O Amor Verdadeiro II
Capítulo 12 — Cartas Rabiscadas no Vento e a Esperança em Frangalhos
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 12 — Cartas Rabiscadas no Vento e a Esperança em Frangalhos
Os dias se arrastavam como um lamento sem fim. Daniel tentava pintar, mas suas mãos pareciam estranhas em sua própria pele. Cada pincelada era uma batalha contra a melancolia que o envolvia. A tela que começara a esboçar no dia anterior, representando a sua angústia, agora lhe parecia um reflexo da própria insignificância. As cores escuras se misturavam de forma crua, e o resultado era uma imagem desoladora, um espelho do seu estado de espírito.
Ele olhava para o telefone com uma frequência quase obsessiva. Cada toque era uma descarga de adrenalina, uma fração de segundo de esperança antes da decepção. Sofia não ligava. Não mandava uma mensagem. Era como se a existência dela tivesse sido apagada, levada pelo mesmo vento que soprou as calúnias de Marco. Aquele homem… a imagem dele, com seu sorriso sarcástico e seus olhos de cobra, surgia nas suas piores lembranças, alimentando o medo de que ele tivesse vencido.
Daniel já havia tentado ligar para Sofia. Duas vezes. As duas vezes, o telefone caiu na caixa postal. A voz dela, gravada, era um consolo agridoce, uma lembrança de um tempo em que a comunicação fluía livremente, sem barreiras, sem dúvidas. Mas a ausência de uma resposta direta era um silêncio ensurdecedor. Era como se ela o tivesse bloqueado, não apenas no telefone, mas na sua vida.
“Por que ela não me responde? Por que não acredita em mim?”, ele se perguntava, a voz embargada, enquanto caminhava sem rumo pelas ruas de São Paulo. A cidade, que antes pulsava com a energia criativa que o inspirava, agora parecia cinzenta e opressora. Cada casal de mãos dadas, cada risada compartilhada, era uma afronta à sua solidão.
Ele se lembrou das cartas que escrevia para Sofia nos seus primeiros anos de namoro, quando a distância era uma provação. Cartas cheias de versos de amor, de declarações apaixonadas, de sonhos compartilhados. Agora, tudo o que ele tinha eram as lembranças daquelas palavras, rabiscadas no vento, levadas pela incerteza.
Daniel decidiu que precisava fazer algo. Algo mais concreto do que apenas esperar. Ele pegou um caderno e uma caneta e começou a escrever. Não uma carta formal, mas um desabafo sincero, uma torrente de sentimentos que precisavam ser expressos. Ele escreveu sobre a dor da partida, sobre a confusão que sentia, sobre a sua fé inabalável no amor deles.
“Sofia, meu amor”, ele começou, a letra tremendo. “Sei que talvez estas palavras nunca cheguem até você, ou talvez cheguem e você não queira mais ler. Mas preciso dizê-las, preciso que, de alguma forma, você as sinta. Quando você foi embora, levou um pedaço de mim. Levou as cores do meu mundo, o som da minha inspiração. Fiquei aqui, neste atelier, rodeado de telas em branco, que agora parecem gritar o seu nome. Você é a minha musa, Sofia, a faísca que acende a minha alma. E agora, essa faísca se apagou, deixando apenas as cinzas da dúvida e da saudade.”
Ele continuou, descrevendo a sua angústia, a sua frustração com as mentiras de Marco. “Você sabe quem Marco é. Sabe que ele sempre foi uma sombra, um parasita. Por que, meu amor, você deu ouvidos a ele? Por que deixou que as palavras dele abalassem a nossa verdade? Eu confiei em você, Sofia. Confiei na força do nosso amor. E agora, essa confiança está sendo testada de uma forma cruel. Diga-me que eu estou errado. Diga-me que você ainda acredita em nós.”
As palavras fluíam, carregadas de uma emoção crua e desesperada. Daniel escrevia sobre a promessa que fez, sobre o seu compromisso de voltar para ela, de reconstruir o que foi quebrado. “Eu jurei que voltaria, Sofia. E eu voltarei. Porque o nosso amor é mais forte do que qualquer mentira, mais resistente do que qualquer obstáculo. Mas preciso que você me espere. Preciso que você me dê uma chance de provar a minha inocência, de te mostrar que o que tivemos foi real, foi único. Por favor, Sofia, não me deixe ser um fantasma na sua vida, assim como Marco tentou ser uma sombra na nossa.”
Quando terminou, sentiu um alívio tênue, como se tivesse jogado parte do seu fardo no papel. Olhou para as páginas rabiscadas, um testamento da sua dor e do seu amor. Mas o que fazer com elas? Enviar por correio? Talvez ela não recebesse. Deixar com Dona Aurora? Ela poderia entregar, mas se Sofia não quisesse ver, seria uma invasão.
Daniel teve uma ideia, uma ideia arriscada, mas que lhe pareceu a única forma de tentar. Ele sabia que Sofia ainda tinha um amigo em comum com ele, um colega de faculdade chamado Pedro, que morava na mesma cidade onde ela estava. Pedro sempre foi um homem íntegro, um amigo leal. Se alguém pudesse entregar as cartas e, quem sabe, amenizar a situação, seria ele.
Ele pegou o telefone e discou o número de Pedro. A ligação foi atendida no segundo toque.
“Alô?”, disse uma voz masculina, um pouco sonolenta.
“Pedro? Sou eu, Daniel.”
“Daniel! Que surpresa! Como você está?”
“Eu não estou bem, Pedro. Preciso da sua ajuda. De uma ajuda muito importante.”
Daniel explicou a situação, a partida de Sofia, a sua angústia, a necessidade de fazer com que ela lesse suas palavras. Pedro ouviu atentamente, sem interromper.
“Entendo, Daniel. É uma situação delicada. Mas eu farei o que puder para ajudar. Me diga onde posso encontrar você, ou se prefere, me diga como posso te enviar essas cartas.”
“Eu… eu vou até aí, Pedro. Se você me der o endereço, eu pego um ônibus ainda hoje. Preciso te entregar pessoalmente.”
Pedro concordou, e logo Daniel tinha o endereço anotado. Ele se sentiu um pouco mais esperançoso, mas a esperança era frágil, como um pássaro ferido. Ele empacotou suas cartas, junto com um pequeno desenho de Sofia, feito de memória, um esboço rápido que capturava a doçura do seu olhar. Ele sabia que era um risco, que a história ainda poderia ter um final triste, mas a alternativa era o silêncio, a desistência. E Daniel, o artista apaixonado, não era homem de desistir facilmente do que amava.
Ao sair do prédio, o vento soprou forte, espalhando algumas folhas soltas do caderno de rascunhos. Daniel observou os papéis voarem, como se fossem as suas próprias palavras, as suas esperanças, sendo levadas para longe. Por um instante, sentiu um aperto no peito, a certeza de que tudo estava perdido. Mas então, lembrou-se do desenho de Sofia em suas mãos. Um detalhe pequeno, mas que continha a essência dela. E com esse detalhe, ele seguiu em frente, com as cartas rabiscadas no vento e a esperança em frangalhos, mas ainda assim, uma esperança que se recusava a morrer.