Voltar a te Amar III
Voltar a Te Amar III
por Camila Costa
Voltar a Te Amar III
Capítulo 21 — O Sussurro da Verdade
O sol, preguiçoso, espreguiçava-se sobre os telhados do Rio de Janeiro, pintando o céu de um laranja suave que anunciava mais um dia de calor. No apartamento luxuoso de Clara, porém, o clima era de um inverno gélido. A noite anterior havia desfeito qualquer véu de ilusão, deixando-os à mercê da crueza dos fatos. A revelação de Laura, a confissão de Ricardo, tudo pairava no ar como uma névoa densa e sufocante.
Clara, com os olhos inchados de tanto chorar, mas ainda com um brilho de determinação que a caracterizava, observava Ricardo. Ele estava sentado à beira da cama, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo em um ponto invisível no chão de madeira polida. O silêncio entre eles era um oceano de dor, onde cada onda batia com a força de um rancor antigo e uma saudade que parecia ter sido desenterrada de um passado que ela jurava ter enterrado para sempre.
"Eu… eu ainda não consigo processar, Ricardo," Clara finalmente rompeu o silêncio, a voz rouca, embargada. "Tanto tempo. Tanta mentira. E você… você sabia de tudo."
Ricardo levantou os olhos, o azul outrora vibrante agora turvo de remorso. "Clara, por favor, me deixe explicar. Não é tão simples quanto parece. A minha vida… a vida da Laura… foi um jogo de aparências que eu jamais soube como jogar."
"Um jogo de aparências?", a risada de Clara soou amarga, sem alegria. "Você chama de jogo de aparências um casamento que durou anos? Uma criança que cresceu sem conhecer o pai verdadeiro? O que você chama de jogo, Ricardo, eu chamo de traição. De um abandono silencioso e cruel."
Ele se levantou, dando um passo hesitante na direção dela. "Eu sei que as palavras não vão apagar o que aconteceu. Mas eu nunca deixei de te amar, Clara. Nem por um segundo. O meu erro foi ter sido covarde. Foi ter me deixado levar pelas circunstâncias, pelas pressões… pela necessidade de proteger a todos, sem perceber que estava destruindo a todos no processo."
"Proteger a quem, Ricardo? A Laura? A você? E a mim? Você nunca pensou em mim? Na nossa história?", a voz de Clara subiu de tom, a mágoa transbordando. Ela se levantou também, o corpo tremendo de emoção contida. "Eu passei anos acreditando que você tinha me abandonado. Que eu não era suficiente. Que o nosso amor não era forte o bastante. E você estava ali, vivendo outra vida, com outra família."
"Não foi bem assim, Clara. A vida com a Laura… foi construída sobre uma mentira, sim, mas eu tentei fazer dar certo. Tentei ser o marido que ela esperava, o pai que a Sofia precisava. Mas o meu coração… ele sempre foi seu. Eu o sentia pulsar por você em cada batida, em cada suspiro. Só que eu estava preso. Preso em uma teia de obrigações, de medos… e de uma culpa que me consumia a cada dia."
Ele se aproximou mais, estendendo a mão como se quisesse tocar o rosto dela, mas parou no ar, receoso. "Eu vi você seguir em frente. Vi você encontrar a felicidade. E eu… eu me afundei mais e mais no meu próprio purgatório. A Sofia… ela é uma criança incrível. E eu não poderia simplesmente desaparecer da vida dela. Teria sido crueldade."
Clara deu um passo para trás, o coração apertado. A dor de Ricardo era palpável, e parte dela, a Clara que ainda amava, sentia compaixão. Mas a Clara que fora ferida, a Clara que construiu sua vida sobre a ausência dele, não conseguia perdoar tão facilmente.
"E eu, Ricardo? O que eu deveria ter feito? Esperar por você para sempre? Viver a minha vida à sombra da sua ausência? Eu também tive que seguir em frente. Eu também tive que lutar. E cada passo que eu dei, foi tentando esquecer você."
"Eu sei. E eu te admiro por isso, Clara. Pela sua força. Pela sua resiliência. Eu nunca tive a sua coragem. Eu me escondi. Me encolhi. E agora… agora tudo veio à tona. E eu não sei mais o que fazer, a não ser te dizer a verdade. A verdade nua e crua, como você sempre merece. E te pedir… te pedir o que não sei se você pode me dar."
O olhar dele era um apelo desesperado. Ele a olhava com a mesma intensidade de anos atrás, a mesma paixão que ela pensava ter sido apagada pelo tempo. Mas agora, essa paixão vinha acompanhada de um peso insuportável de culpa e arrependimento.
"O que você quer, Ricardo?", Clara perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. Ela o observava, tentando decifrar a complexidade de seus sentimentos. Ele ainda a amava. Ela podia ver isso nos olhos dele, sentir isso na sua presença. Mas o que isso significava agora? O que eles fariam com essa verdade tardia?
"Eu quero… eu quero uma chance, Clara. Uma chance de te reconquistar. De te mostrar que eu mudei. Que eu aprendi com os meus erros. Que o meu amor por você é o único que importa. Eu sei que é pedir muito. Eu sei que a mágoa é profunda. Mas se houver um fio, um pequeno fio de esperança, eu quero lutar por ele. Eu quero voltar a te amar, Clara. E quero que você volte a me amar."
As palavras dele ecoaram no quarto, pesadas como pedras. Clara fechou os olhos por um instante, tentando silenciar o turbilhão de emoções que a assaltava. Amor, raiva, decepção, saudade, uma ponta de esperança… tudo se misturava em um coquetel perigoso. Ela sabia que não seria fácil. Sabia que a confiança, uma vez quebrada, era quase impossível de ser reconstruída. Mas olhar para Ricardo, ver a sinceridade em seu olhar, a vulnerabilidade que ele expunha pela primeira vez em anos, algo dentro dela se moveu. A Clara que fora traída sentia um desejo de fugir, de se proteger. Mas a Clara que sempre amou, sentia uma atração irresistível por aquele homem que a havia amado em segredo por tanto tempo.
Ela abriu os olhos, e o olhar que lançou a Ricardo foi um misto de incerteza e de uma profunda, avassaladora saudade. "Ricardo… eu não sei. Eu não tenho respostas agora. Tudo isso é… demais. Eu preciso de tempo. Eu preciso pensar. E eu preciso entender o que eu quero, de verdade."
Ele assentiu, a expressão de esperança misturada com resignação. "Eu entendo, Clara. Eu te darei todo o tempo que você precisar. Mas por favor, não descarte tudo. Não descarte nós. Eu estou aqui. Esperando."
Clara se virou, caminhando até a janela, observando a cidade despertar. O sol agora brilhava com força total, iluminando cada canto. Mas a sua vida, por dentro, ainda estava imersa na escuridão da noite passada. Ela sabia que a jornada seria longa e dolorosa. Mas pela primeira vez em muito tempo, um pequeno raio de luz, tênue e frágil, parecia ter penetrado nas nuvens. A verdade, por mais dolorosa que fosse, havia sido dita. E com ela, uma possibilidade, por menor que fosse, de um novo começo.