Entre o Amor e o Ódio II

Capítulo 8 — Os Fantasmas do Passado e a Confissão Oculta

por Camila Costa

Capítulo 8 — Os Fantasmas do Passado e a Confissão Oculta

A noite caíra sobre o engenho, trazendo consigo a tranquilidade que Isabella tanto almejava após o turbulento dia na vila. As estrelas pontilhavam o céu escuro, como diamantes espalhados sobre um veludo negro, mas a beleza serena da natureza não conseguia dissipar a tempestade que ainda reinava em seu interior. A conversa com Ricardo, por mais tensa que tivesse sido, plantara uma semente de esperança. A dúvida em seus olhos, a forma como ele reagiu à acusação contra o Dr. Alencar, eram sinais encorajadores.

Ela se encontrava em seu escritório, um cômodo repleto de livros antigos e o aroma suave de papel e couro. A luz fraca de um abajur projetava sombras dançantes pelas paredes, criando uma atmosfera de mistério e introspecção. Em suas mãos, ela segurava uma caixa de madeira antiga, herdada de seu pai. Era ali que ele guardava seus segredos mais preciosos, suas memórias, e, ela esperava, as provas que precisava para desmascarar o Dr. Alencar.

Com os dedos trêmulos, Isabella abriu a caixa. Um perfume de lavanda e poeira antiga a envolveu, transportando-a de volta no tempo. Lá dentro, encontrou cartas amareladas, fotografias desbotadas e um pequeno diário com capa de couro gasta. Seu coração disparou. O diário de seu pai.

Ela folheou as páginas com cuidado, cada linha escrita com a caligrafia elegante e precisa de seu pai era um vislumbre de sua alma. As primeiras entradas falavam de seus sonhos para o engenho, de seu amor por sua falecida esposa, mãe de Isabella, e do orgulho que sentia por sua filha. Mas à medida que avançava, o tom mudava. As palavras se tornavam mais sombrias, carregadas de preocupação, de desconfiança em relação a seu irmão, Dr. Alencar.

“Ele quer tudo para si”, escreveu seu pai em uma entrada. “Sua ambição cega o consome. Tenho medo do que ele pode fazer para alcançar seus objetivos. Ele já me ameaçou veladamente, insinuando que a minha ‘recusa’ em vender parte das terras para seus sócios ocidentais é um obstáculo que pode ser removido de forma… definitiva.”

Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ameaça velada. A remoção de obstáculos. As palavras confirmavam seus piores medos. Continuou lendo, a respiração suspensa.

“Alencar tem se aproximado de Ricardo, o filho do meu antigo sócio. Sei que ele tem planos para o rapaz, talvez para usá-lo contra mim, para minar minha reputação. Ricardo é um jovem de fogo, cheio de mágoas, e meu irmão sabe como explorar isso. Preciso proteger Isabella. Preciso garantir que ela não caia nas armadilhas dele.”

Uma carta, dobrada de forma diferente das outras, chamou sua atenção. Era endereçada a ela, mas trazia a data de um mês antes da morte de seu pai. Isabella a abriu, o papel frágil nas mãos.

“Minha querida Isabella,

Se você está lendo esta carta, é porque algo deu terrivelmente errado. Meu coração sangra ao pensar que você pode estar em perigo, ou que meu irmão conseguiu o que tanto almeja.

Eu descobri a verdade sobre os planos de Alencar. Ele não quer apenas o meu engenho, ele quer controle total. Ele está envolvido em negócios ilícitos, lavagem de dinheiro, e usa a fachada de sua empresa para encobrir tudo. Ele fez um acordo com figuras perigosas, e eu tentei detê-lo. Ele não vai me perdoar.

Eu tomei precauções. Juntei documentos que provam suas transgressões. Estão escondidos em um lugar seguro, um lugar que só nós dois conhecemos: a velha gruta atrás da cachoeira, onde passávamos nossos domingos quando você era pequena. Há um compartimento secreto na rocha, perto da entrada. A chave para abri-lo está em um colar que sua mãe usava, aquele com o pingente em forma de coração. Eu o guardei para você.

Tenha cuidado, minha filha. Seu tio é implacável. Não confie em ninguém que ele apresentar como aliado, especialmente se essa pessoa tiver laços com o jovem Ricardo. Alencar pode tentar manipulá-lo contra você. Use sua inteligência, seu coração, e a verdade.

Eu te amo mais do que as estrelas no céu.

Com todo o meu amor, Seu pai.”

As lágrimas rolaram livremente pelo rosto de Isabella. Seu pai sabia. Ele sabia de tudo. E ele tentou protegê-la, deixou um rastro para que ela pudesse encontrar a verdade. A velha gruta. A cachoeira. A chave.

Ela pegou o colar que usava no pescoço, um presente de sua mãe, com o pingente em forma de coração. Era o mesmo colar que ela havia deixado para trás no dia da festa. A nostalgia a atingiu com força, mas agora, misturada a uma nova determinação.

Isabella não perdeu tempo. Vestiu um conjunto mais prático, com calças e uma blusa de manga comprida. Pegou uma lanterna e saiu em direção à cachoeira, a caixa de seu pai e o diário em uma bolsa a tiracolo. A noite estava mais fria agora, e a floresta parecia ainda mais densa e misteriosa.

Ao chegar à cachoeira, o som estrondoso da água caindo era quase ensurdecedor. A luz da lua refletia nas gotas d’água, criando um espetáculo mágico, mas também inquietante. Ela se aproximou da gruta, o coração batendo forte no peito. Era um lugar que ela conhecia bem, mas agora, parecia um portal para um passado perigoso.

