Voltar a te Amar III
Capítulo 19 — O Café da Praça e a Verdade Nua e Crua
por Camila Costa
Capítulo 19 — O Café da Praça e a Verdade Nua e Crua
O burburinho suave do antigo café da praça era um contraste reconfortante com a tempestade que havia assolado a região. A luz dourada do sol da tarde filtrava pelas janelas, iluminando as mesas de madeira desgastada e as cadeiras que guardavam tantas histórias. Helena respirou fundo o aroma familiar de café recém-passado e pão fresco, um cheiro que antes a trazia de volta a momentos de pura felicidade. Agora, porém, o perfume parecia tingido de apreensão.
Ela avistou Miguel em uma das mesas mais afastadas, perto da janela. Ele parecia o mesmo, mas ao mesmo tempo, diferente. Havia uma ruga de preocupação em sua testa, um peso em seus ombros que ela não se lembrava de ter visto antes. Seus olhos, geralmente tão expressivos, pareciam um pouco perdidos, fixos em um ponto invisível.
Helena caminhou até ele, o som dos seus passos ecoando no chão de madeira. Miguel levantou a cabeça, e por um instante, um vislumbre do antigo brilho em seus olhos a fez suspirar aliviada. Mas a preocupação logo retornou.
“Oi”, Helena disse, a voz um pouco trêmula.
“Oi”, Miguel respondeu, a voz rouca. Ele se levantou, e por um momento, eles se encararam, um abismo de emoções não ditas se estendendo entre eles.
“Senta”, ele disse, indicando a cadeira à sua frente.
Helena sentou-se, as mãos entrelaçadas no colo, a ansiedade roendo suas entranhas. O garçom se aproximou, e Helena pediu um cappuccino, enquanto Miguel já tinha seu café preto à sua frente.
“Obrigado por vir”, Miguel disse, depois que o garçom se afastou.
“Eu precisava vir”, Helena respondeu. “Você me deixou um bilhete, Miguel. Um bilhete. Depois de tudo.”
Miguel suspirou, passando a mão pelos cabelos. “Eu sei. Me desculpe. Eu não sabia como mais te dizer o que eu estava sentindo.”
“E o que você estava sentindo?”, Helena pressionou, a voz ganhando um tom mais firme. “Você disse que precisava pensar. Pensar sobre o quê, Miguel? Sobre nós? Sobre Sofia? Sobre o seu passado?”
Os olhos de Miguel encontraram os dela, e Helena viu a dor refletida neles. “Sobre tudo, Helena. Sobre tudo que me trouxe até aqui. Sobre as escolhas que fiz, as que eu deixei de fazer. Sobre o medo de te perder novamente.”
“Medo de me perder?”, Helena repetiu, confusa. “Você sumiu! Você me deixou um bilhete e desapareceu! Como você acha que eu me senti?”
“Eu sei que fui covarde”, Miguel admitiu, a voz embargada. “Eu sei que te machuquei. Mas eu estava tão confuso. A aparição de Sofia… ela trouxe de volta tantas memórias, tantas questões que eu achava que estavam resolvidas. Ela me fez questionar se eu realmente tinha deixado o passado para trás, ou se ele estava apenas adormecido.”
“E ele não estava?”, Helena perguntou, a voz carregada de mágoa.
Miguel balançou a cabeça. “Eu achei que estava. Quando voltei para você, Helena, eu achei que tinha encontrado o meu lugar. Que o meu passado era apenas uma memória distante. Mas quando Sofia apareceu… ela me fez reviver tudo. A intensidade do nosso amor na época, a forma abrupta como tudo acabou… me fez questionar se eu estava realmente pronto para um novo começo, ou se eu estava apenas tentando fugir de algo que ainda me assombrava.”
O peso das palavras de Miguel caía sobre Helena como uma bigorna. Ela o amava, o amava com a profundidade de quem havia passado por um inferno e encontrado luz. Mas o fantasma de Sofia, a sombra de um passado que ela não conhecia completamente, parecia estar ali, entre eles, pairando sobre a mesa do café.
“Sofia me disse que não queria atrapalhar”, Helena disse, a voz mais baixa. “Ela disse que… que queria que você fosse feliz. E que ela via que você poderia ser feliz comigo.”
Miguel a olhou, um brilho de surpresa em seus olhos. “Você falou com ela?”
“Ela apareceu na minha casa. Em meio à tempestade”, Helena explicou. “Ela parecia genuinamente preocupada. Ela me disse que você estava inquieto quando a encontrou, e que te convidou para dar uma carona porque achou que você precisava conversar.”
Miguel fechou os olhos por um momento, como se absorvesse aquela informação. “Sim. Eu estava. Eu estava muito confuso. A conversa com Sofia, e ver você ali, na igreja… me fez desmoronar por dentro.”
“Desmoronar e fugir?”, Helena questionou, a dor voltando à tona.
“Eu não fugi, Helena”, Miguel disse, a voz firme, mas carregada de emoção. “Eu precisei de um tempo para entender o que estava acontecendo dentro de mim. Para separar o que era o meu amor por você, que é real e profundo, do que eram as cicatrizes do meu passado que voltaram à tona. Eu não queria te machucar mais. Não queria te dar falsas esperanças se eu mesmo não tivesse certeza do meu próprio coração.”
Ele estendeu a mão sobre a mesa, seus dedos pairando sobre os de Helena. “Helena, eu amo você. Amo você com toda a minha alma. O que eu tive com Sofia foi intenso, foi marcante. Mas foi outra vida. Você é o meu presente, e é para você que eu quero construir o meu futuro. A aparição de Sofia me assustou, me fez duvidar. Duvidar de mim mesmo, duvidar se eu era digno de todo esse amor que você me oferece. Mas eu percebi que o medo não pode me paralisar. E que eu não posso deixar que um fantasma do passado roube o meu futuro com você.”
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Helena, não de dor, mas de alívio e esperança. A confissão de Miguel, crua e honesta, era tudo o que ela precisava ouvir. A incerteza se dissipava, dando lugar a uma certeza avassaladora.
“Eu não quero te perder, Miguel”, Helena sussurrou, seus dedos finalmente encontrando os dele.
Miguel apertou sua mão com força. “E eu não vou te perder. Eu prometo. Eu errei em me afastar, em não te dar as respostas que você merecia. Mas eu estou aqui agora. E estou aqui para você.”
Um sorriso genuíno finalmente iluminou o rosto de Helena. Um sorriso que refletia a paz que voltava a ocupar seu peito. O café, agora morno, parecia ter um sabor mais doce. A luz do sol, antes apenas um cenário, agora parecia aquecer a alma.
“O que você vai fazer sobre Sofia?”, Helena perguntou, a curiosidade misturada com uma ponta de cautela.
Miguel a olhou, a expressão séria. “Eu vou falar com ela. Eu preciso ser honesto. Preciso dizer a ela que, embora eu guarde um carinho e um respeito pelo que vivemos, o meu coração pertence a você. E que eu quero construir um futuro com você.”
Helena assentiu, confiante na decisão dele. Ela sabia que Miguel era um homem de palavra. E mais importante, ela sabia que o amor deles era forte o suficiente para superar qualquer obstáculo, qualquer fantasma do passado.
Eles ficaram ali, de mãos dadas, absorvendo a verdade nua e crua que havia sido revelada. A tempestade havia passado, a verdade havia sido dita, e o amor, mais uma vez, parecia prevalecer.