A Armadilha do Amor III

Capítulo 4 — A Herança e a Sombra do Passado na Mansão Bastos

por Camila Costa

Capítulo 4 — A Herança e a Sombra do Passado na Mansão Bastos

O escritório do Dr. Ramiro era um lugar de formalidades e silêncios carregados. Helena e Sofia estavam sentadas em poltronas opostas à mesa do advogado, um contrato de quitação em mãos, a caneta esperando para selar o fim de um longo capítulo. O sol já se punha, lançando longas sombras pelos cômodos, como se a própria luz estivesse hesitante em iluminar a transação.

"Aqui está, Sra. Oliveira", disse o Dr. Ramiro, entregando a Helena o documento assinado. "Todo o valor foi confirmado. A dívida está quitada. A partir de agora, não há mais nenhum vínculo financeiro entre a senhora e o espólio de André Bastos."

Helena pegou o documento, suas mãos ligeiramente trêmulas. Aquele pedaço de papel representava a libertação de um fardo que ela carregava há anos. Mas, estranhamente, não sentia apenas alívio. Havia uma pontada de tristeza, um luto tardio pelo amor que um dia floresceu e murchou, deixando apenas as raízes amargas.

"Obrigada, Dr. Ramiro", Helena disse, a voz firme. Ela virou-se para Sofia. "Sofia, agradeço sua compreensão. Sei que a situação não deve ter sido fácil para você."

Sofia assentiu, um leve sorriso melancólico nos lábios. "Não foi. Mas meu pai sempre disse que honrar os acordos era fundamental. E eu respeito isso." Ela fez uma pausa, seus olhos profundos fixos em Helena. "Eu... eu gostaria de entender um pouco mais. Se você se sentir confortável, é claro."

Helena hesitou. Revisitar o passado com a filha do homem que a havia ferido era uma perspectiva assustadora. Mas havia algo nos olhos de Sofia, uma genuína busca por compreensão, que a tocou. E, de certa forma, falar sobre isso com ela era mais fácil do que com qualquer outra pessoa. Talvez fosse a semelhança em seus olhos, ou a maneira como Sofia parecia carregar as marcas invisíveis de seu pai.

"Entender o quê?", Helena perguntou suavemente.

"Tudo", Sofia respondeu. "O que aconteceu entre você e meu pai. Por que a dívida. Por que ele nunca esqueceu você, como eu disse."

Helena respirou fundo. A atmosfera do escritório, antes tensa pela formalidade, agora se tornava densa com as memórias que estavam prestes a ser desenterradas. "Foi há muitos anos, Sofia. Eu era jovem, impulsiva. E seu pai... ele era um homem fascinante. Cheio de vida, de paixão." Um leve rubor subiu ao seu rosto ao relembrar. "Nos apaixonamos perdidamente. Era um amor avassalador, que consumia tudo. Prometemos um futuro juntos."

Sofia ouvia atentamente, seus olhos não se desviando de Helena. "E o que aconteceu?", ela perguntou, a voz baixa.

"Aconteceu que a paixão, por vezes, pode ser cega", Helena disse, a voz embargada pela emoção. "E o amor, quando não é construído sobre bases sólidas, pode se tornar uma armadilha. Seu pai, em sua juventude, era também um homem de negócios ambicioso. Ele se envolveu em um empreendimento arriscado, precisou de um grande investimento. Meu pai, que na época era um homem de posses, acreditou nele. Confiou nele. E emprestou o dinheiro. O acordo era que, se o negócio desse errado, André deveria me pagar uma quantia considerável, para compensar o risco."

Ela fez uma pausa, engolindo em seco. "O negócio fracassou. E André... André não teve a coragem de assumir a responsabilidade. Ele fugiu, me deixando com a promessa quebrada e o peso da dívida. Meu pai, decepcionado e envergonhado, faleceu logo depois. Fiquei sozinha, com a fazenda e com a obrigação de pagar o que meu pai emprestou a André."

Sofia a olhava com uma expressão de profunda tristeza. "Ele nunca me contou essa parte. Ele sempre disse que o acordo foi com seu pai, que você assumiu a dívida por conta própria. Ele falava de você como uma mulher forte, que se reergueu após uma grande perda."

"E eu me reergui", Helena disse, o tom firme. "Mas não sem antes carregar o peso daquela dívida e daquela decepção. Sua família, Sofia, foi a única que eu encontrei em meu caminho para me ajudar. A sua mãe, antes de falecer, fez um acordo com meu pai. Que se eu conseguisse provar que André não cumpriu sua parte, a dívida seria anulada. Mas as provas eram difíceis de obter. Então, aceitei o acordo. Pagar a dívida, com juros, em parcelas que eu pudesse gerenciar, para honrar meu pai e para me livrar desse laço."

Sofia suspirou, uma expressão de dor e compreensão em seu rosto. "Eu... eu não sei o que dizer. Sinto muito por tudo que você passou. Meu pai... ele tinha seus defeitos. E o orgulho o cegava. Mas ele a amava, Helena. De verdade. A maneira como ele falava de você... era com um amor que não morria. Ele guardava suas cartas, suas fotos... ele nunca a esqueceu."

Um nó se formou na garganta de Helena. A confissão de Sofia, a confirmação de que André nunca a esqueceu, era ao mesmo tempo reconfortante e dolorosa. Significa que o amor fora real, mas também que a separação e a mágoa foram profundas.

"E agora?", Helena perguntou, a voz suave. "Você está livre de mim, e eu estou livre do seu pai. Talvez seja o melhor para todos."

Sofia balançou a cabeça. "Não sei se é o melhor. Meu pai a amava. E, de alguma forma, você ainda é parte da história dele. E eu sou parte dele. Talvez... talvez haja um jeito de encerrarmos isso de forma diferente."

Antes que Helena pudesse responder, o Dr. Ramiro voltou, com uma pequena caixa de madeira antiga nas mãos. "Srta. Sofia, encontrei isso nos pertences mais antigos do seu pai. Parecia importante. Está aqui junto com os documentos da dívida."

Sofia pegou a caixa, seus olhos brilhando de curiosidade. Ela a abriu, e dentro, em meio a papéis amarelados, havia um pequeno medalhão de prata, gravado com as iniciais "A & H". As iniciais de André e Helena.

Ao ver o medalhão, o coração de Helena disparou. Era o presente que ela havia dado a André no seu primeiro aniversário juntos. Ela pensou que ele o havia jogado fora, junto com todas as outras lembranças de um amor que ele havia destruído.

Sofia pegou o medalhão, seus dedos traçando as iniciais. "A & H...", ela murmurou, compreendendo. "Isso significa que você é H... Helena."

Helena assentiu, sentindo as lágrimas marejarem seus olhos. Era uma prova silenciosa, guardada pelo tempo, de que o amor que ela sentira fora recíproco, e que as memórias, por mais dolorosas que fossem, haviam sido guardadas.

"Sim", Helena disse, a voz embargada. "Sou eu."

Sofia olhou para Helena, seus olhos verdes cheios de uma nova compreensão. "Meu pai guardou isso. Ele nunca esqueceu você, Helena. Mesmo depois de tudo."

Naquele momento, no escritório do advogado, rodeadas por documentos e lembranças, as duas mulheres, unidas pela sombra de um amor passado e pela herança de um homem complicado, sentiram um elo tênue se formar entre elas. A armadilha do amor, que parecia ter sido desarmada, revelava agora uma nova faceta. Uma faceta de reconciliação, de perdão, e talvez, de um novo começo.

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