Alma Gêmea III
Alma Gêmea III
por Valentina Oliveira
Alma Gêmea III
Autor: Valentina Oliveira
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Capítulo 1 — O Sussurro do Destino em Ipanema
O sol, um astro teimoso e dourado, derramava sua luz generosa sobre a orla de Ipanema, pintando a areia num tom de mel tostado e o mar num azul profundo, salpicado de espuma branca que parecia beijar a terra com uma saudade ancestral. Ali, entre o burburinho dos vendedores de mate, o riso solto das crianças e o perfume inebriante das flores que desabrochavam nos jardins a poucos metros dali, vivia Helena. E viver, para Helena, era um verbo que exigia coragem, resiliência e, acima de tudo, uma fé inabalável em que o universo, por mais cruel que pudesse ser, ainda guardava um cantinho para a felicidade.
Os seus trinta e cinco anos carregavam a beleza serena de quem já enfrentou tempestades e emergiu mais forte, com rugas finas que emolduravam um olhar de um verde intenso, capaz de transbordar ternura ou cravar um pedido de socorro silencioso. Helena era dona de uma livraria charmosa e aconchegante no coração de Ipanema, um refúgio de palavras e histórias onde ela passava a maior parte dos seus dias, perdida entre as páginas de romances que, ironicamente, muitas vezes lhe pareciam distantes da sua própria realidade. A livraria, carinhosamente batizada de “A Trama Invisível”, era mais do que um negócio; era o seu santuário, o lugar onde ela se sentia verdadeiramente viva, rodeada pelo cheiro reconfortante do papel antigo e pela promessa de mundos inteiros em cada volume.
Naquele dia específico, o ar parecia vibrar com uma energia diferente, um prenúncio sutil de que algo estava para mudar. Helena estava arrumando uma pilha de livros recém-chegados, as mãos ágeis deslizando sobre as capas coloridas, quando um vulto alto e elegante parou em frente ao balcão. Era Rodrigo. O homem que, há cinco anos, havia irrompido na sua vida como um vendaval, prometendo amor eterno e levando consigo, na mesma ventania, a sua confiança e a sua paz de espírito.
Rodrigo era o tipo de homem que atraía olhares por onde passava: alto, musculoso, com um sorriso capaz de desarmar qualquer um e um olhar azul-acinzentado que, outrora, ela achava que refletia a profundidade da sua alma. Agora, porém, esse mesmo olhar lhe causava um aperto no peito, uma mistura indigesta de raiva e uma saudade que ela teimava em reprimir. Ele tinha o poder de desestabilizá-la com a mera presença, e hoje, mais do que nunca, Helena não estava disposta a ceder a essa influência.
“Helena”, a voz dele era grave, aveludada, mas carregada de uma familiaridade que a fez estancar. Ela não respondeu de imediato, apenas levantou o olhar, uma sobrancelha arqueada em demonstração de surpresa, e um fio de desconfiança.
“Rodrigo”, ela respondeu, a voz controlada, a frieza intencional. “O que o traz por aqui depois de tanto tempo?”
Ele deu um passo à frente, o sorriso que ela tanto conhecia, mas que agora lhe parecia oco, surgindo nos seus lábios. “Veio buscar um livro, claro. Ou devo dizer, veio buscar você?”
Helena riu, um som seco e sem humor. “Creio que o seu radar de livros está descalibrado. As histórias que busco hoje em dia não se encontram em prateleiras, Rodrigo.”
Ele se aproximou mais, ignorando a barreira invisível que ela tentava impor. “Sempre foi assim, não é, Helena? Fugindo. Fugindo do amor, fugindo de mim, fugindo de nós.”
“Eu não fujo, Rodrigo. Eu escolho o meu caminho. E o meu caminho, nos últimos cinco anos, tem sido longe de você.” Ela o encarou, seus olhos verdes faiscando, a determinação endurecendo suas feições. “Você se lembra disso?”
Rodrigo suspirou, um som que parecia carregar o peso de anos de arrependimento, ou talvez apenas a frustração de não ter o controle que esperava. “Helena, eu… eu sei que errei. Errei feio. E tenho pensado nisso, todos os dias.”
“Pensado? Que interessante. Eu, por outro lado, tenho vivido. Construído algo sólido. E agora, você aparece, como se nada tivesse acontecido, com esse seu charme desgastado e essas suas promessas vazias.” Ela pegou um livro da pilha, fingindo interesse. “Se é um livro que procura, pode me dizer o título. Se busca algo mais… bem, as portas desta livraria estão abertas, mas a minha vida não é mais um capítulo aberto para você.”
Houve um silêncio tenso, preenchido apenas pelo som suave do mar e o murmúrio distante da cidade. Rodrigo a observava, seus olhos azuis fixos nos dela, buscando algo que talvez nunca mais encontrasse. Helena sentia a antiga atração, o veneno sutil que ele exalava, mas o empurrou para longe com toda a força de sua vontade.
“Eu sinto muito, Helena. De verdade. Eu… eu só queria entender.”
“Entender o quê? Que o mundo não gira mais ao seu redor? Que as pessoas têm uma vida própria, independentemente da sua presença?” Ela colocou o livro no balcão, o som um pequeno estrondo no silêncio. “Seus arrependimentos, Rodrigo, são seus. As minhas cicatrizes, são minhas. E elas me ensinaram a não abrir a porta para fantasmas do passado.”
Ele a olhou mais uma vez, um misto de resignação e uma faísca de algo mais, algo que Helena não soube decifrar, pairando em seus olhos. “Entendo”, ele disse, finalmente. “Se precisar de algo… qualquer coisa…”
“Eu não preciso de nada de você, Rodrigo. Especialmente não de compaixão mal disfarçada.” Helena virou-se, dando-lhe as costas, e começou a organizar outra prateleira, o corpo tenso, os músculos em alerta. Ela sentiu o olhar dele sobre si por mais alguns instantes, um peso incômodo, até que o som dos seus passos se afastando marcou o fim daquela visita indesejada.
Quando o sininho da porta soou novamente, anunciando que ele havia partido, Helena permitiu-se respirar. A adrenalina que a percorria começou a se dissipar, deixando um rastro de exaustão e uma perturbação incômoda. Rodrigo era um fantasma que ela tentava manter trancado no porão da memória, mas que, de vez em quando, insistia em bater à porta.
Ela fechou os olhos por um instante, buscando a calma que a livraria sempre lhe trazia. As palavras impressas nos livros pareciam sussurrar consolo, lembrando-a de que as histórias de amor nem sempre tinham finais felizes, mas que, mesmo assim, valiam a pena ser vividas. E a sua história, Helena sabia, estava longe de terminar.
Naquele dia, o sol se pôs em tons vibrantes de laranja e rosa sobre o mar, mas Helena não o viu. Estava absorta em pensamentos, com a imagem dos olhos azuis de Rodrigo gravada em sua mente, um lembrete doloroso do que fora e um alerta do que não queria mais. O destino, parecia, gostava de brincar com ela, jogando-a de volta em caminhos que ela havia tentado arduamente deixar para trás. Mas Helena era mais forte do que ele imaginava. E em Ipanema, entre livros e o cheiro de maresia, ela estava pronta para escrever um novo capítulo, um onde a protagonista fosse ela mesma, com as suas escolhas e a sua própria versão de um final feliz.