Paixão e Traição II
Capítulo 5 — A Fuga de Laranjal e o Confronto Inevitável
por Camila Costa
Capítulo 5 — A Fuga de Laranjal e o Confronto Inevitável
A revelação de Sofia pairava sobre Mariana como uma nuvem negra, sufocando-a com a dor da traição. A imagem de Rafael, o homem que ela amava e em quem confiava, havia se desfeito em mil pedaços, revelando a face de um estranho que levava uma vida secreta e mentirosa. Cada lembrança de suas ausências, de suas desculpas esfarrapadas, agora adquiria um novo e cruel significado.
Naquela noite, Mariana mal dormiu. O silêncio de Laranjal, que antes lhe trazia paz, agora parecia zombar de sua dor. Ela se sentia encurralada, enganada, a sua vida desmoronando diante de seus olhos. O beijo com Daniel, antes um erro impulsivo, agora parecia a única centelha de algo real em meio a tanta falsidade.
Na manhã seguinte, enquanto Rafael ainda descansava no quarto, Mariana tomou uma decisão. Ela não podia mais viver naquela casa, cercada pelas lembranças de um amor que se revelara uma mentira. Ela precisava fugir, encontrar um refúgio, um lugar onde pudesse começar a juntar os pedaços de seu coração partido.
Vestindo roupas simples e pegando uma pequena mala com o essencial, Mariana desceu para a cozinha. Sofia a esperava, o rosto marcado pela preocupação.
"Você vai mesmo?", Sofia perguntou, a voz embargada.
Mariana assentiu, os olhos marejados, mas firmes. "Eu não posso mais ficar aqui, Sofia. Não posso olhar para ele e fingir que nada aconteceu. Eu preciso de um tempo. Para pensar. Para… me encontrar."
"Para onde você vai?", Sofia perguntou, apreensiva.
"Para o Rio. Vou ficar com a Verônica por um tempo", Mariana respondeu, referindo-se à irmã de Rafael, uma decisão que, em outras circunstâncias, ela nunca tomaria. Mas Verônica sempre fora a menos convencional da família Montenegro, a que talvez pudesse entendê-la sem julgamentos.
Sofia a abraçou com força. "Eu vou te ajudar. E vou manter você informada sobre Rafael. Por favor, se cuide, Mari."
Mariana abraçou a amiga com gratidão, sentindo-se um pouco menos sozinha. Ela sabia que a partida seria difícil, mas permanecer em Laranjal seria insuportável.
Enquanto se preparava para sair, ouviu passos no andar de cima. Rafael estava acordando. O pânico a atingiu. Ela não estava pronta para encará-lo, não ainda.
"Eu preciso ir agora", Mariana disse apressadamente, pegando a mala.
Ela saiu pela porta dos fundos, evitando o caminho principal. O carro de Sofia estava estacionado na entrada. Enquanto entrava, viu uma figura familiar parada perto do portão: Daniel Montenegro. Ele a encarou, a surpresa estampada em seu rosto.
"Mariana? O que está acontecendo?", ele perguntou, percebendo a mala e a pressa em seus olhos.
Mariana hesitou. Era a última coisa que precisava agora. Mas Daniel a olhava com uma preocupação genuína que a tocou.
"Eu… eu preciso ir embora, Daniel", ela disse, a voz trêmula. "Por um tempo."
Daniel se aproximou. "O que aconteceu? Foi o Rafael?"
Mariana não conseguiu conter as lágrimas. Ela assentiu. "Eu… eu descobri a verdade. Sobre ele. E eu não posso mais ficar aqui."
Daniel a olhou nos olhos, e ela viu um misto de compaixão e algo mais, algo que parecia um convite. "Eu estou indo para o Rio. Vou ficar com a Verônica."
Daniel pensou por um instante, um plano se formando em sua mente. Ele sabia que a família Montenegro era complicada, e que a situação de Mariana era delicada.
"Eu também preciso ir para o Rio amanhã", ele disse. "Tenho negócios urgentes. Posso te dar uma carona? Seria mais fácil para você, não acha?"
Mariana olhou para ele, para a oportunidade que se apresentava. Ir para o Rio com Daniel, o homem que a beijara com tanta paixão, parecia uma loucura. Mas também parecia a única saída. A fuga de Laranjal.
