Sua para Sempre III
Capítulo 4 — A Fúria De Alencar
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 4 — A Fúria De Alencar
A revelação sobre Ricardo Alencar e a ameaça que ele representava lançou uma sombra sobre a fazenda, transformando o luto silencioso em uma batalha pela sobrevivência. Miguel, com o apoio de Helena, mergulhou nos documentos deixados por Arthur. Cada papel, cada anotação, era uma peça do quebra-cabeça que revelava a teia de intrigas tecida por Alencar.
"Arthur estava tentando expor Alencar," Miguel explicou a Helena, apontando para uma série de anotações rabiscadas em um caderno. "Ele descobriu que Alencar estava usando a empresa deles para lavar dinheiro de atividades ilegais. Ele estava juntando provas, mas era cauteloso. Ele não queria comprometer a fazenda ou a nós."
Helena sentia um nó na garganta. A imagem de Arthur, o homem gentil e íntegro que ela amava, agora se mesclava com a de um homem que lutava secretamente contra forças sombrias. Era difícil conciliar as duas faces do homem que ela conhecera tão bem.
"E o que Alencar quer agora?", Helena perguntou, a voz tensa.
"Ele sabe que Arthur estava investigando. E agora que Arthur se foi, ele quer se livrar de qualquer um que possa expô-lo. Ele quer a fazenda, Helena. Ou, no mínimo, quer que a gente venda por um preço irrisório, antes que a verdade venha à tona." Miguel suspirou. "Ele é um homem perigoso, Helena. Com dinheiro, influência e pouca moral."
A urgência da situação era palpável. Eles precisavam agir rápido, mas com cautela. Miguel, com sua experiência em negociações, tentou uma abordagem inicial, uma tentativa de fazer um acordo com Alencar, usando as provas que Arthur havia reunido como moeda de troca. A resposta de Alencar foi um convite para uma conversa, que Miguel aceitou, sabendo do risco.
A reunião aconteceu em um escritório luxuoso na cidade, um ambiente que contrastava brutalmente com a simplicidade da fazenda. Ricardo Alencar era um homem imponente, com um sorriso que não alcançava seus olhos frios e calculistas. Ele se apresentou como um amigo de Arthur, lamentando sua morte com uma falsa comoção que Helena, se estivesse presente, teria detectado imediatamente.
"Um homem de visão, seu Arthur," Alencar disse a Miguel, servindo um uísque caro. "Tinha grandes planos para essa terra. Uma pena que o destino tenha sido tão cruel."
Miguel manteve a compostura, o olhar firme. "Arthur se importava muito com a fazenda. E com a sua família. Ele não gostaria de vê-la em perigo."
Alencar riu, um som seco. "Perigo? De que perigo você está falando, meu caro? Eu só quero o que é justo. Arthur e eu tínhamos um acordo. E agora, eu estou aqui para honrá-lo."
"Um acordo que envolvia lavagem de dinheiro?", Miguel rebateu, a voz calma, mas carregada de acusação.
O sorriso de Alencar desapareceu. Seus olhos se estreitaram, um brilho perigoso surgindo neles. "Cuidado com o que você diz, Miguel. Você não sabe com quem está falando."
"Eu sei exatamente com quem estou falando," Miguel respondeu, devolvendo o olhar. "E sei que Arthur deixou provas de tudo. Provas que, se vierem a público, podem arruinar sua carreira."
Alencar se levantou, caminhando até a janela, observando a cidade que parecia estar em suas mãos. "Arthur era um tolo. Achou que podia me enganar, me controlar. Mas ele se esqueceu de quem eu sou." Ele se virou para Miguel, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "E você, meu amigo, está seguindo os passos dele. Sabe, eu não gosto de pessoas que me desafiam. Elas tendem a ter… acidentes."
A ameaça era clara, e Miguel sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Mas ele não cedeu. "Não vou deixar você roubar a fazenda de Arthur. Não vou deixar você machucar a família dele."
Alencar riu novamente. "Família? Ah sim. A viúva e os filhos. Uma pena. Eles vão sentir muito a falta dele. E de você, talvez." Ele caminhou até Miguel, parando a centímetros de seu rosto. "Você tem pouco tempo, Miguel. Entregue-me os documentos, venda a fazenda para mim por um preço razoável, e talvez você e sua família fiquem bem. Caso contrário… bem, você já sabe."
