Voltar a te Amar II
Capítulo 17 — O Jogo Perigoso de Mariana
por Isabela Santos
Capítulo 17 — O Jogo Perigoso de Mariana
O bilhete de Mariana, com suas palavras afiadas como navalhas, havia lançado uma nuvem sombria sobre o paraíso que Sofia e Rafael começavam a desfrutar. A alegria que emanava de Ipanema, o calor do abraço de Rafael, a promessa de um futuro compartilhado – tudo isso agora parecia frágil, sob a ameaça constante daquele fantasma do passado. Sofia sentia o corpo tenso, cada som repentino a fazendo saltar, cada olhar desconhecido na rua a fazendo desviar o olhar. A paranoia, antes um visitante ocasional, agora parecia querer se instalar de vez em sua alma.
Rafael, alheio à verdadeira origem do mal-estar de Sofia, tentava de todas as formas confortá-la. Ele a abraçava mais forte, beijava suas mãos com mais fervor, sussurrava palavras de amor e segurança em seu ouvido. Ele notava a mudança em seu comportamento, a maneira como ela se retraía, como seus olhos, antes tão cheios de vida, agora carregavam uma inquietação que ele não conseguia decifrar.
"Sofia, meu amor, você tem certeza que não é nada? Sinto que algo a perturba. Se for algo sobre o nosso passado, sobre a Mariana, saiba que estamos juntos nisso. Ela não pode mais nos machucar", disse Rafael, enquanto caminhavam pela orla de Copacabana, o sol se pondo em um espetáculo de cores que deveria ser reconfortante, mas que para Sofia parecia apenas acentuar a escuridão que a envolvia.
Sofia hesitou. Contar a Rafael a verdade sobre a mensagem poderia assustá-lo, fazê-lo reagir impulsivamente. Ela sabia do temperamento dele, da sua necessidade de protegê-la a todo custo. E ela também sabia que Mariana adorava jogar com os medos alheios. Talvez a melhor arma fosse o silêncio, a observação.
"Não é nada, Rafael. Só estou um pouco cansada. Essa correria toda no Rio, a mudança... Sinto falta da tranquilidade de São Paulo, às vezes", ela mentiu, sentindo o gosto amargo da falsidade em sua boca. Era difícil esconder algo tão perturbador de Rafael, o homem que a conhecia como ninguém. Mas, por enquanto, era o único caminho que ela via.
Enquanto isso, em um luxuoso hotel na Barra da Tijuca, Mariana desfrutava de uma taça de champanhe, um sorriso cruel brincando em seus lábios. Ela observava, através de um aplicativo de rastreamento instalado no celular de Sofia durante a festa em São Paulo, os passos do casal. Cada foto que Sofia postava, cada check-in, era uma informação valiosa para seus planos. Ela sabia que a mensagem havia atingido Sofia em cheio. Via a ansiedade refletida nas redes sociais, a mudança sutil em suas legendas, a forma como ela parecia mais reclusa.
"Pobre Sofia", ela murmurou para si mesma, com um tom de escárnio. "Acha que pode fugir de mim? Que pode simplesmente esquecer tudo o que aconteceu e ser feliz com o Rafael? Tolice."
Mariana não estava no Rio por acaso. Ela sabia que precisava de um golpe certeiro, algo que abalasse a fundação daquele amor recém-reconstruído. Ela não queria apenas separar Sofia e Rafael; ela queria vê-los sofrer, sentir a mesma dor e o mesmo desespero que ela sentira quando Rafael a trocou por Sofia, quando sua vida perfeita desmoronou.
Decidida a acelerar seus planos, Mariana enviou outra mensagem para Sofia. Desta vez, mais pessoal, mais direta.
"Amei a foto de vocês na praia. Ele parece tão feliz. Mas você sabe, Sofia, a felicidade às vezes é um véu fino, que se rasga facilmente. Especialmente quando se tem um segredo para esconder. Um segredo que pode abalar o mundo de Rafael. Pense nisso."
