Cap. 2 / 25

Alma Gêmea III

Capítulo 2 — A Trama Bordada de Segredos

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — A Trama Bordada de Segredos

A brisa do final de tarde em Ipanema carregava consigo o aroma salgado do mar e a promessa de uma noite amena, propícia a encontros inesperados e, quem sabe, a revelações. Helena, terminada a sua jornada na livraria “A Trama Invisível”, caminhava pelas ruas ainda movimentadas do bairro, o passo decidido, a mente fervilhando com o reencontro com Rodrigo. A conversa, curta e tensa, a havia deixado com uma inquietação que se negava a ir embora. Era como uma melodia dissonante que teimava em tocar em sua mente, quebrando a harmonia da sua rotina.

Ela parou em frente ao seu pequeno apartamento, um casarão antigo com um charme decadente, onde as varandas eram adornadas com vasos de samambaias e buganvílias coloridas. Era um lar que ela havia construído tijolo por tijolo, tanto fisicamente quanto emocionalmente, desde que Rodrigo havia partido, deixando um rastro de promessas quebradas e um coração em pedaços. O ato de fechar a porta atrás de si era um ritual, um selo simbólico de que ali, dentro daquelas paredes, ela ditava as regras.

No interior, a luz suave do crepúsculo banhava os móveis de madeira escura e os quadros que ela mesma pintara, paisagens cariocas em tons vibrantes. Havia uma sensação de paz, de conquista, que Rodrigo, com toda a sua pretensão e charme, jamais seria capaz de abalar novamente. Pelo menos, era o que ela se dizia.

A campainha tocou, um som que a fez sobressaltar. Ninguém vinha visitá-la sem avisar, a menos que fosse uma emergência ou… uma surpresa desagradável. Com um suspiro, Helena dirigiu-se à porta, o coração batendo um pouco mais rápido. Esperava encontrar a Dona Carmem, sua vizinha fofoqueira, ou talvez o Seu Jorge, o porteiro com seu eterno bom humor. Mas o que a esperava do outro lado da porta era algo completamente diferente.

Era uma mulher. Elegante, impecavelmente vestida, com um ar de sofisticação que parecia deslocado na simplicidade do seu hall de entrada. Os cabelos negros, presos em um coque baixo, emolduravam um rosto de traços finos e olhos escuros, penetrantes, que a analisavam com uma curiosidade quase calculista.

“Posso ajudar?”, Helena perguntou, a voz firme, mas com uma ponta de cautela.

A mulher sorriu, um sorriso contido, que não alcançava os olhos. “Helena? Helena Carvalho?”

“Sou eu mesma.”

“Meu nome é Sofia Vasconcelos. Acredito que tenhamos algo em comum.”

Helena arqueou uma sobrancelha. “Não me lembro de nos conhecermos.”

“Não, não nos conhecemos. Mas você conhece Rodrigo?” A menção do nome dele fez um arrepio percorrer a espinha de Helena. Era demais para um único dia.

“Rodrigo… o que ele tem a ver com você?”

Sofia deu um passo à frente, entrando no apartamento sem ser convidada, o que fez Helena franzir a testa. A ousadia da mulher era notável. “Eu sou a noiva de Rodrigo.”

As palavras pairaram no ar, densas e carregadas de um significado sombrio. Helena sentiu o chão sumir sob seus pés por um instante. Noiva? Rodrigo, que cinco anos atrás a deixara jurando amor eterno, agora estava noivo? A ironia era cruel.

“Noiva?”, Helena repetiu, a voz um sussurro quase inaudível. Tentava processar a informação, a imagem de Rodrigo com outra mulher, uma mulher tão diferente dela, tão… segura de si.

“Sim. E há algo que você precisa saber sobre ele. Algo que ele se recusa a lhe contar.” Os olhos escuros de Sofia a fixaram, um desafio silencioso. “Ele me disse que você foi… uma paixão passageira. Um erro do passado. Mas eu não acredito nele.”

Helena sentiu uma onda de raiva subir, mas a dominou. A presença de Sofia, com sua frieza calculista, a lembrava perigosamente de uma versão de si mesma que ela havia lutado para deixar para trás. “E por que você viria até mim, Sofia? Para me alertar sobre o homem que você ama? Ou para… me testar?”