Com a lanterna em punho, começou a procurar o compartimento secreto. Seu pai era um homem detalhista, e a descrição era precisa. Encontrou a rocha indicada, e ali, camuflado pela vegetação, estava o mecanismo. Com os dedos, pressionou o pingente do colar no lugar certo. Um clique suave, e uma pequena parte da rocha se moveu, revelando um espaço escuro.

Lá dentro, encontrou pacotes de documentos, selados com o selo do engenho, mas com anotações suspeitas em seus cantos. Havia também um pendrive. Isabella sentiu que estava prestes a desvendar a verdade, a verdade que separava ela e Ricardo, a verdade que destruiu sua família.

Enquanto examinava os documentos, um som a alertou. Um galho quebrou na mata. O coração de Isabella disparou. Ela não estava sozinha.

Apagou a lanterna e se escondeu nas sombras da gruta, o corpo tenso. Os passos se aproximavam.

“Quem está aí?”, uma voz rouca ecoou na noite.

Isabella reconheceu a voz. Era o capataz de seu tio, um homem de poucas palavras e olhar sinistro, que ela vira poucas vezes.

O capataz entrou na gruta, iluminando o local com uma potente lanterna. Seus olhos varreram o espaço, e então pousaram em Isabella, encolhida nas sombras. Um sorriso cruel se formou em seus lábios.

“Ora, ora. A mocinha. O que faz aqui tão tarde? Procurando alguma coisa?”

Isabella não respondeu, mas apertou o pendrive em sua mão.

“Seu pai era um tolo”, continuou o capataz, aproximando-se. “Acreditava que podia mudar o mundo com seus ideais. Mas o mundo é dos espertos, como o Dr. Alencar.”

Ele tentou agarrá-la, mas Isabella, com um impulso de adrenalina, se esquivou. Ela sabia que ele estava ali para impedir que ela encontrasse os documentos. Talvez a mando de seu tio, talvez por ordens diretas do próprio Dr. Alencar.

“Você não vai me impedir”, disse Isabella, a voz firme, apesar do medo.

“Oh, vou sim. E o Dr. Alencar vai ficar muito satisfeito.”

O capataz avançou novamente, e Isabella, em desespero, se jogou para trás, caindo em direção à entrada da gruta. A lanterna dele varreu o local onde ela estava segundos antes. Ela sabia que precisava escapar, levar os documentos para longe dele.

Em um movimento rápido, ela pegou um pedaço de madeira solto no chão e o atirou contra o capataz, distraindo-o por um instante. Correu para fora da gruta, a luz da lua guiando seu caminho.

“Não fuja!”, gritou o capataz, correndo atrás dela.

Isabella correu o mais rápido que pôde pela mata, os galhos arranhando seu rosto e braços. O som dos passos do capataz ecoava atrás dela, cada vez mais perto. Ela sabia que não podia fugir para sempre.

Foi então que, em meio ao desespero, ela viu uma silhueta emergindo da escuridão. Ricardo. Ele estava ali, como se o destino tivesse conspirado para que ele a encontrasse naquele exato momento.

“Isabella!”, ele gritou, correndo em sua direção.

O capataz, vendo Ricardo, parou por um instante, surpreso. Essa pausa foi o suficiente para Isabella chegar até Ricardo.

“Ricardo! Ele está atrás de mim! Meu tio enviou ele!”

Ricardo olhou para o capataz, o olhar de ódio e desconfiança voltando em força total. Ele não precisava de mais nada para acreditar em Isabella. A presença do capataz, o medo nos olhos dela, tudo confirmava a história.

“Quem é você?”, perguntou Ricardo ao capataz, a voz perigosa.

O capataz hesitou, vendo o perigo iminente. Ricardo era forte, e a raiva em seus olhos era palpável.

“Eu… eu estava apenas verificando a segurança”, gaguejou o capataz, tentando disfarçar.

“Verificando a segurança? Naquela hora da noite? Naquela gruta? Não minta para mim!” Ricardo deu um passo à frente.

O capataz, percebendo que estava encurralado, deu um passo para trás e, em um movimento rápido, correu de volta para a escuridão da floresta.

Isabella e Ricardo ficaram parados, ofegantes. A tensão no ar era palpável.

“Ele… ele estava tentando me impedir de pegar os documentos”, disse Isabella, mostrando o pendrive e os papéis. “São provas contra meu tio.”

Ricardo pegou os documentos e o pendrive, o olhar fixo neles. Ele sentiu o peso da verdade começar a desabar sobre ele. A confusão, a dúvida, e agora, a confirmação de que o Dr. Alencar não era o homem que ele pensava.

Ele olhou para Isabella, o semblante agora tomado por uma mistura de remorso e respeito. “Isabella… eu sinto muito. Eu… eu fui um tolo.”

As lágrimas voltaram a brotar dos olhos de Isabella, mas desta vez, eram lágrimas de alívio. A verdade estava começando a vir à tona.

“Nós precisamos verificar isso”, disse Ricardo, a voz firme. “Se for verdade… tudo o que você disse sobre meu tio e o seu… vamos ter que enfrentar isso juntos.”

O olhar que ele dirigiu a ela era diferente. Havia um reconhecimento, uma admiração, e, pela primeira vez em muito tempo, um vislumbre de amor verdadeiro, livre das sombras do ódio e da vingança. A noite escura havia trazido à tona uma verdade chocante, mas também a promessa de um futuro onde o amor poderia, finalmente, triunfar.

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