Voltar a te Amar II
Capítulo 18 — A Verdade Nua e Crua
por Isabela Santos
Capítulo 18 — A Verdade Nua e Crua
O silêncio no bar luxuoso era espesso, carregado de tensão e das palavras venenosas de Mariana. Sofia sentia o corpo formigar, não apenas pelo choque da revelação, mas pela indignação. A frieza com que Mariana expunha suas fraquezas mais profundas era aterrorizante. Era o retrato da crueldade, a arte de usar as vulnerabilidades alheias como armas.
"Você não tem o direito de falar sobre a minha vida, Mariana. Não tem o direito de me julgar", Sofia disse, sua voz tremendo, mas firme. Ela respirou fundo, tentando controlar a avalanche de emoções que ameaçava transbordar. Aquele deslize, aquele momento de fraqueza, foi um capítulo doloroso de sua vida, um período de autodestruição que ela havia superado com imenso esforço e o apoio de profissionais. Rafael sabia do seu passado, da luta contra a dependência, mas ela havia omitido a recaída, com medo de decepcioná-lo, de vê-lo perder a admiração que ele demonstrava por sua força. Agora, essa omissão se transformava em uma arma nas mãos de Mariana.
Mariana apenas deu um gole em seu vinho, seus olhos fixos em Sofia, como um predador que observa sua presa. "Não estou te julgando, querida. Estou apenas sendo prática. E você sabe que eu estou certa. Um homem como Rafael, tão… puro, não suportaria saber que a mulher que ele ama teve um momento de recaída. Ele te vê como um anjo, mas anjos não caem, não é mesmo?"
"Eu sou humana, Mariana. Cometi erros. Lutei contra meus demônios e venci. E Rafael me ama por quem eu sou, com todas as minhas imperfeições. Ele me aceitou quando eu era nada, e jamais me abandonaria por causa de um erro do passado." Sofia sentia a urgência em defender Rafael, em defender o amor deles.
"Ah, você realmente acredita nisso?", Mariana riu, um som seco e sem alegria. "O amor é um sentimento volátil, Sofia. Especialmente quando se é confrontado com a verdade. E a verdade, meu bem, é que você não é tão forte quanto pensa. Sua dependência é uma fraqueza que te acompanhará para sempre. E eu posso provar isso. Tenho contatos. Posso fazer com que Rafael saiba de tudo. Posso até mesmo fazer com que ele receba uma amostra… digamos, uma pequena dose de um novo medicamento que anda circulando por aí. Algo que te faria ter uma recaída em questão de horas. E aí, ele veria com os próprios olhos a sua verdadeira natureza."
O sangue de Sofia gelou. Aquilo era cruel, desumano. Mariana não estava apenas ameaçando expor seu segredo, mas também arquitetando um plano para provocá-la a ter uma recaída, para destruí-la de dentro para fora. O medo a paralisou por um instante, a imagem de Rafael decepcionado a assombrando.
"Você é doente, Mariana", Sofia sussurrou, a voz embargada.
"Doente? Eu sou apenas realista. O mundo não é feito de contos de fadas, Sofia. E você, com sua ingenuidade, acha que pode escapar impune. Mas eu estou aqui para te acordar. Para te mostrar que você nunca estará segura enquanto eu respirar." Mariana inclinou-se para frente, sua voz baixa e ameaçadora. "Agora, vamos ao que interessa. Você quer que eu guarde silêncio, certo? Quer proteger o seu conto de fadas com o Rafael. E eu quero algo em troca."
Sofia esperou, o coração martelando contra as costelas. O que Mariana poderia querer? Dinheiro? Poder? Ela já tinha tudo isso.
"Eu quero que você se afaste dele", Mariana disse, com um sorriso triunfante. "Para sempre. Quero que você volte para São Paulo, que termine tudo com ele. Se você fizer isso, eu prometo que o segredo ficará enterrado. E vocês dois poderão seguir suas vidas, cada um em seu caminho. Mas se você ousar ignorar meu pedido… bem, eu não serei mais tão gentil."
Sofia olhou para Mariana, a raiva se misturando ao desespero. Afastar-se de Rafael? Destruir o amor que eles haviam reconstruído com tanto esforço? Era impensável.
"Eu não vou fazer isso, Mariana. Eu amo o Rafael, e ele me ama. Você não pode nos separar."
