Cap. 19 / 25

Alma Gêmea III

Capítulo 19 — O Coração da Serpente e o Ritual de Proteção

por Valentina Oliveira

Capítulo 19 — O Coração da Serpente e o Ritual de Proteção

O ar na entrada do Coração da Serpente era carregado de uma energia primordial, uma vibração que ressoava nas profundezas da terra e no âmago da alma. As árvores, antes imponentes, davam lugar a formações rochosas imponentes, esculpidas pelo tempo e pela natureza em formas que lembravam escamas e serpentinas. Um rio subterrâneo murmurava em algum lugar nas profundezas, sua presença sentida mais do que ouvida, um pulso vital que alimentava aquele lugar sagrado.

Isabella sentia o poder emanando do local, uma força ancestral que era ao mesmo tempo convidativa e intimidadora. O talismã em sua mão pulsava com uma luz verde-esmeralda intensa, reagindo à magnitude da energia concentrada ali. Ela sabia que aquele era o ponto de convergência que o Ceifador buscava, o local onde a barreira entre os mundos era mais fina, o portal que ele pretendia abrir.

Ao seu lado, Rafael observava o cenário com uma apreensão crescente. A beleza selvagem e inóspita do lugar era hipnotizante, mas também carregava uma aura de perigo iminente. Ele podia sentir a presença do Ceifador ali, uma sombra fria que pairava nas bordas da consciência, uma promessa de escuridão que se infiltrava no ar.

“É aqui”, disse Isabella, a voz baixa, mas firme. “É onde ele tentará abrir o portal.”

Ela se aproximou de uma grande rocha em forma de serpente enrolada, que parecia ser o centro daquele lugar. A pedra era fria ao toque, mas vibrava com uma energia poderosa.

“O ancião disse que este lugar é protegido pelos espíritos da natureza”, murmurou Rafael, seus olhos percorrendo o ambiente, procurando por qualquer sinal de perigo. “Mas sinto a presença dele. Ele já está aqui, de alguma forma.”

“Ele não está aqui fisicamente”, explicou Isabella, passando a mão pela rocha serpentina. “Ele está se conectando remotamente, usando a energia do local para seus propósitos. Ele está tentando quebrar as barreiras de proteção antes de vir pessoalmente.”

De repente, o chão sob seus pés tremeu. A rocha serpentina emitiu um brilho escuro, e uma energia negativa começou a emanar dela, distorcendo o ar ao redor. Era a influência do Ceifador, tentando profanar o santuário.

“Ele está tentando corromper o lugar!”, exclamou Isabella, sentindo a energia pura do Coração da Serpente lutar contra a influência maligna. “Precisamos realizar o ritual de proteção, Rafael. Agora!”

Ela retirou de sua bolsa alguns elementos que o ancião havia lhe dado: um pequeno recipiente com água de nascente sagrada, um punhado de ervas aromáticas e um pequeno cristal opaco.

“O ritual é para fortalecer as barreiras, para selar o portal antes que ele possa ser aberto”, explicou Isabella, a concentração em seu rosto. “Precisamos canalizar a energia pura do lugar e usá-la para nos defender.”

Enquanto Isabella começava a recitar palavras antigas em uma língua que parecia ecoar dos próprios espíritos da terra, Rafael se posicionou ao seu lado, oferecendo seu apoio. Ele não entendia as palavras, mas sentia a força que elas carregavam, a intenção pura que Isabella projetava.

Ela derramou a água de nascente sobre a rocha serpentina, as ervas em seguida. A água parecia brilhar ao tocar a pedra, e as ervas liberaram um aroma intenso, que parecia afastar a sombra que pairava no ar.

“A força de vida”, sussurrou Isabella, o cristal em sua mão. Ela o ergueu, apontando-o para o céu, como se quisesse capturar a pouca luz que penetrava na densa copa da floresta. “A sabedoria ancestral. A proteção divina. Que se unam e fortaleçam este santuário!”

A energia do local começou a responder. O brilho verde-esmeralda do talismã de Isabella se intensificou, projetando um escudo de luz ao redor deles. O murmúrio do rio subterrâneo se tornou mais audível, um som poderoso que parecia espantar a escuridão.

Mas o Ceifador não desistiu. A rocha serpentina começou a rachar, e de dentro dela, um grito de fúria ecoou, uma voz que perfurava a alma.

“Vocês não podem me deter!”, gritou a voz, agora mais próxima, mais pessoal. “Eu sou a força que move o mundo! A ganância é a verdadeira essência da vida!”

