A janela ampla dava vista para a praça central da cidade, um burburinho de vida que parecia alheio à sua angústia.
"Por favor, sente-se", disse o Dr. Ramiro, indicando uma poltrona confortável em frente à sua mesa.
Helena sentou-se, sentindo a maciez do couro contra sua pele. "Dr. Ramiro, agradeço por me receber."
"O prazer é meu, Sra. Oliveira. Especialmente considerando o motivo da nossa conversa." Ele pegou uma pasta, abriu-a e retirou alguns documentos. "Como sabe, a questão é sobre a dívida deixada pelo seu pai, o Sr. Geraldo Oliveira. Uma dívida considerável, que seu pai se comprometeu a saldar com o Sr. André Bastos."
Ao ouvir o nome de André, o sangue de Helena gelou. André Bastos. O homem que havia sido seu mundo, seu paraíso e seu inferno. O homem que a havia amado com a mesma intensidade que a traiu. Aquele nome era um gatilho, capaz de desenterrar do fundo de sua alma a dor que ela tanto tentou sufocar.
"Eu sei", Helena respondeu, a voz tensa. "Eu assumi a responsabilidade por essa dívida há muito tempo. Sempre paguei as parcelas conforme o combinado."
"Sim, e o Sr. Bastos sempre foi compreensivo. No entanto", o Dr. Ramiro fez uma pausa, seus olhos fixos nos dela, "há alguns meses, o Sr. Bastos faleceu."
A notícia a atingiu como um soco no estômago. André morto? O homem que um dia pulsou com tanta vida, com tanto fogo, agora se fora? Uma onda de choque a percorreu, misturada a uma estranha e perturbadora sensação de alívio. Alívio por não ter que encará-lo, por não ter que ver nos olhos dele a prova viva de tudo o que havia acontecido. Mas também, uma tristeza inesperada, um luto tardio por um amor que, apesar de tudo, fora real.
"Faleceu?", Helena repetiu, a voz quase um sussurro. "Eu não sabia..."
"Sim. Há cerca de três meses. Um acidente de carro, rápido e inesperado. Ele era um homem muito admirado em Rio Claro, uma grande perda para a comunidade." O Dr. Ramiro observou a reação dela, a palidez em seu rosto. "A dívida, como o senhor sabia, era com ele. Agora, a herança de seus bens, incluindo essa dívida, foi passada para seus filhos."
Filhos? André tinha filhos? Helena não sabia disso. A última vez que ela o vira, anos atrás, em um encontro fortuito e doloroso no mercado da cidade, ele estava sozinho.
"Filhos?", ela conseguiu perguntar.
"Sim. Duas filhas. A mais velha, Sofia, agora é a responsável por administrar os bens do pai, inclusive essa dívida que o senhor ainda tem pendente. Ela me procurou para organizar tudo, e a sua dívida está entre os itens que precisam ser renegociados ou quitados."
Helena sentiu um arrepio. Sofia. Um nome que ela não conhecia, mas que agora representava o elo direto com o homem que marcara sua vida. A negociação não seria mais com ele, mas com a filha dele. Uma filha que, provavelmente, guardava ressentimentos, ou pior, que nem sequer sabia a história completa por trás da dívida.
"Eu não sabia que ele tinha filhas", Helena murmurou, ainda processando a informação.
"Sofia é uma jovem mulher, herdou muito do pai. É uma empreendedora nata, muito determinada. Tenho certeza de que vocês chegarão a um acordo. O Sr. Bastos sempre prezou pela honra e pelo cumprimento dos acordos, e acredito que Sofia segue os passos dele."
Honra. A palavra soou irônica em seus lábios. A honra de André havia sido a sua ruína.
"Eu quero quitar essa dívida, Dr. Ramiro. Não quero mais ter esse laço com o passado. Qual é o valor total?"
"Bem", ele folheou os papéis, "com os juros acumulados e os pagamentos que ainda faltam, o valor total é de cento e cinquenta mil reais. Mas, considerando o tempo e a sua boa fé, acredito que a Srta. Sofia esteja aberta a uma negociação. Talvez um plano de pagamento facilitado, ou até mesmo um desconto se a quitação for à vista."
Cento e cinquenta mil reais. Era uma quantia considerável, mas Helena vinha guardando dinheiro com essa finalidade. A fazenda prosperava, e ela conseguira economizar o suficiente para quitar essa pendência.
"Eu tenho o valor para quitação à vista", Helena declarou, a decisão firme em sua voz. "Quero resolver isso o mais rápido possível. Posso fazer o pagamento hoje mesmo."
O Dr. Ramiro sorriu, um sorriso profissional que não escondia a surpresa em seus olhos. "Excelente, Sra. Oliveira. Isso facilitará muito as coisas. Vou contatar a Srta. Sofia imediatamente e agendar um encontro para formalizarmos a quitação. Posso fazer isso para o final da tarde, se for conveniente para a senhora."
"Perfeito", Helena concordou. Ela precisava sair dali, respirar outro ar, longe da sombra de André Bastos. Mas, ao mesmo tempo, uma parte dela sentia um estranho receio. Encontrar Sofia, a filha de André, seria como encarar um reflexo distorcido de seu passado.
Ao sair do escritório, o sol da tarde inundava a praça. A cidade de Rio Claro parecia um palco de memórias, e Helena sentia-se como uma atriz em uma peça antiga, revisando um roteiro doloroso. Ela caminhou em direção ao seu carro, a mente fervilhando de pensamentos. André, morto. Sofia, a herdeira. E uma dívida a ser quitada, o último resquício de um amor que a havia marcado para sempre. A armadilha do amor, que ela pensou ter desarmado há tantos anos, parecia ter se reconfigurado, apresentando-lhe um novo desafio, uma nova ameaça. E, de alguma forma, ela sentia que esse encontro com Sofia seria mais impactante do que ela imaginava. A ironia era cruel: para se livrar do passado, ela teria que confrontá-lo em sua forma mais pura, através de quem levava o sangue do homem que a havia amado e destruído.