Entre o Amor e o Ódio II

Capítulo 7 — O Confronto na Vila e a Semente da Dúvida

por Camila Costa

Capítulo 7 — O Confronto na Vila e a Semente da Dúvida

A ausência de Ricardo na manhã seguinte era um silêncio ensurdecedor que pairava sobre a casa grande. Isabella, com uma força recém-encontrada após a noite de reflexão, decidiu que não podia mais esperar que ele viesse até ela. Era hora de ir ao seu encontro, de tentar, mais uma vez, quebrar a barreira de desconfiança que ele erguera entre eles.

Vestiu um vestido simples, mas elegante, de algodão leve, na cor azul-céu, que realçava o brilho de seus olhos. Pegou seu cavalo, Flor, um animal forte e leal, e partiu em direção à vila que ficava a poucos quilômetros do engenho. A paisagem ao longo do caminho era um convite à contemplação: campos de cana-de-açúcar ondulando ao vento, o sol acariciando a terra, e o canto dos pássaros compondo uma sinfonia natural. Mas em seu coração, uma melodia dissonante de preocupação e esperança a acompanhava.

Ao chegar à vila, o burburinho habitual de pessoas, carros de boi e o aroma de pão fresco invadiu seus sentidos. A vila de São José do Rio Claro era o coração pulsante da região, um lugar onde a vida seguia um ritmo mais simples, mas não menos intenso. Isabella conhecia bem aqueles caminhos, cada esquina guardava uma memória, cada rosto, uma história.

Ela sabia que encontraria Ricardo na estalagem do Seu Afonso, um lugar frequentado por fazendeiros e comerciantes, onde negócios eram fechados e boatos se espalhavam como fogo em palha seca. A estalagem era rústica, com paredes de adobe caiadas de branco e um telhado de telhas antigas, mas emanava um calor acolhedor, mesmo para alguém em sua situação.

Ao entrar, o burburinho cessou por um instante, e os olhares se voltaram para ela. Isabella não se importou. Estava acostumada à atenção, mas hoje, a sua presença era motivada por um propósito específico. Ela avistou Ricardo em uma das mesas do canto, a postura rígida, o olhar perdido em algum ponto distante. Ele estava acompanhado por um homem mais velho, de aparência severa, que ela reconheceu como o Dr. Arnaldo, um advogado conhecido na região.

Respirou fundo e caminhou em direção a eles, o som de seus sapatos ecoando no chão de madeira. Ricardo ergueu os olhos, uma sombra de surpresa misturada com algo que ela não soube decifrar passando por seu rosto.

“Ricardo”, disse ela, a voz firme, mas com um toque de ternura contida.

Ele se levantou, o corpo tenso. Dr. Arnaldo apenas observou a cena com uma curiosidade discreta. “Isabella. O que faz aqui?”

“Eu vim falar com você. Precisamos conversar.”

Um sorriso sarcástico surgiu nos lábios de Ricardo. “Conversar? Acho que já tivemos nossas conversas, senhorita. E elas não foram muito produtivas.”

“Ricardo, por favor. Deixe as aparências de lado. Eu sei que você está magoado, mas o que você disse ontem… não é a verdade.” A voz de Isabella era um apelo, uma súplica silenciosa que ela esperava que ele pudesse ouvir.

Ele deu uma risada seca, sem humor. “A verdade? A verdade, Isabella, é que você sempre soube como jogar esse jogo. E eu caí nele de novo.” Ele olhou para Dr. Arnaldo. “Desculpe, Arnaldo. Parece que a senhorita tem outros planos para mim.”

Isabella sentiu o sangue ferver nas veias. A frieza dele era mais dolorosa do que qualquer grito. “Jogos? Você ainda insiste nisso? Eu vim aqui, em público, para tentar te mostrar que o meu amor é real. Que eu não tenho interesse nenhum em seu dinheiro, apenas em você!”

Dr. Arnaldo, que até então se mantivera em silêncio, pigarreou levemente. “Senhorita Isabella, com todo o respeito, o senhor Ricardo parece ter uma visão bem clara da situação.”

“E o senhor, Dr. Arnaldo, sabe a verdade sobre o meu pai? Sabe quem o mandou matar? Ou prefere ignorar isso em troca de favores do meu tio, que manipula todos ao seu redor?” As palavras de Isabella saíram como um disparo, carregadas de raiva e frustração.

O advogado empalideceu levemente, surpreendido pela acusação. Ricardo, por sua vez, olhou para Isabella com uma intensidade que ela não via há muito tempo, uma mistura de choque e algo que se parecia com… dúvida.

