Paixão e Traição II

Capítulo 2 — Sombras e Segredos na Cidade Grande

por Camila Costa

Capítulo 2 — Sombras e Segredos na Cidade Grande

O apartamento de luxo em Copacabana era um contraste gritante com a tranquilidade de Laranjal. As luzes da cidade, um mar cintilante de estrelas artificiais, batiam nas janelas envidraçadas, refletindo um mundo de riqueza, poder e, para Rafael, de profunda solidão. Ele estava sentado à mesa de jantar, o jantar ainda intocado à sua frente, enquanto o celular vibrava incessantemente na bancada da cozinha.

Rafael Montenegro, o nome que ele compartilhava com seu pai e seu avô, carregava o peso de uma linhagem de homens bem-sucedidos, mas também de corações endurecidos e segredos guardados. Ele amava Mariana, amava-a com a intensidade de quem encontra um refúgio em meio a uma tempestade. Mas o mundo dos negócios, a pressão familiar, a necessidade de provar seu valor em um jogo onde as regras eram fluidas e a traição, uma moeda corrente, o consumiam.

Ele se levantou, pegando o celular. Eram mensagens de sua mãe, Dona Helena, a matriarca da família Montenegro, uma mulher de ferro com olhos que tudo viam e uma língua afiada como navalha. "Rafael, onde você está? Sua avó espera por você. Há assuntos importantes a serem discutidos. Não se atrase."

Rafael suspirou. Assuntos importantes. Sempre havia assuntos importantes. E quase nunca envolviam o que realmente importava para ele. Ele olhou para a foto de Mariana e seus filhos, que estava emoldurada em cima do piano na sala de estar. Uma vida que ele ansiava por viver em sua plenitude, mas que parecia cada vez mais distante.

Ele se dirigiu ao quarto, vestindo um terno escuro. O reflexo no espelho o encarou de volta: um homem com olheiras profundas, o semblante marcado pela preocupação. Aquele não era o Rafael que Mariana conhecia, ou que ele mesmo costumava ser. Aquele era o Rafael Montenegro, o herdeiro, o executivo, o homem que estava perdendo a si mesmo.

Enquanto saía do apartamento, ele viu sua irmã, a vibrante e imprevisível Verônica, parada no corredor, apoiada na moldura da porta de seu próprio apartamento. Verônica era a ovelha negra da família, uma artista plástica que desafiava as convenções e, para o desgosto de Dona Helena, se recusava a se casar e dar continuidade à linhagem.

"Indo visitar a mamãe-coruja?", Verônica perguntou, um sorriso irônico nos lábios.

Rafael parou, observando a irmã. "Você não deveria estar em seu estúdio, pintando suas telas abstratas?"

Verônica riu, um som melodioso e um pouco debochado. "E você não deveria estar em Laranjal, com a sua linda esposa e seus filhos?"

A menção de Laranjal atingiu Rafael como um soco no estômago. Ele desviou o olhar, sentindo-se exposto. "Eu tenho negócios importantes na cidade, Verônica. Você sabe disso."

"Negócios ou desculpas, Rafael?", ela retrucou, a voz perdendo o tom de brincadeira. "Mariana não merece isso. Nossos sobrinhos não merecem isso. Você está perdendo a sua vida por causa de um império que, no fundo, te consome."

Rafael sentiu uma onda de raiva borbulhar em seu peito. "Você não sabe nada sobre os meus negócios, Verônica. Você vive em um mundo de fantasias, de cores e telas. Eu vivo em um mundo de responsabilidades, de decisões que afetam muitas vidas."

"E a vida de Mariana, a vida dos seus filhos, não afetam você?", ela perguntou, os olhos verdes faiscando. "Eu vejo as notícias, Rafael. O seu nome está sempre envolvido em escândalos, em aquisições agressivas. Você está se tornando o avô que sempre jurou não ser."

"Eu estou fazendo o que é preciso para proteger a família, para garantir o futuro", ele disse, a voz tensa.

"Proteger? Ou se afogar em trabalho para fugir da realidade?", Verônica deu um passo à frente, o tom mais sério. "Você e sua mãe estão construindo um muro ao redor de você, Rafael. Um muro de dinheiro e poder que vai te isolar de tudo o que realmente importa. E quando você perceber, será tarde demais."

Rafael sentiu um arrepio. Verônica, com sua intuição aguçada, às vezes o assustava. Ele não respondeu, apenas deu um passo para trás.

"Eu preciso ir", ele disse, o tom frio.

Verônica o observou ir, a expressão de preocupação substituindo a ironia. "Rafael… tome cuidado. Há sombras se movendo nesse mundo de negócios. E elas não são tão transparentes quanto suas telas."

Rafael entrou no elevador, as palavras de Verônica ecoando em sua mente. Sombras. Ele sabia o que ela queria dizer. Havia concorrentes agressivos, investidores com intenções obscuras, e a constante ameaça de um golpe. Mas ele também sabia que havia mais na hesitação de Verônica. Havia algo que ela não estava dizendo, algo que a incomodava profundamente.

