Voltar a te Amar III

Voltar a Te Amar III

por Camila Costa

Voltar a Te Amar III

Autor: Camila Costa

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Capítulo 1 — O Sussurro do Passado na Chuva de Verão

A chuva de verão caía em torrentes sobre o Rio de Janeiro, lavando as ruas de Copacabana com a fúria de quem não aguenta mais guardar segredos. Em um apartamento no décimo andar, com a vista deslumbrante e torturante para o mar revolto, Helena sentia a tempestade do lado de fora refletir a que assolava seu peito. Há dez anos. Dez anos desde a última vez que o viu, dez anos desde que o amor se despedaçou em mil cacos que ela tentava, em vão, juntar.

Ela se aproximou da janela embaçada, a respiração quente formando pequenas nuvens efêmeras na superfície fria do vidro. Lá embaixo, os carros navegavam em rios de água, os guarda-sóis dos quiosques virados como bandeiras de rendição. Era um cenário de caos, mas, para Helena, era apenas um reflexo do seu próprio mundo interior. Um mundo onde a ordem se desfez no momento em que ele partiu.

“Senhora Helena?”, a voz suave de Dona Ermelinda, sua governanta e confidente, a tirou de seus devaneios. A mulher, com seus cabelos grisalhos presos em um coque impecável e um avental branco sobre o vestido simples, trazia uma bandeja com um chá fumegante.

Helena se virou, um sorriso fraco brincando em seus lábios. “Obrigada, Dona Ermelinda. O tempo está terrível lá fora.”

“Parece que o céu está chorando junto com a senhora”, respondeu a governanta, seus olhos experientes perscrutando o rosto pálido e as olheiras fundas que a modelo mundialmente famosa ostentava. Helena não era mais a jovem vibrante que encantou o mundo com sua beleza e talento. A vida, com suas curvas implacáveis, a havia moldado em uma mulher mais sombria, mais reflexiva, mas também, de certa forma, mais forte. Ou talvez apenas mais resignada.

Ela pegou a xícara de chá de camomila, o calor reconfortante se espalhando por suas mãos. “É apenas chuva, Dona Ermelinda. Nada que o sol não possa resolver depois.” Mas nem ela acreditava nas próprias palavras. O sol havia se posto em sua vida há uma década e, por mais que tentasse, parecia incapaz de ressurgir.

“Fico feliz que tenha vindo para o Rio neste momento, senhora. A cidade é sempre um bálsamo.” Dona Ermelinda arrumava uma almofada no sofá. “E o casamento da sua irmã, uma ocasião feliz.”

Helena engoliu em seco. O casamento de sua irmã mais nova, Sofia, era o motivo pelo qual ela havia retornado ao Brasil após anos vivendo entre Paris, Milão e Nova York. Um retorno planejado meticulosamente, uma fuga cuidadosamente orquestrada de sua vida agitada para a aparente tranquilidade da sua terra natal. Mas, de alguma forma, o destino parecia ter outros planos.

“Sim, um motivo para celebrar”, disse, sua voz um pouco mais tensa. Ela sabia que este retorno não seria apenas sobre o casamento de Sofia. Seria sobre confrontar fantasmas, sobre reviver dores adormecidas. E o principal deles, o maior deles, usava o nome de Rafael.

Rafael. O nome ecoava em sua mente como uma melodia antiga, carregada de paixão e de um sofrimento que ela jurara ter enterrado. O homem que foi seu primeiro amor, sua alma gêmea, o motivo de seu coração ter parado de bater por tanto tempo. E, ironicamente, o motivo pelo qual ela precisou ir embora.

Dona Ermelinda permaneceu por mais alguns minutos, conversando sobre trivialidades, sobre os preparativos para a festa, sobre a saudade que sentia dos tempos em que Helena era uma menina travessa correndo pelos jardins da mansão. Cada palavra era um fio que tecia a tapeçaria de memórias que Helena tanto tentava evitar.

