Voltar a te Amar II
Capítulo 12 — O Jantar de Gala e os Olhos que Falam
por Isabela Santos
Capítulo 12 — O Jantar de Gala e os Olhos que Falam
A noite em São Paulo desdobrava-se como um manto de seda escura, pontilhada por milhares de luzes que competiam com as estrelas. A cidade pulsava com uma energia cosmopolita, e no epicentro do luxo e da ostentação, o Le Jardin Privé era um oásis de exclusividade. Clara, envolta em um vestido de seda azul-marinho que realçava a sua beleza natural, sentia o estômago revirar de ansiedade. Aquele lugar, palco de tantos encontros e desencontros, era agora o seu destino.
Sofia a havia ajudado a conseguir um convite, alegando que Clara era uma importante cliente de sua galeria de arte que estava de visita à cidade. Uma mentira bem elaborada, mas que permitia a Clara adentrar aquele universo de segredos e aparências. Ao cruzar as portas pesadas do clube, ela foi envolvida por uma atmosfera de sofisticação discreta. Murmúrios de conversas, o tilintar de taças de cristal e a melodia suave de um quarteto de cordas criavam um cenário quase irreal.
Ela observou os rostos ao redor. Mulheres impecavelmente vestidas, homens de ternos caros, todos envolvidos em conversas polidas e sorrisos calculados. E então, ela o viu. Leonardo.
Ele estava em uma mesa mais afastada, conversando animadamente com Mariana, que irradiava um brilho de felicidade artificial. Leonardo usava um terno escuro, o cabelo impecavelmente penteado. Ele parecia um príncipe saído de um conto de fadas, um príncipe que, para o desespero de Clara, estava a ponto de se casar com outra.
Por um instante, o tempo pareceu parar. Clara sentiu um nó na garganta, a familiar dor apertando seu peito. Ela viu Mariana tocar o braço de Leonardo com uma familiaridade que a fez sentir uma pontada de inveja. Mas então, algo aconteceu. Leonardo olhou na direção de Clara. Seus olhos verdes, que ela conhecia tão bem, encontraram os dela através da multidão.
Um lampejo de surpresa, seguido por uma sombra de algo indescritível, cruzou seu rosto. Ele desviou o olhar rapidamente, voltando a atenção para Mariana, mas Clara sentiu que aquele breve contato visual havia dito muito mais do que qualquer palavra. Havia um reconhecimento ali, uma faísca de algo que o tempo e a distância não haviam conseguido apagar.
Clara decidiu que não se esconderia. Ela se dirigiu com elegância ao bar, pedindo um vinho tinto. Enquanto esperava, sentia os olhares curiosos sobre ela. A novata no ambiente, com uma beleza que chamava a atenção.
Mariana, percebendo o burburinho, virou-se na direção de Clara. Seus olhos arregalaram-se de surpresa, e um sorriso forçado curvou seus lábios. Ela sussurrou algo no ouvido de Leonardo, que, com uma expressão tensa, também olhou na direção de Clara.
O quarteto de cordas começou a tocar uma melodia romântica, e Clara sentiu uma ironia cruel. Era o tipo de música que embalava os momentos dela e de Leonardo no Rio.
Aproximou-se de Clara uma mulher elegante, de cabelos prateados e um colar de pérolas que emanava riqueza. Era Dona Cecília, a anfitriã da noite, uma figura influente nos círculos sociais paulistanos.
"Boa noite, senhorita", disse Dona Cecília com um sorriso polido. "Não a reconheço. É nova na cidade?"
"Boa noite, senhora. Sou Clara Mendes. Estou visitando São Paulo a negócios", respondeu Clara, mantendo a compostura.
"Clara Mendes… O nome me soa familiar", disse Dona Cecília, franzindo a testa. "Você não seria… aquela pianista? A que se apresentou no Copacabana Palace há alguns anos?"
O coração de Clara gelou. Sua carreira como pianista havia sido uma parte importante de sua vida, uma paixão que ela quase deixara para trás.
"Sim, eu sou", respondeu Clara, surpresa pela memória de Dona Cecília.
"Que honra! Eu admirei imensamente sua performance", disse Dona Cecília, genuinamente impressionada. "E agora a encontro aqui, em meu clube. Que maravilha!"
Nesse momento, Leonardo e Mariana se aproximaram, o convite tácito de Dona Cecília. Clara sentiu um frio na espinha, mas manteve a postura.
"Leonardo, minha querida Mariana", disse Dona Cecília, abraçando Mariana calorosamente e dando um aceno para Leonardo. "Vocês precisam conhecer Clara Mendes. Uma artista de renome e uma cliente muito especial da Sofia."