Rafael sentiu uma onda de medo, mas olhou para Isabella, vendo a determinação inabalável em seu rosto. Ela era a personificação da força que o Ceifador tanto desprezava.

“Nosso amor é mais forte que sua ganância!”, gritou Isabella de volta, sua voz ressoando com poder. “Você se alimenta da destruição, mas nós florescemos na união!”

Ela segurou o cristal com mais força, canalizando toda a sua energia e a força do local para ele. O cristal começou a brilhar intensamente, emitindo raios de luz pura que atingiram a rocha serpentina.

De repente, uma figura sombria começou a se materializar diante deles, emergindo das rachaduras da rocha. Era o Ceifador. Ele era alto e esguio, vestindo um manto escuro que parecia absorver a luz. Seu rosto era uma máscara de frieza, seus olhos ardendo com uma ambição insaciável.

“A Guardiã das Estrelas”, sibilou o Ceifador, seus olhos fixos em Isabella. “Você é uma inconveniência. Mas uma inconveniência facilmente eliminada.”

Ele estendeu a mão, e uma energia escura e corrosiva emanou dela, mirando diretamente Isabella. Rafael, agindo por instinto, se jogou na frente dela, protegendo-a com seu corpo. A energia negra atingiu suas costas, e ele sentiu uma dor aguda e excruciante, como se estivesse sendo queimado por dentro.

“Rafael!”, gritou Isabella, o terror tomando conta dela. Ela se virou para ele, o ritual esquecido por um instante.

“Não… não se preocupe comigo”, gemeu Rafael, lutando para se manter de pé. “Continue… o ritual…”

O Ceifador riu, um som seco e desprovido de alegria. “Vejam só! O amor cego. Ele se sacrifica por você, e você nem consegue protegê-lo adequadamente.”

As palavras perfuraram Isabella como flechas envenenadas. A dor de ver Rafael ferido, misturada com a zombaria do Ceifador, a fez cambalear. Mas então, ela sentiu o talismã em sua mão pulsar com um calor reconfortante. A força de sua linhagem, a memória das Guardiãs que vieram antes dela, a lembraram de seu propósito.

Ela se virou para o Ceifador, seus olhos verdes brilhando com uma determinação renovada. “Você pode tentar nos ferir, mas não pode destruir o que nos une.”

Ela ergueu o cristal novamente, a luz que emanava dele se tornando ainda mais intensa. “Pela força da terra, pela sabedoria ancestral, pelo sangue que corre em minhas veias! Eu te expulso daqui, criatura das sombras!”

A luz do cristal explodiu, envolvendo o Ceifador em um feixe ofuscante. Ele gritou de dor e fúria, sua forma sombria se contorcendo sob o ataque. A energia escura que emanava dele começou a se dissipar, como fumaça ao vento.

“Isso não acabou!”, gritou o Ceifador, sua voz enfraquecida, mas ainda repleta de ameaça. “Vocês não sabem com quem estão lidando! Eu voltarei!”

Com um último grito de agonia, a figura sombria do Ceifador foi engolida pela luz do cristal, desaparecendo tão misteriosamente quanto surgiu. A rocha serpentina parou de rachar, e a energia negativa que emanava dela começou a se dissipar, substituída pela força pura e vital do Coração da Serpente.

Isabella correu para Rafael, que cambaleava, seu rosto pálido de dor. Ela o amparou, seus olhos cheios de preocupação.

“Rafael… você está bem?”, perguntou ela, a voz embargada.

Ele forçou um sorriso fraco. “Eu… eu vou ficar bem. Sua força… ela me protegeu.”

Ela o abraçou com força, sentindo o corpo dele tremer. A ferida em suas costas ainda latejava, mas a presença de Isabella, seu amor, parecia aliviar a dor.

“Ele se foi… por enquanto”, disse Isabella, acariciando seus cabelos. “Nós o repelimos. O ritual funcionou.”

Rafael a olhou, seus olhos cheios de admiração e amor. “Você foi incrível, Isabella. Você é a Guardiã que esta terra precisa.”

Eles permaneceram ali, abraçados, no coração do santuário. O perigo imediato havia passado, mas ambos sabiam que a luta estava longe de terminar. O Ceifador voltaria, e eles precisariam estar mais fortes do que nunca. Mas ali, naquele momento de vulnerabilidade e força, o amor que compartilhavam era o seu maior escudo, a sua arma mais poderosa. O Coração da Serpente estava selado, e o ritual de proteção havia sido um sucesso. Mas a verdadeira batalha estava apenas começando.

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