Voltar a te Amar III
Capítulo 2 — O Eco de um Nome em Laranjeiras
por Camila Costa
Capítulo 2 — O Eco de um Nome em Laranjeiras
O ar de Laranjeiras, um dos bairros mais charmosos do Rio de Janeiro, carregava um perfume diferente. Uma mistura de flores tropicais, de terra úmida após a chuva e, para Helena, um eco persistente de memórias que ela tentava, desesperadamente, silenciar. A mansão dos seus pais, um casarão histórico com paredes de pedra e um jardim exuberante, parecia ter congelado no tempo. Cada cômodo, cada móvel, cada objeto contava uma história. E a história que mais a assombrava era a de Rafael.
Helena desceu do carro de luxo, um modelo importado que contrastava com a aura clássica da casa. O noivo de Sofia, Ricardo, a esperava na porta, um sorriso sincero iluminando seu rosto. Ele era um homem de presença sólida, com olhos gentis e um abraço caloroso que, por um breve momento, aliviou a tensão em seus ombros.
“Helena! Que bom te ver! Você está deslumbrante, como sempre”, disse Ricardo, seu tom genuinamente feliz.
“Ricardo! Eu que fico feliz em te ver. E em ver Sofia. Parabéns aos dois”, respondeu Helena, retribuindo o abraço. Ela tentava projetar uma imagem de tranquilidade, de alegria pela irmã. Mas o nó em seu estômago se apertava a cada segundo.
“Sofia está enlouquecida com os preparativos, mas radiante. Acha que você chegaria hoje. Quase não acreditamos quando soubemos que você viria para o casamento. Você sabe o quanto isso significa para ela.”
“Significa tudo para mim também. Sofia é meu mundo.” Helena sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. Ela não mentia sobre o amor pela irmã, mas a complexidade de estar ali, naquele lugar, a consumia.
Entrar na mansão foi como voltar no túnel do tempo. O hall imponente com a escadaria de mármore, os retratos antigos nas paredes, o cheiro de cera de abelha e de lavanda. Tudo era familiar e, ao mesmo tempo, estranho. Helena se sentia uma estrangeira em sua própria casa, uma turista em sua própria história.
Sofia surgiu no topo da escada, um furacão de alegria e ansiedade. Seus olhos brilhavam, suas bochechas estavam rosadas. Ela desceu correndo os degraus, abraçando Helena com uma força que tirou o ar dela.
“Helena! Minha irmã! Você veio! Eu não acredito!”, Sofia exclamou, a voz embargada de emoção.
“Claro que eu viria, sua boba. Não perderia seu casamento por nada neste mundo”, Helena respondeu, apertando a irmã contra si. Ela sentiu o cheiro doce do perfume de Sofia, um perfume que também trazia consigo fragmentos de anos passados.
“Você está tão linda! Nem parece a mesma Helena que eu conheci. Paris te fez um monumento!”, Sofia elogiou, afastando-se para admirar a irmã.
“E você está a noiva mais linda que já vi. Ricardo tem muita sorte”, Helena devolveu o elogio, forçando um sorriso.
As horas seguintes foram um turbilhão de cumprimentos, de abraços apertados, de reencontros com parentes e amigos de infância. Helena manteve uma postura impecável, uma socialite experiente que sabia como lidar com o público. Ela sorria, conversava, demonstrava interesse. Mas sua atenção estava dividida, sempre à espreita.
Ela sabia que ele estaria ali. Não havia como escapar. O nome dele pairava no ar, sutilmente, em cada menção a Ricardo, a amigos em comum. Rafael, o melhor amigo de Ricardo desde a infância, o padrinho de casamento escolhido a dedo.
“Rafael me ligou hoje cedo, perguntou se você já tinha chegado. Disse que mal pode esperar para te ver”, Sofia comentou casualmente enquanto provava um pedaço de bolo.
O coração de Helena deu um salto no peito. Ela tentou disfarçar sua reação, fingindo interesse em um detalhe da decoração. “Ah, é? Ele está bem?”
“Perfeitamente bem. Continua o mesmo Rafael de sempre. Um pouco mais sério, talvez, com a responsabilidade dos negócios da família, mas o mesmo sorriso que derrete qualquer mulher”, Sofia disse, dando uma piscadela para Ricardo.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Um sorriso que derrete qualquer mulher. Ela se lembrava bem desse sorriso. E de como ele derrubou todas as suas defesas.
Mais tarde, durante o jantar de boas-vindas que a família organizou para os convidados mais próximos, a tensão de Helena atingiu seu ápice. A conversa fluía animada, os pratos eram deliciosos, mas Helena mal conseguia comer. Seus olhos percorriam o salão discretamente, vasculhando cada rosto.