“O que você está dizendo, Isabella?”, perguntou Ricardo, a voz mais baixa, com um tom de desconfiança que ela não gostou, mas que a animou um pouco.

“Estou dizendo que meu tio, o Dr. Alencar, orquestrou a morte do meu pai. E que ele usou você, Ricardo, para me desacreditar, para me afastar, para manter seu poder intacto. Ele está manipulando todos, inclusive você!”

As palavras pairavam no ar, carregadas de uma verdade que parecia nuclear. Dr. Arnaldo pigarreou novamente, desconfortável. “Senhorita, essas são alegações muito sérias.”

“São a verdade, Dr. Arnaldo!”, retrucou Isabella. “E você sabe disso. Sei que meu tio te pressionou a concordar com o casamento arranjado, a me manter afastada de Ricardo, a proteger seus interesses. Mas até quando você vai se curvar à vontade dele?”

Ricardo a encarava, os olhos agora penetrantes, buscando algo em seu rosto. A acusação contra seu tio, a quem ele via como um aliado na luta contra o pai de Isabella, era algo que o desestabilizava. Ele sabia que o Dr. Alencar tinha seus próprios interesses, mas o assassinato… isso era um nível de crueldade que ele não havia considerado.

“Meu tio… ele sempre foi um homem calculista, mas… assassinato?”, a voz de Ricardo era quase um sussurro.

“Ele é capaz de tudo para manter o que tem, Ricardo. E você, com sua fama de vingativo, era o peão perfeito em seu jogo. Ele queria me ver longe dele, e ele sabia que você, com sua raiva, seria o instrumento ideal para isso.” Isabella deu um passo à frente, a esperança de finalmente plantar uma semente de dúvida em seu coração crescendo. “Você acha que eu me importaria com seu dinheiro? Eu tenho o meu. O que eu quero é você. O homem que eu amo. E você está permitindo que meu tio, e as sombras do seu próprio passado, o impeçam de ver isso.”

Dr. Arnaldo, visivelmente abalado, tentou intervir. “Senhor Ricardo, acho que a senhorita Isabella está sendo… dramática. O Dr. Alencar é um homem íntegro.”

“Íntegro?”, Isabella riu, um riso amargo. “Ele é um manipulador! E você, Dr. Arnaldo, é cúmplice dele. Você sabe que meu tio me ameaçou, sabe que ele tentou me humilhar e me afastar de quem eu amo. E você, em vez de defender a justiça, se aliou a ele.”

Ricardo olhou de Isabella para Dr. Arnaldo, a indecisão clara em seu rosto. A imagem que ele tinha do Dr. Alencar, um homem que lhe ofereceu apoio em seu momento de maior necessidade, começava a rachar. A confissão de Isabella sobre o assassinato de seu pai, algo que ele sempre acreditou ter sido obra do destino ou de um inimigo desconhecido, agora ganhava um novo contorno.

“Se o que você diz é verdade, Isabella… se meu tio realmente orquestrou a morte do seu pai e está te usando…”, a voz de Ricardo era um fio.

“É a verdade, Ricardo. Eu tenho provas. Documentos que meu tio pensou ter destruído. E eu vou usá-los para provar a todos quem ele realmente é.” Isabella sentiu um vislumbre de vitória. A dúvida estava ali, plantada.

Ela sabia que não convenceria Ricardo naquele momento. A mágoa era profunda, o orgulho, ainda mais. Mas ela viu algo em seus olhos que não estava lá antes: uma fenda na armadura de ódio que ele usava.

“Eu preciso ir”, disse ela, a voz mais calma. “Mas saiba, Ricardo, que eu não desisto de você. E não vou desistir de desmascarar meu tio. A verdade virá à tona, e quando isso acontecer, espero que você possa olhar para mim e ver o amor, não o ódio.”

Ela se virou e saiu da estalagem, deixando um rastro de silêncio e perplexidade. Ao montar em Flor, sentiu o olhar de Ricardo em suas costas, um olhar que ela não conseguia decifrar completamente. Era raiva? Confusão? Ou, pela primeira vez em muito tempo, era a primeira centelha de esperança?

Ao cavalgar de volta para o engenho, Isabella sabia que havia acendido um pavio. A semente da dúvida fora plantada na mente de Ricardo. Agora, ela precisava encontrar as provas concretas para que essa semente florescesse e desenterrasse a verdade que os separava. A batalha estava longe de terminar, mas ela sentia que, pela primeira vez, estava lutando a luta certa, com as armas certas: a verdade e o amor.

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