O Amor Verdadeiro II
Capítulo 4 — A Verdade Crua e o Labirinto de Mentiras
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 4 — A Verdade Crua e o Labirinto de Mentiras
O apartamento de Victor era um reflexo sombrio de sua própria escuridão. Poeira cobria os móveis, pilhas de papéis espalhadas denunciavam uma vida desorganizada e a atmosfera era densa, carregada de uma tensão palpável. Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não apenas pelo ambiente, mas pela presença imponente de Victor e pela certeza de que aquele encontro seria um divisor de águas em sua vida. Daniel mantinha uma postura vigilante, seus olhos varrendo o local, pronto para intervir a qualquer momento.
"Sente-se, Helena", Victor disse, com a voz ainda grave, mas agora com um tom de urgência. Ele se serviu de um copo de uísque, que bebeu em um só gole. Helena recusou a oferta de uma bebida, a mente focada em ouvir o que ele tinha a dizer.
"Por onde eu começo?", Victor murmurou, passando a mão pelos cabelos escuros. Ele parecia atormentado, um homem carregando o peso de segredos obscuros. "Miguel... ele se meteu em problemas muito sérios, Helena. Problemas maiores do que ele imaginava."
Helena sentiu seu estômago revirar. "Que tipo de problemas?"
"Negócios. Ele investiu pesado em um projeto imobiliário arriscado, um empreendimento que prometia lucros altíssimos, mas que envolvia gente perigosa. Gente que não perdoa dívidas. Ele acreditava que estava no controle, mas estava sendo enganado desde o início."
A mentira. Helena sentiu um nó na garganta. Miguel, tão confiante, tão seguro de si. "E a música? Por que você tocou a música de Miguel?"
Victor desviou o olhar. "Era... um teste. Eu precisava ter certeza de que era você. E que você estava pronta para ouvir a verdade. Miguel me pediu para te contatar se algo acontecesse com ele. Ele sabia que eu poderia ser a única pessoa a te ajudar."
"Miguel sabia que algo ia acontecer? Ele sabia que estava em perigo?" A voz de Helena estava embargada.
"Ele suspeitava. Mas ele era orgulhoso demais para admitir. Ele acreditava que podia resolver tudo sozinho. E quando percebeu que não podia mais, já era tarde demais." Victor fez uma pausa, respirando fundo. "Helena, Miguel não desapareceu. Ele foi... forçado a se esconder."
As palavras de Victor a atingiram como um raio. Forçado a se esconder. Não morto. Não fugitivo. A esperança, pequena e frágil, começou a brotar em seu peito.
"Onde ele está, Victor? Diga-me onde ele está!"
"Eu não posso te dizer. Ainda não. É muito perigoso. As pessoas que o estão perseguindo são implacáveis. Se souberem que ele está em contato com você, elas virão atrás de você também."
"Mas você disse que ele confiou em você! Que ele queria que você me contatasse!" Helena sentiu a frustração crescer.
"Eu sei. E eu vou te ajudar a encontrá-lo. Mas precisamos ser inteligentes. Precisamos planejar. Os credores de Miguel... eles o estavam pressionando de forma cruel. Ele foi forçado a fugir para proteger a si mesmo e para evitar que eles te machucassem."
"Machucar a mim? Por quê? Eu não tinha nada a ver com os negócios dele."
"Eles queriam uma garantia. E você era a garantia de Miguel. Ele não podia arriscar que algo acontecesse com você."
Helena sentiu uma onda de emoção. Miguel a amava tanto a ponto de se sacrificar por ela. A dor de sua ausência se misturava com um amor renovado e uma raiva profunda por aqueles que o haviam levado para longe.
"Quem são essas pessoas, Victor? Eu preciso saber!"
"São homens de negócios sombrios, com conexões em lugares que você não imagina. Miguel se recusou a entregar o projeto para eles, e eles não aceitaram um não como resposta. Ele tentou negociar, mas eles eram intransigentes."
Victor contou a Helena sobre as ameaças, sobre as perseguições, sobre a fuga desesperada de Miguel. Ele explicou como Miguel, com a ajuda dele, havia conseguido sumir do mapa, mantendo contato mínimo para não levantar suspeitas.
"Ele vive sob identidades falsas, mudando de lugar constantemente. Ele não pode se comunicar com você diretamente, pois seria rastreado. Eu sou o único elo entre vocês dois."
Helena sentiu a cabeça girar. Tudo era tão chocante, tão avassalador. A verdade, por mais dolorosa que fosse, era preferível à incerteza que a consumia há cinco anos.
"E você? Por que você estava me observando? Por que o chapéu?"
"Eu estava te protegendo, Helena. Desde que Miguel sumiu, eu tenho mantido um olho em você. Para ter certeza de que você estava segura. E o chapéu era para não ser reconhecido, caso alguém estivesse me vigiando."
"Alguém te vigiando? Por que?"
"Porque eu também estou em perigo, Helena. Eu sabia demais. E ajudei Miguel a fugir. Agora, eles querem nos pegar. Por isso eu preciso que você confie em mim."
Helena olhou para Victor, tentando discernir a verdade em seus olhos. A dor em seu rosto parecia genuína. E a história, por mais absurda que fosse, se encaixava com o comportamento evasivo de Miguel nos últimos tempos.
"O que você quer de mim, Victor?"
"Eu preciso da sua ajuda. Precisamos encontrar uma maneira de trazer Miguel de volta em segurança. Ele está cansado, isolado. Ele precisa de você."
Helena sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo. Encontrar Miguel. Trazê-lo de volta. A ideia era ao mesmo tempo aterrorizante e maravilhosa.
"Como? O que eu posso fazer?"
"Precisamos de um plano. Um plano bem elaborado. E para isso, eu preciso que você retome a sua vida. Que volte a ser a artista forte e inspiradora que Miguel amava. A sua arte pode ser a nossa arma secreta."
"Minha arte? Como?"
"Miguel sempre disse que a sua arte tinha o poder de revelar a verdade. Que você conseguia capturar a essência das coisas. Eu acredito que, se você começar a pintar novamente, com foco em Miguel, em quem ele é, em quem ele foi... você pode nos dar pistas. Você pode, de alguma forma, nos guiar até ele."
A proposta era ousada, quase impossível. Mas Helena sentiu algo despertar dentro dela. A artista adormecida, a mulher forte que Miguel conhecera.
"Eu não sei se consigo, Victor. Cinco anos... a inspiração se foi."
"Eu sei que você consegue, Helena. Miguel sempre acreditou em você mais do que ninguém. E eu também. A paixão que você sentia por ele, o amor que vocês compartilhavam... isso vai te guiar. Eu vou te ajudar. Eu serei seu protetor e seu guia."
Helena olhou para Daniel, que assentiu com a cabeça, transmitindo confiança. A verdade crua e dolorosa havia sido revelada. Agora, ela tinha um objetivo. Encontrar Miguel. E para isso, ela teria que mergulhar novamente no labirinto de mentiras e perigos, com Victor e Daniel ao seu lado. A jornada seria árdua, mas o amor verdadeiro, ela sabia, valia cada sacrifício.