Voltar a te Amar III

Capítulo 17 — A Tensão no Ar Condicionado

por Camila Costa

Capítulo 17 — A Tensão no Ar Condicionado

O cheiro de chuva e terra molhada ainda pairava no ar quando Helena fechou a porta, lançando um olhar para Sofia. A outra mulher sacudiu a água dos cabelos, um gesto tímido que não diminuía a tensão palpável entre elas. O silêncio era espesso, carregado de palavras não ditas, de mágoas antigas e de um presente incerto. A casa, que antes parecia grande o suficiente para abrigar a esperança de um futuro a dois, agora parecia pequena e sufocante com a presença inesperada de Sofia.

“Senta”, Helena finalmente disse, a voz controlada, tentando esconder o tremor que lhe percorria o corpo. Apontou para o sofá. “Quer um chá? Café?”

Sofia balançou a cabeça, os olhos fixos no chão. “Não, obrigada. Eu só… eu estava passando e vi a luz acesa. Fiquei preocupada. E quando a chuva começou…” A voz dela sumiu.

Preocupada? Helena sentiu uma pontada de ironia. Preocupada com o quê? Com a possibilidade de que Miguel tivesse escolhido o seu lado definitivo? A ideia era absurda, mas o bilhete dele era uma prova irrefutável de que a sua posição não era tão segura quanto imaginara.

“Miguel não está aqui”, Helena disse, a declaração soando mais como um aviso do que como uma constatação.

Sofia finalmente levantou os olhos, encontrando os de Helena. Havia uma sinceridade assustadora neles. “Eu sei. Eu… eu vi o carro dele ir embora mais cedo. Achei que ele tivesse vindo te ver.”

A cada palavra, uma nova camada de mal-entendidos se desfazia, revelando uma verdade ainda mais complexa. Miguel havia estado ali, com Helena, e depois partiu. Para onde? E por quê?

“Ele me deixou um bilhete”, Helena disse, a voz baixa. “Disse que precisava de um tempo para pensar.”

O choque no rosto de Sofia foi genuíno. Ela parecia surpresa, quase confusa. “Pensar? Sobre o quê?”

Helena deu de ombros, um movimento que transmitia uma resignação dolorosa. “Não sei. Talvez sobre tudo. Sobre nós. Sobre o passado.” A menção ao passado pairou no ar, pesada com as histórias de Sofia e Miguel.

“Helena, eu… eu sinto muito se alguma coisa que aconteceu ontem te machucou”, Sofia começou, a hesitação clara em sua voz. “Não era minha intenção. Eu só queria… entender.”

“Entender o quê, Sofia?”, Helena perguntou, a voz ganhando um tom mais afiado. A compostura que ela tentava manter começava a rachar. “Entender se ainda há algo entre você e Miguel? Entender se o tempo afastou vocês, mas não os sentimentos?”

Sofia suspirou, derrotada. “Não é isso. É que… você não sabe o que foi viver tudo aquilo. A forma como as coisas terminaram. E quando Miguel voltou, eu senti que ele estava diferente. Que ele tinha encontrado a paz. E eu não queria ser um fantasma no seu novo mundo.”

“E você acha que sua presença aqui, nesse momento, é menos assustadora do que um fantasma?”, Helena rebateu, a mágoa transbordando. “Você sabia que estávamos nos reaproximando. Você sabia que o jantar era importante para nós. E ainda assim, você apareceu.”

“Eu não sabia que ele viria com você, Helena! Eu fui a casa dele para… para conversar sobre algumas coisas da família. E ele estava se arrumando para vir para cá. Ele me convidou para dar uma carona, porque estava chovendo e ele não queria que eu voltasse sozinha. Eu pensei que seria melhor vir com ele, para que pudéssemos conversar no caminho, longe de curiosos. E você apareceu, e tudo virou um circo. Eu me senti péssima. E hoje, quando o vi ir embora, eu fiquei aflita.”

As palavras de Sofia ecoaram na sala, uma confissão carregada de uma estranha sinceridade. Helena a observou, tentando decifrar a verdade em seus olhos. Era possível que Sofia não tivesse tido a intenção de sabotar seu reencontro? Que sua presença fosse um acaso infeliz, uma coincidência cruel?

“Ele disse que precisava pensar”, Helena repetiu, como se quisesse se convencer da sua própria dor. “Talvez ele esteja pensando em você, Sofia. Talvez você seja o fantasma que ele nunca conseguiu esquecer.”

Um silêncio pesado se instalou. Sofia desviou o olhar, uma sombra de tristeza cruzando seu rosto. “Talvez você esteja certa, Helena. Miguel e eu tivemos uma história intensa. E quando algo assim acaba de repente, deixa marcas profundas. Eu nunca o esqueci. Mas o que sinto por ele agora é diferente. É uma saudade do que foi, e um desejo de que ele seja feliz. E eu vi que ele estava feliz com você. Por isso, ontem, eu só queria reafirmar algumas coisas para ele, sobre o passado. Para que ele pudesse seguir em frente com a consciência limpa. E eu, para que pudesse seguir em frente com a minha.”

Helena observou Sofia, a vulnerabilidade estampada em seu semblante. A compostura que ela tanto prezava parecia se desintegrar diante da outra mulher. Talvez, apenas talvez, Sofia não fosse a vilã que ela pintara em sua mente. Talvez a história delas fosse mais complexa, mais dolorosa, e menos maniqueísta do que ela imaginara.

“O que você quer, Sofia?”, Helena perguntou, a voz mais suave agora. A tempestade lá fora diminuíra para uma chuva persistente, e a tensão dentro da casa parecia, de certa forma, ecoar essa mudança.

Sofia respirou fundo. “Eu não quero nada. Eu só… eu não sabia o que fazer. E a ideia de que Miguel pudesse estar sofrendo, e você também, me incomodou. Eu… eu gosto de Miguel. Gosto dele de verdade. E eu sempre quis o melhor para ele. E quando o vi com você, eu senti que ele estava encontrando esse melhor.”

Ela fez uma pausa, como se reunindo coragem. “Helena, eu sei que você deve me odiar. E eu entendo. Mas eu juro, por tudo que é mais sagrado, que não tenho a intenção de te machucar ou de atrapalhar vocês. Eu só… eu queria ter certeza de que Miguel pudesse ser feliz. E acho que ele pode ser feliz com você.”

As palavras de Sofia foram como um bálsamo inesperado em meio à ferida aberta. Helena sentiu um nó se desfazer em sua garganta. A raiva, a mágoa, a incerteza, tudo começou a dar lugar a uma estranha empatia. Elas estavam no mesmo barco, de certa forma. Ambas amavam Miguel, ambas carregavam cicatrizes do passado, e ambas, de alguma maneira, estavam perdidas.

“Ele disse que precisava de um tempo para pensar”, Helena repetiu, a voz mais calma. “Eu não sei o que isso significa.”

Sofia a olhou com compaixão. “Significa que ele está confuso. Que ele tem muitas coisas para processar. Miguel é um homem bom, Helena. Ele só precisa de tempo para encontrar o caminho dele.”

O ar condicionado da casa, antes um conforto contra o calor, agora parecia gerar um frio sutil, um reflexo da incerteza que pairava no ambiente. Helena olhou para Sofia, uma estranha conexão se estabelecendo entre elas. Talvez, em meio a essa tempestade, elas pudessem encontrar um porto seguro uma na outra. Ou talvez, essa fosse apenas uma trégua temporária, antes de uma nova tempestade.

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