"Ah, mas eu posso. E vou", Mariana retrucou, levantando-se da mesa. "Você tem 48 horas para pensar na minha proposta. Se eu não receber sua resposta, você sabe o que acontecerá. E, por favor, não tente me trair. Eu tenho olhos e ouvidos em todos os lugares. Tenho certeza que Rafael ficaria muito desapontado ao saber que a mulher que ele ama o enganou com um segredo tão… sujo."
Com um último sorriso cruel, Mariana deixou o bar, deixando Sofia sozinha com seus medos e a terrível verdade sobre o seu passado.
Sofia dirigiu de volta para Ipanema em estado de choque. As luzes da cidade pareciam zombar dela, os prédios altos e imponentes pareciam julgar sua fragilidade. Ela sentia o peso do segredo como uma âncora em seu peito. Contar a Rafael era a única saída honesta, mas o medo da sua reação a paralisava. Ela sabia que ele a amava, mas o fantasma da dependência era um estigma difícil de apagar.
Ao chegar ao apartamento, encontrou Rafael na sala, lendo um livro. Ele se levantou imediatamente ao vê-la, um sorriso de alívio em seu rosto.
"Sofia! Que bom que você voltou. Fiquei preocupado. E aí, tudo resolvido?"
Sofia olhou para ele, o amor em seus olhos era tão puro, tão genuíno, que a fez sentir um nó na garganta. Como ela poderia quebrar aquele olhar? Como ela poderia introduzir a sombra da sua fraqueza em meio a tanta luz?
"Rafael… eu preciso te contar uma coisa", ela começou, a voz falhando.
Rafael percebeu a seriedade em seu tom. Ele a puxou para perto, a abraçando com força. "O que foi, meu amor? Pode me dizer qualquer coisa."
Sofia hesitou, as palavras de Mariana ecoando em sua mente. "É sobre o meu passado. Algo que eu não te contei completamente." Ela buscou forças em seu olhar, no amor que sentia por ele. "Houve um tempo, depois que tudo aconteceu com a gente lá atrás, que eu… eu tive uma recaída. Com os remédios." A confissão saiu em um sussurro, dolorosa e libertadora ao mesmo tempo.
Rafael a segurou com mais força, mas seu rosto não demonstrava decepção. Pelo contrário, ele parecia preocupado. "Sofia… por quê você não me contou?"
"Eu tinha vergonha. Medo de te decepcionar. De ver nos seus olhos a mesma decepção que eu sentia por mim mesma. Eu estava tão focada em provar que estava curada, que estava forte, que não queria te mostrar essa minha vulnerabilidade."
Rafael a afastou suavemente, olhando-a nos olhos. "Amor, eu não me importo com o seu passado. Eu me importo com você, com a mulher incrível que você é hoje. E eu te admiro muito por ter lutado e vencido. Se você tivesse me contado, eu teria te apoiado da mesma forma. Você não precisa ter vergonha de mim. Eu te amo, Sofia. Amo você, inteira. Com suas lutas, suas vitórias, suas cicatrizes."
As palavras de Rafael foram como um bálsamo para a alma de Sofia. A sinceridade em seus olhos a inundou de alívio. Ela se agarrou a ele, chorando, mas agora eram lágrimas de gratidão, não de medo.
"Eu te amo tanto, Rafael. Eu não sabia como te contar. Porque… porque a Mariana sabe. E ela está me chantageando."
Rafael a apertou mais forte. "Mariana? Ela está aqui? O que ela quer?"
Sofia contou tudo a Rafael: o encontro no bar, as ameaças, o plano cruel de Mariana para provocar sua recaída. Ao ouvir a história, o rosto de Rafael endureceu. A preocupação se transformou em uma fúria controlada.
"Ela não vai conseguir, Sofia. Ela não vai destruir o que temos. Eu não vou deixar." Rafael beijou a testa dela com carinho. "Obrigado por ter me contado a verdade. Isso significa tudo para mim. Agora, somos nós dois contra ela. E nós vamos vencer."
Naquela noite, deitados juntos, sentindo a segurança um do outro, Sofia soube que havia tomado a decisão certa. A verdade nua e crua, embora dolorosa, havia fortalecido o laço entre ela e Rafael. O jogo perigoso de Mariana havia sido revelado, e agora, eles estavam preparados para lutar, juntos, pela promessa de voltar a se amar.