Leonardo estendeu a mão para Clara, seus olhos verdes fixos nos dela. "Clara. Que surpresa incrível te encontrar aqui." Sua voz era calma, mas Clara podia sentir a tensão sob a superfície.
"Leonardo", respondeu Clara, apertando sua mão. A sensação da pele dele contra a sua era eletrizante, um lembrete físico de tudo o que eles haviam compartilhado. "O mundo é realmente pequeno."
Mariana, percebendo a tensão entre eles, forçou um sorriso. "Clara, que prazer te conhecer. Leonardo fala muito de você… de vocês do Rio." As palavras saíram com uma doçura exagerada que Clara não conseguiu ignorar.
"É mesmo?", perguntou Clara, um leve tom de sarcasmo em sua voz. "E o que ele fala, Mariana?"
Leonardo interveio rapidamente, tentando amenizar o clima. "Clara, eu não sabia que você viria para São Paulo. Sofia não me disse nada."
"Sofia é uma pessoa discreta, Leonardo", respondeu Clara, mantendo o olhar fixo nele. "Assim como eu costumava ser."
O silêncio pairou sobre eles, pesado e carregado de sentimentos não ditos. Dona Cecília, percebendo a atmosfera desconfortável, tentou mudar de assunto.
"Leonardo, querida Mariana, vocês viram o novo vinho que recebemos? Um Bordeaux de safra excepcional. Gostaria de provar?"
Leonardo concordou com um aceno, aliviado pela interrupção. Mariana, com um olhar fulminante para Clara, aceitou o convite. Clara observou-os se afastarem, sentindo uma mistura de alívio e frustração. Ela havia enfrentado Leonardo, e ele parecia genuinamente surpreso, talvez até abalado.
Ela se afastou para um canto mais reservado, pedindo um outro vinho. Ouviu conversas ao redor, fofocas e intrigas que compunham o tecido daquele ambiente. Foi então que ouviu uma conversa que chamou sua atenção. Duas mulheres, sentadas em uma mesa próxima, falavam em voz baixa, mas com tom de confidência.
"Ouvi dizer que a Mariana anda pressionando o Leonardo para casar logo", disse uma delas, com um sorriso malicioso. "Ela quer garantir o investimento, sabe como é. Essa família dele não brinca em serviço."
"Ah, sim. E a fortuna da família dela também ajuda", acrescentou a outra. "Mas dizem que o Leonardo ainda não superou a ex. Aquela pianista, sabe? A que sumiu do Rio de repente."
O coração de Clara disparou. Eles sabiam? Ou apenas especulavam?
"Pois é. Ouvi dizer que ele a viu recentemente, em um evento. Ficou pálido como cera", disse a primeira mulher, rindo. "Acho que essa história de casamento não está tão certa assim. Sempre há um fantasma do passado para assombrar os noivos apressados."
Clara sentiu um arrepio. Fantasma do passado. Era assim que ela era vista? Aquele breve contato visual com Leonardo, a surpresa em seus olhos, o questionamento que ela lançou a Mariana… tudo isso parecia alimentar as especulações.
Ela olhou novamente na direção de Leonardo, que agora ria de algo que Mariana dizia. A risada dele soou um pouco forçada para Clara. Ele parecia feliz? Ou estava apenas interpretando o papel que lhe era destinado?
De repente, Leonardo se virou. Seus olhos encontraram os dela novamente. Desta vez, o olhar foi mais prolongado. Ele não desviava o olhar. Havia algo nele, uma mistura de dor, saudade e um desejo contido. Era como se seus olhos estivessem gritando o que sua boca não ousava dizer.
Ele sussurrou algo para Mariana, e antes que Clara pudesse reagir, ele se levantou e começou a caminhar em sua direção. O coração de Clara disparou. O que ele faria?
Ao se aproximar, ele parou a poucos passos dela. O burburinho ao redor pareceu diminuir. Mariana o observava de sua mesa, a expressão de surpresa e desconfiança evidente.
"Clara", disse Leonardo, sua voz baixa e rouca, carregada de emoção. "Precisamos conversar. Agora."
A atmosfera ao redor deles parecia se condensar, os olhares curiosos se intensificando. Clara sentiu o peso da situação, a possibilidade de uma cena pública, mas a necessidade de entender o que estava acontecendo era mais forte.
"Eu não sei se este é o lugar certo, Leonardo", respondeu Clara, a voz trêmula.
"É o único lugar que temos", disse ele, seus olhos verdes implorando. "Por favor."
Naquele momento, Clara soube que não poderia fugir. O passado havia chegado para cobrá-la, e o futuro estava suspenso em um fio tênue. A conversa que se seguiria poderia mudar tudo.