Alma Gêmea III
Capítulo 10 — A Perseguição em Santa Teresa e a Armadilha Revelada
por Valentina Oliveira
Capítulo 10 — A Perseguição em Santa Teresa e a Armadilha Revelada
O véu, agora guardado em segurança, emanava um poder silencioso, uma promessa de revelações e de perigos iminentes. A tarde em Teresópolis, outrora serena, agora carregava a tensão de uma caçada que se anunciava. Isabella e Ricardo, com a verdade sobre a linhagem ancestral e o tesouro escondido cada vez mais clara, sabiam que não podiam mais se dar ao luxo de hesitar. Dr. Almeida, com seus contatos e conhecimento do submundo da arte, parecia ser o único capaz de guiá-los, mas a confiança ainda era uma barreira a ser transposta.
De volta ao Rio de Janeiro, o burburinho da cidade parecia zombar da tranquilidade que eles buscavam. Decidiram marcar um encontro com Dr. Almeida em um café discreto no bairro de Santa Teresa, um lugar charmoso e pitoresco, mas também repleto de vielas e becos que poderiam servir de esconderijo, ou de armadilha. O sol da tarde tingia as fachadas coloridas das casas coloniais, criando um cenário de beleza bucólica, que contrastava com a escuridão dos segredos que eles desenterravam.
Ao chegarem, sentaram-se a uma mesa no jardim, a vista deslumbrante da Baía de Guanabara ao longe. Ricardo pediu um café forte, enquanto Isabella optava por um chá de camomila, tentando acalmar os nervos. A ansiedade era palpável.
“Ele está atrasado”, Ricardo murmurou, olhando para o relógio.
“Talvez seja um sinal. Talvez devêssemos repensar isso”, Isabella respondeu, a incerteza em sua voz.
Antes que Ricardo pudesse responder, uma figura familiar emergiu da multidão. Não era Dr. Almeida. Era André Vasconcelos, o dono do antiquário, o homem que havia indicado Isabella a Dr. Almeida. Ele se aproximou com um sorriso cordial, mas seus olhos carregavam uma frieza que gelou o sangue de Isabella.
“Sra. Costa, Sr. Monteiro”, disse Vasconcelos, sentando-se sem ser convidado. “Que surpresa agradável encontrá-los aqui. Imagino que estejam aguardando Dr. Almeida, certo?”
Ricardo assentiu, desconfiado. “Sim. O senhor o conhece?”
Vasconcelos deu uma risada baixa. “Conhecemos todos neste meio. Somos todos caçadores de tesouros, de uma forma ou de outra. E eu sei que vocês encontraram algo muito valioso. O manuscrito, o véu… e a história de Léo Valente.”
O coração de Isabella disparou. Como ele sabia? A menção do antiquário, a sua visita, tudo se encaixava em um plano sinistro. “O senhor está enganado”, Isabella disse, tentando manter a calma. “Não encontramos nada.”
“Oh, mas encontraram”, Vasconcelos retrucou, seu sorriso se alargando em um rosnado. “E eu sei que Dr. Almeida está tentando ajudá-los a desvendar os mistérios. Ele é um homem muito útil, mas também muito… flexível. E ele me informou sobre o interesse de vocês. E sobre o colecionador particular que também está atrás desse legado.”
Ricardo se levantou, a raiva explodindo em seus olhos. “Quem é você? E o que você quer?”
“Eu sou apenas um intermediário, Sr. Monteiro”, Vasconcelos disse, sem se abalar. “Um guardião do conhecimento. E o colecionador… ele tem um nome. E ele paga muito bem por informações. Informações que me levam diretamente a vocês.”
De repente, a figura de Dr. Almeida surgiu à entrada do jardim, com um semblante preocupado. “Ricardo? Isabella? O que está acontecendo?”
Vasconcelos riu. “Ah, Dr. Almeida. Que bom que chegou. Seus ‘clientes’ estão um pouco agitados.”
