Paixão e Traição II
Capítulo 7 — A Casa da Advogada e as Revelações Sombrias
por Camila Costa
Capítulo 7 — A Casa da Advogada e as Revelações Sombrias
A voz de Lúcia Vasconcelos, agora Helena, ecoava na linha telefônica, uma melodia familiar que trazia consigo um misto de alívio e apreensão. Marina apertou o medalhão em sua mão, o metal frio parecendo um escudo contra a incerteza que a envolvia. A ideia de encontrar Lúcia, a amiga de sua mãe, a quem sempre vira com tanto carinho, era perturbadora. Lúcia, que sempre lhe parecera tão íntegra, agora era a ponte para desvendar os segredos que a haviam expulsado de Laranjal.
"Eu… eu não sei o que dizer, Lúcia. Eu não esperava por isso." A voz de Marina soou trêmula, carregada de uma emoção que ela não conseguia controlar.
"Eu imagino, querida. Sei que é tudo muito difícil. Mas, por favor, Marina, confie em mim. Eu sou advogada. Eu lido com a verdade, com a justiça. E eu quero muito te ajudar. Não apenas por mim, mas por sua mãe. Ela nunca gostaria de te ver assim."
As palavras sobre sua mãe fizeram Marina apertar os olhos, a dor em seu peito se intensificando. Sua mãe, Dona Clara, uma mulher forte e doce, que sempre acreditou na bondade das pessoas. O que ela diria ao ver o que se passara?
"Você sabe sobre minha mãe?", Marina perguntou, a voz quase um sussurro.
"Claro que sei, Marina. Eu e ela fomos amigas por tantos anos. Lembro-me de você quando era uma menina. Corria pelos campos, sempre com um sorriso no rosto. Seu pai, o Seu Antônio… Ele era um homem tão bom. O que aconteceu com ele… foi uma tragédia."
A menção de seu pai, a perda dolorosa que ainda assombrava seus dias, fez Marina engolir em seco. Era a primeira vez em semanas que alguém mencionava o pai com tanta naturalidade e carinho.
"Por favor, Marina. Me deixe te ajudar. Eu moro em um lugar tranquilo aqui em São Paulo. Podemos conversar com calma. Sem pressa. Apenas me diga quando e onde."
Marina olhou ao redor da sua pequena quitinete. Aquele lugar, que se tornara seu refúgio de dor, agora lhe parecia sufocante. Precisava de ar, de um novo ambiente, de uma conversa franca.
"Eu… eu posso ir agora. Se for um bom momento para você."
"Claro, querida. Me diga onde você está. Mando um carro te buscar. Não quero que você se preocupe com nada."
A generosidade de Lúcia, mesmo em meio a tanta incerteza, desarmou Marina. Ela deu o endereço da quitinete, e em menos de vinte minutos, um carro preto e elegante parou em frente ao prédio. O motorista, um homem discreto e cordial, abriu a porta para ela.
O trajeto até a casa de Lúcia foi silencioso. Marina observava a paisagem urbana desfilar pela janela, a mente a mil. A casa de Lúcia, em um bairro arborizado e nobre de São Paulo, era uma mansão imponente, com um jardim impecável. Ao ser recebida na porta pela própria Lúcia, Marina sentiu um nó na garganta. A amiga de sua mãe estava mais velha, os cabelos escuros agora salpicados de fios prateados, mas seus olhos continuavam os mesmos: um azul penetrante, que parecia carregar uma sabedoria ancestral. Havia uma serenidade em seu semblante que contrastava com a agitação da cidade.
"Marina, querida, seja bem-vinda." Lúcia a abraçou com um calor genuíno, um abraço que, por um instante, trouxe um pouco de conforto à alma ferida de Marina.
O interior da casa era elegante e acolhedor. Móveis clássicos, obras de arte nas paredes, um piano antigo em um canto da sala de estar. Tudo transpirava sofisticação e paz. Lúcia a conduziu até uma sala de estar espaçosa, onde uma lareira crepitava suavemente, apesar do clima ameno da noite paulistana.
"Por favor, sente-se. Gostaria de um chá? Café? Algo mais forte?", Lúcia ofereceu, com um sorriso acolhedor.
"Um chá, por favor. Obrigada."
Enquanto Lúcia se ausentava para preparar o chá, Marina sentou-se em um sofá de couro macio, observando os detalhes da sala. Havia fotos antigas nas estantes: ela mesma, ainda criança, ao lado de sua mãe e de Lúcia em um piquenique; seu pai, sorrindo; sua mãe, radiante. As lembranças a atingiram com força, mas, pela primeira vez, não eram acompanhadas de uma dor insuportável, mas de uma saudade tingida de esperança.
Lúcia retornou com uma bandeja de prata, servindo o chá em delicadas xícaras de porcelana. Sentaram-se em poltronas confortáveis, o silêncio entre elas preenchido apenas pelo crepitar da lareira.
"Marina, eu sei que você está passando por um momento terrível", Lúcia começou, a voz suave. "Ouvi algumas coisas sobre Laranjal, sobre a família do Seu Antônio. E confesso que me entristeci muito."
Marina a encarou, esperando.