"Eu… aceito", ela disse, a voz baixa.
Eles combinaram de se encontrar no dia seguinte, na cidade vizinha. Mariana se despediu de Sofia e partiu, deixando para trás a fazenda, as laranjeiras e o fantasma de seu casamento.
No dia seguinte, o encontro com Daniel foi discreto. Ele a pegou em um hotel na cidade vizinha, e eles partiram em seu carro luxuoso em direção ao Rio de Janeiro. A viagem foi tensa no início. O silêncio entre eles era preenchido pela cacofonia de pensamentos de Mariana. Mas aos poucos, a conversa fluiu. Daniel foi compreensivo, sem fazer perguntas invasivas, apenas oferecendo um ombro amigo.
"Eu não te devo nada a ele, Daniel", Mariana disse em um momento, a voz embargada pela emoção. "Eu me senti tão cega, tão estúpida."
"Você não é estúpida, Mariana", Daniel respondeu, a voz suave. "Você é uma mulher forte que foi enganada. E agora, você tem a chance de recomeçar."
Ao chegarem ao Rio, Mariana sentiu um misto de alívio e apreensão. A cidade grande era um turbilhão de energia, mas também um lugar de anonimato, onde ela poderia se esconder por um tempo. Verônica a recebeu de braços abertos, a irmã de Rafael parecendo tão aliviada quanto ela em vê-la.
"Eu sabia que você viria", Verônica disse, abraçando-a. "Rafael é um idiota. E a nossa família… bem, você sabe como eles são."
Os dias seguintes foram de adaptação. Mariana tentava se acostumar à vida no Rio, à companhia de Verônica, e a manter distância de Daniel, apesar da atração inegável entre eles. Ela sabia que precisava se recompor antes de sequer pensar em qualquer coisa mais.
No entanto, o destino parecia ter outros planos. Uma noite, enquanto Mariana e Verônica estavam em um restaurante charmoso em Ipanema, elas viram Daniel chegar. Ele estava com um grupo de pessoas, rindo e conversando. Ao vê-la, seus olhos encontraram os de Mariana, e ele sorriu. Um sorriso que fez o coração dela disparar.
Mais tarde, naquela mesma noite, Daniel a procurou no apartamento de Verônica.
"Eu sabia que te encontraria aqui", ele disse, com um leve sorriso.
Mariana sentiu o rubor subir em seu rosto. "Verônica me convidou para ficar aqui por um tempo."
"Eu sei. Ela me contou. Fico feliz que você esteja segura", Daniel disse, a voz séria. "Mas Mariana… eu não consigo parar de pensar em você. Naquele dia, em Laranjal. E em você aqui."
Ele deu um passo à frente, a proximidade dele fazendo o ar vibrar. "Eu sei que você acabou de passar por um momento difícil. E eu não quero te pressionar. Mas eu sinto algo forte por você, Mariana. Algo que vai além da atração."
Mariana o olhou nos olhos, a confissão dele ecoando em sua alma. A dor da traição de Rafael ainda era recente, mas a presença de Daniel, sua intensidade, seu carinho, começavam a abrir uma fenda em seu coração endurecido.
"Eu também sinto algo, Daniel", ela sussurrou, incapaz de negar a verdade. "Mas é tudo tão… complicado."
"A vida é complicada, Mariana", ele disse, segurando suas mãos. "Mas talvez, às vezes, a gente precise ousar. Talvez a gente precise de uma segunda chance. E talvez, só talvez, o nosso encontro não tenha sido um acidente."
Naquele momento, o som de uma buzina estridente rompeu a noite. Um carro preto, ostensivo e com vidros escuros, parou bruscamente na rua. Da porta do carro, surgiu a figura imponente de Dona Helena Montenegro, o olhar fixo em Mariana, um misto de fúria e desaprovação em seu rosto.
O confronto era inevitável. A fuga de Laranjal havia chegado ao fim, e a tempestade que Mariana tentara evitar finalmente a alcançara no coração do Rio de Janeiro. A paixão recém-descoberta com Daniel Montenegro estava prestes a ser testada pelas sombras implacáveis da família Montenegro.