O olhar de Dr. Almeida se fixou em Vasconcelos, e Isabella percebeu o reconhecimento mútuo. A fachada de neutralidade do advogado havia desmoronado. Ele havia sido manipulado, ou pior, estava envolvido.
“Vasconcelos… você não devia estar aqui”, disse Dr. Almeida, a voz tensa.
“Eu devia, doutor. Porque você me informou sobre a descoberta. E eu vim garantir que o meu cliente recebesse o que lhe é devido. E que essa história de Léo Valente e sua linhagem esquecida seja revelada da maneira correta.”
O caos se instalou. Vasconcelos se levantou, e de repente, dois homens fortes emergiram das sombras das árvores, bloqueando a saída. Eram os capangas do colecionador.
“O manuscrito, o véu… entreguem tudo, e ninguém se machuca”, Vasconcelos ordenou, sua voz agora fria e ameaçadora.
Ricardo se colocou na frente de Isabella, pronto para defender. “Vocês não vão conseguir nada de nós.”
Dr. Almeida parecia dividido, o medo estampado em seu rosto. “Isabella, Ricardo… eu sinto muito. Eu fui… coagido. Esse colecionador, ele tem um poder imenso. Ele ameaçou minha família.”
“E você nos traiu por causa disso?”, Isabella sibilou, o desespero começando a tomar conta.
Vasconcelos sorriu, satisfeito com a confusão. “A lealdade é um luxo, minha querida. E o dinheiro é um poder muito maior.”
Ele fez um sinal para seus capangas. O clima de festa de Santa Teresa se transformou em um cenário de perseguição. Os capangas avançaram, tentando agarrar Isabella. Ricardo reagiu, empurrando um deles com força. A mesa virou, pratos e xícaras voaram.
Dr. Almeida, vendo a situação se agravar, agiu. Ele jogou uma bandeja de metal sobre os capangas, criando uma distração breve, e gritou para Isabella e Ricardo: “Corram! Pelos fundos! Eu os alcanço!”
Sem hesitar, Isabella e Ricardo se viraram e correram em direção à parte de trás do jardim, mergulhando nas vielas estreitas de Santa Teresa. O som de seus passos ecoava pelas ruas de paralelepípedos, misturado aos gritos de Vasconcelos e seus homens.
Enquanto corriam, Isabella sentiu o peso do manuscrito em sua bolsa. O véu estava seguro, mas a perseguição havia começado de verdade. A armadilha de Vasconcelos havia sido revelada, e agora eles estavam sozinhos, caçados, com a verdade ancestral em suas mãos.
“Ele sabia que não podíamos confiar em ninguém”, Isabella ofegava, enquanto corriam.
“Eu sabia”, Ricardo respondeu, a determinação em sua voz. “Mas pensei que Dr. Almeida pudesse nos ajudar. O colecionador… ele é mais perigoso do que imaginávamos.”
Eles se esconderam em um beco escuro, o coração batendo descompassado. Ouviu-se o som de passos se aproximando. Vasconcelos e seus homens estavam próximos.
“Para onde vamos agora?”, Isabella perguntou, o medo em sua voz.
Ricardo a puxou para mais perto, seu olhar fixo nas sombras. “Para longe daqui. E vamos encontrar o que Helena e Léo deixaram para trás. Não por causa do tesouro, mas para honrar a verdade deles. E para nos protegermos.”
A beleza de Santa Teresa se tornara um labirinto perigoso. A cada esquina, um novo perigo espreitava. A trama de segredos se intensificava, e a perseguição havia se tornado uma corrida contra o tempo. Isabella sentiu que, a cada passo, estava mais perto de desvendar o mistério que a ligava a Helena e a Léo, mas também mais exposta aos perigos que o passado insistia em desenterrar. A noite em Santa Teresa prometia ser longa e cheia de reviravoltas.