Entre o Amor e o Ódio II

Capítulo 2 — Sombras do Passado no Engenho Velho

por Camila Costa

Capítulo 2 — Sombras do Passado no Engenho Velho

O sol da manhã banhava o Engenho Velho com uma luz dourada que, de certa forma, tentava disfarçar a decadência que se instalara em suas terras. A fazenda, outrora o orgulho da família Montenegro, um símbolo de prosperidade e tradição, agora exibia sinais de abandono. A casa principal, uma construção imponente de arquitetura colonial, parecia cansada, as paredes manchadas pela chuva e pelo tempo, os jardins outrora exuberantes agora tomados por ervas daninhas. Apenas a senzala, com suas ruínas imponentes, guardava a memória de um passado mais sombrio e doloroso.

Rafael Montenegro, agora um homem de trinta e cinco anos, observava a paisagem do alto de seu cavalo, a mesma paisagem que ele conhecia como a palma de sua mão desde a infância. O vento chicoteava seus cabelos escuros, emoldurando um rosto marcado por uma dureza que não existia em sua juventude. Seus olhos, de um azul profundo e penetrante, percorriam cada detalhe, cada marca de abandono, sentindo um misto de resignação e raiva. A morte do pai, dois anos antes, o forçou a assumir o controle do que restava do império Montenegro, um fardo pesado que ele carregava com uma determinação sombria.

Ele desmontou perto da casa, o som das ferraduras no cascalho ecoando no silêncio da manhã. Seu capataz, um homem corpulento e de poucas palavras chamado Jonas, o aguardava. "Bom dia, senhor Rafael. A audiência com o pessoal da prefeitura é hoje de manhã."

Rafael assentiu, a testa franzida. A burocracia, os pedidos de empréstimos, as negociações para tentar salvar o que era possível… Era uma luta constante. "E os preparativos para a festa de aniversário de Dona Clara?", perguntou ele, referindo-se à sua mãe, uma figura altiva e elegante que se recusava a aceitar a queda da família.

"Tudo sendo organizado, senhor. Ela não quer que nada falte, mesmo com as dificuldades."

Rafael suspirou. Sua mãe era um enigma. Uma mulher que sempre viveu em um mundo de aparências, incapaz de lidar com a realidade da situação financeira da família. Ele a amava, mas a frustração de ver suas decisões muitas vezes baseadas em vaidade e orgulho era imensa.

Enquanto caminhavam em direção à casa, um carro diferente, um modelo moderno e elegante, surgiu na estrada de terra que levava ao engenho. Rafael parou, observando o veículo com uma curiosidade cautelosa. Quem viria a Ilhéus naquele momento, visitando o Engenho Velho? A imagem de Isabella, tão viva em suas memórias, surgiu em sua mente como uma miragem. Impossível. Ele não a via há seis anos, desde aquela noite fatídica que culminou em uma discussão que os separou para sempre.

O carro parou e a porta se abriu. O coração de Rafael deu um salto, um tremor elétrico percorreu seu corpo. Era ela. Isabella Vasconcelos. A mesma beleza deslumbrante, os cabelos escuros caindo em cascata sobre seus ombros, os olhos verdes, antes cheios de vida e alegria, agora carregavam uma melancolia sutil. Ela estava mais madura, mais forte, mas inconfundível.

O tempo pareceu parar. Os pássaros emudeceram, o vento cessou. Apenas o som de seus corações batendo em uníssono parecia ecoar no ar denso. Seis anos de ausência, seis anos de sofrimento, de ódio, de amor reprimido, e ali estavam eles, novamente cara a cara.

Isabella desceu do carro, a postura elegante, mas os olhos desviando-se dos de Rafael. Ela estava acompanhada por um advogado de aparência séria, que parecia ter sido contratado para intermediar os assuntos de sua tia. Rafael sentiu uma pontada de ciúme, misturada à raiva. Ela não estava sozinha.

"Rafael", disse Isabella, a voz tensa, mas firme. Ela finalmente o encarou, e o olhar que se travou entre eles foi como um duelo silencioso, carregado de anos de mágoa e paixão reprimida.