Miguel deixou o escritório com a certeza de que Alencar era ainda mais perigoso do que Arthur havia descrito. A ameaça era real, e eles precisavam de um plano sólido para se defender. Ao retornar à fazenda, ele contou tudo a Helena.
"Ele me ameaçou, Helena," Miguel disse, sua voz carregada de preocupação. "Disse que eu e vocês podemos ter 'acidentes'."
Helena sentiu o sangue gelar. A dor pela perda de Arthur já era insuportável, e agora, a ameaça de perder seus filhos, de ser atacada, era algo que ela não podia conceber.
"Não podemos deixar que ele nos vença, Miguel," Helena disse, com uma determinação renovada. "Arthur não lutou tanto para isso. Temos que lutar por ele. Por nós."
Pedro, que ouvia a conversa, aproximou-se. "Eu não vou deixar ninguém tirar a gente daqui, mãe. Nem o senhor Alencar. O que podemos fazer?"
Miguel olhou para Pedro, admirado com a coragem do rapaz. Ele sabia que não poderia proteger a família Arthur sozinho. Eles precisavam estar unidos.
"Precisamos de mais provas," Miguel disse. "Arthur me deu o que ele tinha, mas Alencar é esperto. Ele pode ter apagado outras coisas. Precisamos encontrar algo que o incrimine diretamente, algo que não possa ser negado."
A partir daquele dia, a fazenda se transformou em um quartel-general. Miguel, Helena e Pedro trabalharam incansavelmente, vasculhando arquivos antigos, e-mails, contas. Sofia, embora mais afastada das discussões financeiras, observava tudo com atenção, seu instinto de proteção pelos pais crescendo a cada dia.
Um dia, enquanto Pedro revisava antigas caixas de documentos no escritório de Arthur, ele encontrou um cofre escondido atrás de uma estante. Eles não sabiam a combinação.
"Tenta a data de nascimento da mãe dele," Helena sugeriu, a esperança em sua voz.
Pedro tentou. Nada.
"A data do casamento deles?"
Nada.
Miguel, pensativo, lembrou-se de uma conversa que tivera com Arthur anos atrás. Arthur sempre foi apaixonado por astronomia.
"Tenta a data da conjunção de Saturno e Júpiter que ele tanto falava," Miguel sugeriu.
Pedro digitou os números. Um clique suave ecoou pela sala. O cofre se abriu.
Dentro, havia pastas recheadas de documentos. Contratos, e-mails trocados com Alencar, registros de transferências bancárias suspeitas. E um diário. O diário de Arthur.
Helena pegou o diário com as mãos trêmulas. As primeiras páginas contavam a história de seu amor, de seus sonhos. Mas à medida que ela avançava, o tom mudava. As preocupações com Alencar se tornavam mais evidentes. Arthur descrevia as pressões, as ameaças veladas, o medo de que sua família pudesse ser prejudicada. Em uma das últimas entradas, ele escrevia:
"Ricardo Alencar está me sufocando. Sinto que ele está me observando, me ameaçando. Tenho medo por Helena e pelos meninos. Confiei a Miguel algumas provas do que ele está fazendo. Se algo me acontecer, ele saberá o que fazer. Não posso deixar que ele destrua tudo o que construímos. Não posso permitir que ele machuque minha família."
As palavras de Arthur trouxeram lágrimas aos olhos de Helena. A dor da perda se misturou à admiração pela coragem do marido. E a raiva por Alencar, que ousara ameaçar a felicidade de sua família.
"Temos tudo agora," Miguel disse, olhando para os documentos. "Temos provas suficientes para expor Alencar. Podemos ir à polícia."
Helena assentiu, a determinação brilhando em seus olhos. "Sim. Vamos acabar com isso. Pelo Arthur."
Mas a fúria de Alencar não seria contida facilmente. Ao sentir que suas ações estavam sendo investigadas, e percebendo que Miguel e Helena não cederiam, ele decidiu agir com violência. Naquela noite, um grupo de homens armados invadiu a fazenda. O silêncio da noite foi quebrado por gritos e o som de vidros se quebrando. A batalha pela fazenda havia chegado ao seu clímax.