Sofia sorriu novamente, dessa vez com um toque de malícia. “Digamos que eu não confio cegamente em ninguém. Especialmente em Rodrigo. Ele tem um talento para omitir detalhes importantes.” Ela se aproximou de Helena, o perfume caro e sofisticado invadindo o espaço. “Ele disse que se desfez de tudo o que o ligava a você. Mas eu sei que não é verdade. Eu sei que ele ainda carrega algo de você.”

“E você se incomoda com isso?”

“Eu não me incomodo com o passado, Helena. Eu me incomodo com as mentiras que o presente tenta esconder. Rodrigo está prestes a se casar. Ele é um homem rico, influente. E eu não posso permitir que ele tenha segredos que possam… comprometer nosso futuro.” Os olhos de Sofia varreram o apartamento de Helena, um escrutínio silencioso que ela detestou. “Você tem algo dele? Algo que ele esqueceu? Um objeto, uma lembrança…?”

Helena sentiu uma pontada de humor negro. Rodrigo, o homem que a deixara arrasada, agora era o centro de uma trama de desconfiança entre duas mulheres. “Você acha que eu guardaria algo dele, Sofia? Algo que me lembrasse do homem que partiu meu coração?”

“As pessoas guardam muitas coisas, Helena. Especialmente quando o amor foi intenso.” Sofia se aproximou ainda mais, sua voz baixando para um tom confidencial. “Eu sei que você era a ‘alma gêmea’ dele. Ele falava muito de você, antes de sumir. Falava como se você fosse a única. E depois, do nada, você desapareceu da vida dele. Como ele te disse que você sumiu?”

A pergunta atingiu Helena como um soco. A dor, o abandono, tudo voltou à tona. Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Quando os abriu, a serenidade havia retornado, mas com uma nova força, uma determinação fria.

“Ele não me disse como eu sumi, Sofia. Ele foi quem desapareceu. E eu, em minha ingenuidade, esperei por ele por muito tempo.” Helena a encarou, um brilho de desafio nos olhos verdes. “Se você veio aqui para buscar informações sobre Rodrigo, sinto muito. Eu não sou a sua fonte. E se veio para me acusar de algo, você está no lugar errado. Eu não tenho nada dele. E se tivesse, não seria da sua conta.”

Sofia a observou por um longo momento, seus olhos escuros decifrando a resistência de Helena. “Você é mais forte do que eu pensava”, ela admitiu, a voz perdendo um pouco da sua rigidez. “Ele sempre teve bom gosto.”

“Ele teve um bom gosto passageiro. Eu, por outro lado, aprendi a escolher o que é duradouro.”

Sofia deu um passo para trás, a tensão no ar se dissipando lentamente. “Entendo. Mas se você mudar de ideia… se ele te procurar de novo, ou se você descobrir algo… eu estarei aqui.” Ela tirou um cartão de visita da bolsa, um cardápio de luxo em papel grosso, e o depositou sobre uma mesinha lateral. “Sofia Vasconcelos. Teremos muito mais a conversar, Helena. Tenho a sensação de que nossas histórias estão mais entrelaçadas do que imaginamos.”

E com um último olhar enigmático, Sofia saiu, deixando para trás um rastro de perfume caro e uma Helena completamente abalada. A campainha tocou novamente, um som suave e familiar. Era Dona Carmem, a vizinha, com um pote de bolo de fubá recém-assado.

“Helena, minha querida! Que cara é essa? Parece que viu um fantasma!” Dona Carmem exclamou, seus olhos curiosos já examinando o rosto de Helena.

Helena forçou um sorriso. “Um fantasma, Dona Carmem. Um fantasma com um nome e um noivado.” Ela pegou o bolo, grata pelo gesto, pela normalidade que a vizinha representava. “Mas não se preocupe, eu já o mandei de volta para o lugar de onde veio.”

Enquanto Dona Carmem tagarelava sobre o tempo e os vizinhos, Helena sentia o peso do encontro com Sofia. O homem que ela amara, que a despedaçara, agora estava noivo. E a noiva, por sua vez, a procurara, buscando algo que ela não tinha, mas que, de alguma forma, a conectava a Rodrigo. A trama, que ela pensava ter desfeito, parecia estar sendo habilmente bordada novamente, com fios de segredos e desconfianças. E Helena, a relutante protagonista dessa nova narrativa, sentia que o destino, mais uma vez, a estava puxando para o centro do palco.

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