Quando a governanta se retirou, Helena voltou para a janela. A chuva começava a diminuir, mas o céu continuava cinzento, carregado. De repente, um flash de memória a atingiu, tão vívido que ela quase podia sentir o cheiro do mar salgado e o calor do sol na pele. O dia em que eles se conheceram.

Ela tinha dezessete anos, um corpo esguio e uma ingenuidade que se espalhava como perfume. Ele, Rafael, era um ano mais velho, com um sorriso que desarmava e olhos castanhos que pareciam carregar o peso de um oceano. Encontraram-se por acaso, numa praia deserta em Arraial do Cabo. Ela se perdeu em uma trilha, ele a encontrou machucada, com o tornozelo torcido. A partir daquele momento, o mundo de Helena ganhou novas cores.

Eles viveram um amor de verão intenso, daqueles que parecem eternos, que consomem tudo. Noites sob o céu estrelado, planos para um futuro que parecia ao alcance das mãos, juras de amor eterno. Ele era seu primeiro amor, seu grande amor. E ela, a sua musa, a sua estrela.

Mas o destino, aquele arquiteto cruel do sofrimento humano, interveio com sua frieza implacável. Uma oportunidade de ouro surgiu para Helena na Europa, um contrato com uma agência renomada em Paris. Ela era jovem, ambiciosa, cheia de sonhos. Ele, por sua vez, herdou os negócios da família, um império que o prendia ao Rio de Janeiro. A distância, os compromissos, as pressões… A vida real, que não era um conto de fadas, começou a cobrar seu preço.

As cartas se tornaram mais escassas, as ligações telefônicas mais tensas. As dúvidas começaram a se instalar, os medos a se multiplicar. E um dia, sem um adeus digno, sem uma explicação clara, Rafael desapareceu. Ou melhor, Helena o deixou desaparecer. A dor da separação, a amargura da incompreensão, a humilhação de ser deixada para trás… tudo isso a empurrou para o outro lado do Atlântico, em busca de uma nova vida, uma nova identidade.

Agora, dez anos depois, ela estava de volta. E com ela, a sombra de Rafael pairava sobre cada passo. Sofia insistia que ele estaria presente no casamento. Ele, afinal, era amigo íntimo do noivo, o engenheiro Ricardo, um homem bom e dedicado que amava Sofia com a devoção que Helena um dia sonhou ter.

O coração de Helena disparou. Ver Rafael novamente. Depois de tanto tempo, depois de tanta dor. A mera possibilidade era sufocante. Ela se virou, caminhando pela sala ampla e moderna, decorada com um bom gosto impecável, mas fria como o gelo. A vida que ela construiu era um sucesso estrondoso, um castelo de luxo e reconhecimento. Mas era um castelo solitário.

Ela parou diante de um grande espelho na parede. Seu reflexo a encarou de volta. Cabelos loiros platinados, olhos azuis penetrantes, um corpo esculpido pelos deuses da moda. A maquiagem perfeita, o vestido de grife que ela usava em casa, uma casualidade que custava uma fortuna. Mas por trás da máscara de beleza e sucesso, havia uma mulher quebrada. Uma mulher que, apesar de toda a glória, nunca conseguiu se perdoar por ter deixado o amor escapar.

“Você não pode fugir para sempre, Helena”, sussurrou para seu reflexo. A chuva lá fora havia cessado. O sol, tímido, começava a espreitar por entre as nuvens. Mas o céu em seu peito ainda estava carregado. E ela sabia, com uma certeza dolorosa, que a tempestade estava apenas começando. O Rio de Janeiro, que deveria ser um refúgio, parecia se transformar em um campo de batalha. E a guerra seria contra o passado. Uma guerra que ela estava condenada a perder, ou a vencer de uma forma que ela ainda não podia conceber. A única certeza era que, para voltar a amar, ela precisava primeiro encontrar o que havia perdido. E o primeiro passo era encarar Rafael.

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