Sofia leu a mensagem com as mãos trêmulas. Que segredo? Que segredo Mariana poderia ter sobre ela que pudesse abalar Rafael? Sua mente vasculhou o passado, buscando algo que pudesse ser usado contra ela. Havia a questão do antigo vício em remédios, mas ela estava curada há anos, e Rafael sabia de tudo. Havia o erro cometido no passado, a dívida que ela havia herdado do pai e que já estava quase quitada. O que mais?
O medo se transformou em fúria. Mariana não se contentava em atormentá-la; ela queria destruir a imagem que Rafael tinha dela, criar desconfiança, plantar sementes de dúvida onde antes só havia amor e admiração. Sofia sentiu uma onda de raiva subir por seu corpo. Ela não seria mais a vítima.
Naquela noite, em vez de ir ao cinema com Rafael, Sofia decidiu agir. Ela inventou uma desculpa sobre precisar resolver um assunto urgente relacionado à sua empresa em São Paulo e pediu para Rafael ir sozinho. Ele relutou, preocupado, mas Sofia insistiu com uma firmeza que ele não podia ignorar.
Assim que Rafael saiu, Sofia pegou seu carro e dirigiu até um endereço que Mariana havia enviado em uma mensagem anterior, com um convite velado para um encontro. Era um bar sofisticado na Zona Oeste, conhecido por sua clientela discreta e por abrigar os segredos mais bem guardados da cidade.
Ao entrar no bar, Sofia sentiu os olhares sobre si. Ela sabia que Mariana havia orquestrado tudo para que ela se sentisse exposta, vulnerável. E, para sua surpresa, ela encontrou Mariana sentada em uma mesa no fundo, iluminada por uma luz fraca, um sorriso enigmático no rosto.
"Sofia, querida! Que bom que você veio. Pensei que tivesse medo de aparecer", disse Mariana, gesticulando para a cadeira à sua frente.
Sofia sentou-se, o coração batendo forte. "O que você quer, Mariana?"
"Eu? Nada demais. Só quero conversar, como duas mulheres que já passaram por muita coisa. E que, de certa forma, compartilham algo em comum: o amor por um homem que, infelizmente, não pode nos dar tudo o que desejamos", Mariana respondeu, com uma voz doce e venenosa.
"Rafael não é um troféu, Mariana. E ele nunca me usou como você pensa."
"Ah, mas eu vejo tanta insegurança em você, Sofia. Tanta necessidade de provar seu valor. É por isso que eu sei que você tem um segredo. Um segredo que, se viesse à tona, faria o Rafael questionar tudo. Você não se lembra? Daquela noite, após a festa da sua empresa? Aquele pequeno deslize... a cocaína. Você se acha curada, mas eu sei que a tentação ainda reside em você. E Rafael, com a pureza que ele tem, jamais perdoaria tal fraqueza."
As palavras de Mariana atingiram Sofia como um soco no estômago. Ela ficou pálida, sem conseguir falar. Era verdade. Havia um período sombrio em sua vida, uma recaída que ela havia lutado tanto para superar, um momento de fraqueza que ela jurou nunca mais repetir. Rafael sabia do seu passado, mas não tinha ideia de que ela havia recaído naquele período. Era um segredo que ela guardava a sete chaves, um medo constante de que voltasse a aparecer.
Mariana sorriu, vendo o desespero nos olhos de Sofia. "É o suficiente para abalar o seu mundo, não é? E o dele. Pense bem, Sofia. Um pequeno deslize pode destruir tudo. A menos que você esteja disposta a fazer um acordo comigo."
Sofia encarou Mariana, a fúria substituindo o medo. Ela não permitiria que aquela mulher destruísse sua felicidade novamente. Ela não seria manipulada. O jogo perigoso de Mariana havia começado, mas Sofia estava determinada a jogar para vencer, mesmo que isso significasse desenterrar seus próprios demônios. A noite estava apenas começando, e as sombras no paraíso tropical prometiam se aprofundar.