"Sei que Pedro era seu noivo. Sei que ele te traiu. E sei que o que aconteceu com a fazenda… foi devastador." Lúcia fez uma pausa, seus olhos fixos nos de Marina. "Sei também que você suspeita que eu e minha família tenhamos alguma ligação com isso."
As palavras de Lúcia foram diretas, sem rodeios. Marina sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Eu… eu não sei o que pensar, Lúcia. Tudo aconteceu tão rápido, tão cruelmente. As pessoas em Laranjal falavam coisas… coisas sobre você, sobre seu irmão, o Dr. Ricardo."
Um leve tremor percorreu o rosto de Lúcia, mas ela logo o controlou. "Ricardo… meu irmão. Sim, ele é um homem ambicioso. E nem sempre escolhe os melhores caminhos. Eu sabia que ele andava envolvido em alguns negócios suspeitos, mas nunca imaginei que chegariam a esse ponto. Que chegariam a prejudicar pessoas tão queridas para mim, como sua família."
Marina sentiu um fio de esperança se acender. A confissão de Lúcia, a admissão da ambição do irmão, era um passo.
"O que exatamente aconteceu, Lúcia? Por favor, me conte tudo o que você sabe. Eu preciso entender."
Lúcia suspirou, o olhar perdido nas chamas da lareira. "Ricardo, com sua ambição desmedida, se envolveu em especulações financeiras arriscadas. Ele se aproveitou da boa-fé de muitas pessoas em Laranjal, inclusive do seu pai, Seu Antônio. Ele fez com que seu pai investisse em um projeto que ele sabia que era falimentar, prometendo retornos irreais. E, ao mesmo tempo, ele estava em negociação com Pedro. Ele ofereceu a Pedro uma grande quantia em dinheiro para que ele se afastasse de você e facilitasse a aquisição da fazenda por um preço irrisório, uma vez que o Seu Antônio estivesse financeiramente arruinado."
As palavras de Lúcia caíram como pedras no peito de Marina. A frieza com que Ricardo agira, a cumplicidade de Pedro… era algo que ela já suspeitava, mas ouvir a confirmação era dilacerante.
"Mas por quê? Por que fazer isso com meu pai? Comigo?", a voz de Marina era um lamento.
"A ganância, Marina. A sede de poder e dinheiro. Ricardo sempre foi assim. Eu tentei alertá-lo inúmeras vezes, mas ele nunca me ouviu. Quando percebi a gravidade da situação, já era tarde demais. O golpe estava dado." Lúcia olhou para Marina com os olhos marejados. "E Pedro… ele também tem sua parcela de culpa. Ele sempre foi manipulado por dinheiro. Sua própria família não é de posses, e ele via em você uma oportunidade de ascensão social. Quando Ricardo lhe ofereceu a proposta, ele não pensou duas vezes."
A revelação de Pedro ser motivado por dinheiro, por ascensão social, foi um golpe ainda mais duro. Marina sempre acreditou que o amor deles era puro, que a ligação que sentiam era verdadeira. A ideia de que ele a usara, que tudo fora um plano arquitetado, era insuportável.
"Então… então meu pai perdeu tudo por causa do seu irmão e do Pedro?", Marina sussurrou, as lágrimas finalmente rolando por seu rosto.
"Sim, querida. E a situação se agravou quando você descobriu a verdade. Pedro, com medo de perder tudo o que já havia obtido, inventou aquela história sobre você. E Ricardo, para se livrar de qualquer rastro, usou suas influências para fazer com que você fosse expulsa de Laranjal, desacreditada."
O silêncio se instalou na sala, denso e carregado de dor. Marina sentia o peso da injustiça esmagando-a. A imagem de Pedro, que um dia amou com toda a força, agora se transformava em um monstro calculista.
"E você, Lúcia? O que você fez? Por que não me contou antes?", Marina perguntou, um tom de acusação na voz.
"Eu… eu estava com medo, Marina. Medo de Ricardo. Medo de que ele me prejudicasse, que prejudicasse minha carreira. Eu tentei ajudar seu pai discretamente, mas era difícil. E quando eu soube que você tinha sido expulsa… eu me senti impotente. Fiquei arrasada. Só agora, quando encontrei seu contato e percebi que você estava desamparada, tomei coragem para falar. Para te contar a verdade. Eu sei que não posso apagar o que aconteceu, mas posso tentar te ajudar a encontrar justiça."
Marina olhou para Lúcia, a amiga de infância de sua mãe, agora uma advogada respeitável. A dor ainda era imensa, mas uma nova determinação começava a florescer em seu peito. A verdade, por mais cruel que fosse, era o primeiro passo para a cura e para a vingança.
"Eu quero justiça, Lúcia. Eu quero que eles paguem pelo que fizeram."
Lúcia segurou a mão de Marina, seus olhos transmitindo compaixão e força. "E nós vamos conseguir, Marina. Juntas. Eu sou advogada, e sei como lidar com pessoas como o Ricardo e o Pedro. Vamos desmascarar a verdade, e vamos fazer com que eles paguem por seus crimes."
Naquela noite, sob o teto acolhedor da casa de Lúcia, Marina sentiu um raio de esperança atravessar a escuridão de sua alma. A dor da traição ainda ardia, mas agora, ela tinha uma aliada. E a promessa de justiça era um fogo que começava a consumir a cinza de sua desesperança.