E então, ela o viu.
Ele estava do outro lado do salão, conversando com um grupo de amigos. A mesma postura elegante, o mesmo porte de homem bem-sucedido. Os cabelos escuros, agora com alguns fios grisalhos nas têmporas, estavam impecavelmente cortados. Ele usava um terno escuro que realçava sua silhueta forte. Mas o que mais a atingiu foram os olhos. Os mesmos olhos castanhos, profundos, que pareciam carregar um universo de emoções.
Rafael.
O tempo pareceu parar. O barulho do salão se tornou um sussurro distante. Helena sentiu o ar fugir de seus pulmões. Era como se a imagem dele tivesse sido tirada de uma caixa de memórias guardada a sete chaves, e de repente, ali estava ele, real, palpável, a centímetros de distância.
Ele ainda tinha aquele ar de mistério, de força contida. Mas havia algo mais. Uma sombra de melancolia em seu olhar que ela não se lembrava de ter visto antes. Seria a mesma melancolia que ela carregava em seu próprio coração?
Ele ergueu o olhar naquele exato momento, como se sentisse a intensidade do seu. Seus olhos se encontraram. Por um instante, ambos ficaram paralisados. O mundo exterior desapareceu. Era apenas um olhar, carregado de dez anos de silêncio, de saudade, de dor.
Um sorriso lento e hesitante surgiu nos lábios de Rafael. Um sorriso que, para Helena, era ao mesmo tempo um alívio e um tormento. Era o mesmo sorriso que ela amou, mas agora, trazia consigo o peso do tempo e das perdas.
Ele se afastou do grupo, começando a caminhar na direção dela. Cada passo dele parecia um martelar em seu peito. Helena sentiu suas pernas tremerem. Ela não sabia se deveria fugir, se deveria sorrir, se deveria chorar.
Sofia, percebendo a tensão de Helena, aproximou-se. “Está tudo bem, mana? Você está pálida.”
“Estou bem, Sofia. Só um pouco cansada da viagem”, Helena respondeu, sua voz um pouco trêmula.
Rafael parou a poucos metros de distância. Seus olhos não deixavam os de Helena. Um silêncio carregado pairava entre eles. A música ambiente, antes animada, parecia agora um lamento.
“Helena”, ele disse, sua voz baixa, rouca, familiar. A voz que ela sonhou ouvir em seus pesadelos e em seus devaneios.
“Rafael”, ela respondeu, quase inaudível.
O momento era carregado de uma eletricidade palpável. Todos ao redor pareciam ter percebido a tensão, o drama silencioso que se desenrolava. Ricardo se aproximou, um braço protetor em volta de Sofia.
“Rafael! Que bom que você veio! Quase não acreditamos que a Helena finalmente voltaria para o casamento da Sofia”, Ricardo disse, tentando quebrar o gelo.
Rafael deu um leve sorriso para Ricardo, mas seus olhos permaneceram fixos em Helena. “É uma alegria estar aqui. E rever a Helena… é uma surpresa e tanto.”
A palavra "surpresa" saiu de seus lábios com um tom que Helena não soube decifrar. Surpresa boa? Surpresa ruim? Ou apenas a constatação crua de um encontro inesperado?
“Eu… eu também estou feliz em te ver, Rafael”, Helena conseguiu dizer, lutando para manter a compostura.
Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. Helena sentiu o perfume dele, um aroma amadeirado e suave que a transportou instantaneamente para o passado. Para as noites de verão, para os beijos roubados, para as promessas sussurradas.
“Você não mudou nada, Helena”, ele disse, um leve sorriso voltando aos seus lábios. “Continua a mesma deusa intocável.”
As palavras dele a atingiram como um golpe. Deusa intocável. Era assim que ela se sentia agora. Uma estátua de mármore, longe do calor humano, longe da paixão que um dia a consumiu.
“E você, Rafael, parece ter conquistado o mundo”, ela respondeu, tentando soar indiferente.
Ele riu baixo, um som que vibrou em seu peito. “Apenas tentei sobreviver, Helena. Assim como você.”
O olhar dele permaneceu fixo no dela, um convite silencioso para uma conversa mais profunda, longe dos olhares curiosos. Helena sentiu um misto de medo e anseio. O passado estava ali, batendo à sua porta com a força de uma tempestade. E ela sabia que não poderia mais fugir. Era hora de encarar o eco de um nome que, por dez anos, habitou apenas em seus pensamentos. Era hora de voltar a te amar, ou de finalmente enterrar esse amor.