O elevador subiu em silêncio, levando-o para o 30º andar, onde a cobertura de Dona Helena ofuscaria qualquer palácio. Ao sair, foi recebido pelo perfume de lírios e pelo olhar penetrante de sua mãe. Dona Helena era uma mulher de beleza fria, seus cabelos prateados perfeitamente penteados, e um vestido de seda azul real que acentuava sua postura altiva.

"Finalmente, Rafael", ela disse, sem rodeios. "Sua avó está impaciente."

A avó, Dona Aurora, estava sentada em uma poltrona de veludo, um xale de cashmere cobrindo seus ombros enrugados. Seus olhos, embora fossem um pouco opacos pela idade, ainda emanavam uma inteligência afiada.

"Rafael, meu querido", ela disse, a voz frágil, mas com um toque de autoridade. "Sente-se. Temos assuntos importantes para tratar."

Rafael sentou-se em uma poltrona próxima, sentindo o peso do olhar de sua mãe e avó sobre ele. A sala era opulenta, decorada com antiguidades e obras de arte caríssimas, mas parecia fria, sem vida.

"O que aconteceu?", ele perguntou, tentando manter a calma.

Dona Helena tomou um gole de seu chá. "O Banco Central está investigando algumas de nossas transações recentes. Nada grave, a princípio, mas precisamos ter certeza de que tudo está em ordem."

Rafael sentiu um aperto no peito. "Que transações?"

"A aquisição da empresa de logística em São Paulo", respondeu Dona Aurora. "Houve algumas irregularidades na documentação. Nada que não possamos resolver, mas… é preciso discrição."

Rafael sabia que a aquisição da empresa de logística fora uma jogada arriscada, orquestrada por ele para expandir os negócios da família. Ele havia confiado em um de seus advogados, um homem que agora parecia cada vez mais duvidoso.

"Eu cuidarei disso", Rafael disse, com firmeza. "Eu garanto que tudo ficará em ordem."

Dona Helena sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Eu sei que você cuidará, Rafael. Você é o meu filho. Mas sua avó tem razão. Precisamos de discrição. E por isso, acho que você deveria se afastar um pouco de Laranjal. Para evitar qualquer… ruído."

Rafael a encarou, perplexo. "Se afastar de Laranjal? Da minha família?"

"Apenas por um tempo", Dona Aurora interveio, tentando amenizar a situação. "Até que tudo se acalme. Você precisa se concentrar nisso, meu neto. É uma questão de honra para a família Montenegro."

Rafael sentiu uma revolta borbulhar em seu interior. Afastar-se de Mariana e dos filhos para agradar sua mãe e avó, para esconder os próprios erros? Era inaceitável.

"Eu não posso fazer isso", ele disse, a voz firme. "Mariana e meus filhos são a minha prioridade. Eu não vou abandoná-los por causa de problemas que eu mesmo posso resolver."

Dona Helena o encarou com frieza. "Rafael, você é um Montenegro. Seus deveres para com a família vêm em primeiro lugar. Laranjal pode esperar. Seus… passatempos podem esperar."

Passatempos. A palavra soou como um insulto. Mariana não era um passatempo. Era o amor da sua vida, o seu porto seguro.

"Eu não os considero passatempos, mãe", Rafael disse, levantando-se. "Eles são a minha vida. E se vocês não entendem isso, então talvez eu tenha que repensar o meu lugar nesta família."

Ele saiu da sala, deixando para trás o silêncio pesado e o olhar furioso de sua mãe. Ao sair da cobertura, ele parou na porta do elevador. Verônica estava ali, encostada na parede, observando-o com uma expressão de profunda tristeza.

"Você está bem?", ela perguntou, a voz baixa.

"Não", ele respondeu, a voz embargada. "Eu me sinto sufocado, Verônica. Sufocado por essa cidade, por essa família, por essas expectativas."

Verônica se aproximou e o abraçou. "Eu te avisei, Rafael. Você está se perdendo. E a sua vida em Laranjal… ela está se desfazendo enquanto você está aqui, lutando contra fantasmas."

Rafael retribuiu o abraço, sentindo um alívio momentâneo. "O que eu faço, Verônica? Eu não sei mais o que fazer."

"Você precisa lutar pelo que importa, Rafael", ela sussurrou. "Antes que seja tarde demais. Antes que Laranjal se torne apenas uma memória distante, e você, um estranho para si mesmo."

Enquanto o elevador descia, Rafael sentiu um nó na garganta. As sombras na cidade grande eram mais do que apenas negócios escusos. Eram as sombras que se formavam em seu próprio coração, as sombras da culpa, da ausência, da traição silenciosa que ele cometia contra si mesmo e contra aqueles que mais amava. E ele sabia, com uma certeza dolorosa, que o tempo estava se esgotando.

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