"Isabella", ele respondeu, a voz rouca, um misto de surpresa e uma familiaridade que o assustava. Ele a observou com uma intensidade que a fez corar. "O que você faz aqui? Pensei que nunca mais pisaria em Ilhéus."

"Minha tia Cecília está doente. Eu precisei vir." Ela tentou manter a neutralidade, mas seu coração batia descompassado. A presença dele a desestabilizava de uma forma que ela não suportava.

Rafael deu um passo à frente, o corpo tenso. "Doente? Sinto muito. Ela sempre foi uma boa mulher." Havia um sarcasmo sutil em sua voz que Isabella não deixou passar.

"Ela é a única família que me resta", Isabella retrucou, a voz um pouco mais alta. "E eu não permitirei que você a prejudique de forma alguma, Rafael. Você sabe que os negócios de nossa família e os seus sempre estiveram entrelaçados. Se você tentar tirar proveito da situação dela, eu… eu não vou hesitar em lutar."

Rafael soltou uma risada seca, desprovida de humor. "Você me ameaça, Isabella? Depois de tudo? Você ainda se lembra quem eu sou?"

"Eu me lembro muito bem quem você é, Rafael. E lembro do que você é capaz."

O advogado, percebendo a tensão crescente, pigarreou. "Senhor Montenegro, estamos aqui para discutir os acordos de posse da terra que está sendo negociada com a prefeitura, e que também envolve as terras de sua família. A Senhorita Vasconcelos me contratou para garantir os melhores termos para sua tia."

Rafael olhou para o advogado, depois de volta para Isabella. O jogo de poder havia começado novamente. Ele sentia a mesma adrenalina, a mesma atração perigosa que o consumia anos atrás. "Entendo. Por favor, Jonas, leve o senhor para dentro. Temos um escritório preparado para as discussões. Isabella, espero que sua estadia em Ilhéus seja… produtiva." A última palavra foi dita com um duplo sentido que não passou despercebido por ela.

Enquanto Jonas guiava o advogado para dentro da casa, Rafael permaneceu parado, observando Isabella. Ele viu a força em seus olhos, a resiliência que a fez sobreviver e prosperar longe dali. Mas também viu a fragilidade, a dor que ela tentava esconder. "Você mudou, Isabella."

"E você também, Rafael", ela respondeu, a voz mais suave agora, mas com uma tristeza que o atingiu como um golpe. "Você se tornou amargo."

"Talvez eu tenha tido motivos", ele disse, um tom de mágoa em sua voz. "Talvez a vida me ensinou a ser mais cuidadoso com quem eu deixo entrar no meu coração."

A conversa foi interrompida pelo chamado de Jonas. Rafael se virou, mas antes de ir, olhou para Isabella mais uma vez. "Eu espero que possamos resolver isso civilizadamente, Isabella. Pelos negócios. Pela memória de nossos pais." Ele hesitou por um momento. "E talvez… para que possamos, finalmente, seguir em frente."

Isabella apenas assentiu, incapaz de formular uma resposta. A presença dele era avassaladora. A cada palavra, a cada olhar, ela sentia as antigas feridas se reabrirem, e um turbilhão de emoções conflitantes a dominava. O ódio ainda estava ali, forte e presente, mas sob ele, como uma brasa adormecida, o amor que um dia sentiu por ele parecia querer reacender. Ela sabia que seu retorno a Ilhéus seria uma batalha, não apenas pelas terras de sua tia, mas pelas ruínas de seu próprio coração.

Ela observou Rafael se afastar, sentindo um vazio no peito. Ele era tão diferente, mas ao mesmo tempo, tão familiar. Aquele jeito de andar, a forma como ele franzia a testa quando pensava… tudo a transportava de volta a uma época em que o mundo parecia mais simples, antes da dor e da decepção. Ela se sentia presa entre o desejo de fugir e a necessidade de encarar o passado de frente. A festa de aniversário de Dona Clara estava marcada para o final de semana. Ela sabia que encontraria Rafael novamente, e a ideia a aterrorizava e, ao mesmo tempo, a atraía de uma forma perigosa.

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