Voltar a te Amar III
Capítulo 24 — As Cicatrizes do Tempo
por Camila Costa
Capítulo 24 — As Cicatrizes do Tempo
O pôr do sol pintava a orla de Copacabana com tons de fogo e ouro, um espetáculo que Clara observava da varanda de seu apartamento, o coração em um compasso lento e incerto. A conversa com Daniel havia acalmado um pouco a tempestade interior, mas as dúvidas persistiam, como ondas que quebravam na praia e voltavam, incansáveis.
Ela pensava em Ricardo, em suas palavras sinceras, em seu arrependimento. Era difícil ignorar a paixão que ainda ardia em seus olhos, a intensidade do amor que ele afirmava sentir. Mas as cicatrizes do tempo eram profundas, e a confiança, tão delicada, havia sido brutalmente ferida.
De repente, o som do interfone a tirou de seus devaneios. Era Ricardo. Ele estava ali, na portaria, querendo falar com ela. Clara sentiu um aperto no estômago. Teria ela a força necessária para mais uma conversa, mais uma exposição de sentimentos?
Hesitante, ela apertou o botão. "Pode subir, Ricardo."
Poucos minutos depois, ele estava à sua frente, o semblante sério, mas com um brilho de esperança nos olhos. Ele trazia consigo um pequeno embrulho.
"Clara", ele começou, a voz embargada pela emoção. "Eu sei que você precisa de tempo. E eu vou te dar todo o tempo do mundo. Mas eu não podia ir embora sem te entregar isso."
Ele estendeu o embrulho. Clara o pegou, as mãos tremendo levemente. Era uma pequena caixa de madeira entalhada. Ao abri-la, viu um pequeno medalhão de prata, delicado e antigo. Dentro, duas fotos desbotadas: uma dela, jovem e radiante, e outra dele, com o sorriso que ela tanto amava.
"Eu guardei isso por todos esses anos", disse Ricardo, a voz embargada. "Era o meu tesouro. A lembrança de nós. Eu sempre acreditei que um dia… um dia você voltaria para mim. Ou que eu voltaria para você. E que poderíamos reabrir essa caixinha, juntos."
Clara fechou os olhos, as lágrimas escorrendo livremente. A lembrança daquele tempo, daquele amor puro e inabalável, a atingiu com força total. Ela se lembrava de ter dado aquele medalhão a ele, em um dia ensolarado, em uma praia deserta. Um símbolo do amor eterno que eles juravam compartilhar.
"Ricardo…", ela sussurrou, a voz embargada de emoção. "Eu me lembro disso."
"Eu também. Cada detalhe. Cada beijo. Cada promessa. E eu as quebrei todas, Clara. Eu fui um covarde. E a única coisa que me sustentou em todos esses anos de sofrimento foi a esperança de que um dia eu pudesse ter uma chance de te pedir perdão. E de te reconquistar."
Ele se aproximou, parando a uma distância respeitosa. "Eu não espero que você me perdoe de imediato. Eu sei que as cicatrizes são profundas. Mas eu preciso que você saiba que o meu amor por você nunca diminuiu. Ele só se transformou, se aprofundou, na dor da sua ausência."
Clara abriu a caixa novamente, o medalhão em suas mãos. Olhou para a foto dela, jovem e inocente, e para a foto dele, com o olhar cheio de amor. Era como olhar para um passado que parecia pertencer a outra vida.
"Eu também amava você, Ricardo. Mais do que tudo. E quando você desapareceu, uma parte de mim morreu também. Eu passei anos tentando reviver aquela parte, tentando me reerguer. E eu consegui. Eu construí a minha vida, a minha carreira. Eu me tornei uma mulher forte."
"Eu sempre soube disso, Clara. Eu acompanhei você de longe. E sempre me orgulhei da mulher incrível que você se tornou. E isso só me fez amar você ainda mais." Ricardo deu um passo adiante, agora mais perto. "Mas o meu erro foi ter me afastado. Ter me deixado levar pela vida que eu construí com a Laura. Uma vida que nunca me trouxe a verdadeira felicidade."
Ele olhou nos olhos dela, a intensidade de seu olhar a desarmando. "Eu sei que o que aconteceu com a Laura e a Sofia é complicado. Mas eu preciso te dizer, Clara, que o meu coração, o meu verdadeiro amor, sempre foi seu. E se houver uma chance, por menor que seja, de nós dois voltarmos a ser nós, eu quero lutar por isso. Eu quero te reconquistar. Eu quero voltar a te amar."
Clara sentiu um nó na garganta. Aquele medalhão, aquele gesto, a lembrança de tudo o que eles viveram… era forte demais. Ela sabia que não podia simplesmente ignorar o que sentia. Mas também sabia que não podia esquecer a dor.
"Ricardo, eu… eu te amo. Eu sempre te amei. Mas a dor… a dor de ter sido abandonada, de ter vivido anos acreditando que você não me amava mais… ela é muito forte."
"Eu sei. E eu nunca vou pedir para você esquecer. Mas eu te peço para considerar. Para considerar a força do nosso amor. Para considerar o quanto nós sofremos. E para considerar se vale a pena, juntos, tentar curar essas cicatrizes."
Ele a olhou com um apelo profundo. "Eu não quero te forçar a nada, Clara. Mas se você me der uma chance, eu vou provar para você que o nosso amor pode ser mais forte que o tempo. Que pode ser mais forte que os erros do passado."
Clara pegou o medalhão, sentindo o peso da prata fria em suas mãos. Ela fechou a caixa, o coração dividido entre a razão e a emoção. Olhou para Ricardo, para o homem que ela amou com toda a força de sua juventude, e para o homem que, apesar de tudo, ainda a olhava com a mesma paixão.
"Eu preciso pensar, Ricardo. Eu realmente preciso pensar."
"Eu sei. E eu te darei todo o tempo do mundo. Mas eu não vou desistir de você, Clara. Não mais."
Ele se aproximou, e pela primeira vez desde que tudo veio à tona, ele tocou o rosto dela, com a delicadeza de quem teme quebrar algo precioso. Clara não recuou. Permitiu-se sentir aquele toque, aquela lembrança, aquele fio tênue que ainda os unia.
Ricardo sorriu, um sorriso melancólico, mas cheio de esperança. "Eu te amo, Clara. Mais do que a minha própria vida."
Ele se afastou, deixando-a com o medalhão e com um turbilhão de sentimentos. As cicatrizes do tempo eram visíveis, profundas, mas talvez, apenas talvez, o amor verdadeiro pudesse curá-las. E Clara, pela primeira vez, sentiu uma ponta de esperança real de que o amor que ela pensava ter morrido, pudesse, afinal, voltar a florescer.