Voltar a te Amar II

Capítulo 2 — A Armadilha da Memória no Leblon

por Isabela Santos

Capítulo 2 — A Armadilha da Memória no Leblon

A noite em seu apartamento alugado em Copacabana foi inquieta. Sofia revirou-se na cama, o sono fugindo dela como areia por entre os dedos. As palavras de Rodrigo ecoavam em sua mente, cada uma delas um pequeno fragmento de um quebra-cabeça que ela não queria montar. "Um convite para resgatar algo que foi deixado para trás?" O que ele queria resgatar? A confiança? O amor? O tempo perdido? Parecia uma piada cruel, vinda do homem que, com a maior frieza, havia desfeito tudo isso.

Ela se sentou na cama, acendendo o abajur. A luz suave iluminou o quarto decorado com um gosto moderno e impessoal. Era um lugar que não lhe dizia nada, um refúgio temporário, assim como ela se considerava. Em São Paulo, seu apartamento era o seu santuário, repleto de objetos que contavam a história de sua vida, de sua ascensão, de suas conquistas. Ali, no Rio, ela era apenas uma visitante, fugindo de um passado que insistia em assombrá-la.

Apesar da relutância, uma força estranha a impelia em direção ao encontro. Era a necessidade de respostas, talvez. A necessidade de olhar nos olhos do homem que a quebrara e ver se restava algo dele, ou apenas o reflexo de sua própria dor. Ou talvez, a teimosia de sua alma, a recusa em ser definida apenas pela dor que ele lhe causara.

No dia seguinte, o sol brilhava impiedosamente sobre o Rio de Janeiro, mas o céu azul não conseguia dissipar a nuvem de apreensão que pairava sobre Sofia. Ela escolheu um vestido simples, mas elegante, um azul marinho que tentava projetar a serenidade que ela não sentia. Nos pés, sandálias confortáveis, adequadas para uma caminhada rápida, caso precisasse fugir.

Ao chegar ao Leblon, o bairro pulsava com uma energia vibrante. As ruas arborizadas, as lojas de grife, os cafés charmosos. Era um cenário que contrastava fortemente com a turbulência em seu interior. O café que ele mencionara era um dos seus preferidos de antigamente, um lugar aconchegante com mesas na calçada, perfeito para observar o movimento e se perder em conversas.

Ela o avistou de longe, sentado a uma mesa no canto, a xícara de café fumegante à sua frente. Ele usava uma camisa de linho clara, as mangas arregaçadas até os cotovelos. A mesma pose relaxada, o mesmo olhar perspicaz que ela se lembrava. Ela hesitou por um momento, sentindo o peso dos olhares curiosos dos outros clientes. Respirou fundo e caminhou em sua direção.

"Sofia", ele disse, levantando-se com um sorriso que, desta vez, parecia genuinamente contido. "Você veio."

"Ainda não disse que viria", ela respondeu, sentando-se na cadeira à sua frente. "Apenas aceitei um café. Nada mais."

Ele deu um leve aceno de cabeça, como se concordasse com os termos. "Entendo. Mas fico feliz que tenha vindo." Ele fez um sinal para o garçom. "Um café para a senhorita, por favor."

O garçom se afastou, e um silêncio desconfortável pairou entre eles. Sofia observava o rosto dele, buscando sinais do homem que ela conhecera. Havia rugas mais profundas ao redor dos olhos, uma gravilha no cabelo que não existia antes. O tempo deixara suas marcas, mas a essência parecia a mesma.

"Então", ela começou, quebrando o silêncio. "O que você queria conversar, Rodrigo?"

Ele suspirou, esfregando a testa. "Não sei bem por onde começar. Dez anos é muito tempo, Sofia. Muita coisa aconteceu."

"Para mim, também", ela retrucou, a voz tingida de um certo aço.

Ele a encarou, seus olhos verdes fixos nos dela. Havia uma intensidade em seu olhar que a fez desviar. "Você está bem. Você parece... realizada."

"Eu trabalho duro. E aprendi a lidar com as decepções." A indireta era clara, mas ele não pareceu se abalar.

"Eu sei que te machuquei, Sofia. E eu sinto muito. De verdade." A sinceridade em sua voz era perturbadora. Ela não esperava um pedido de desculpas, mas ouvi-lo, tão direto, a desarmava.

"Desculpas não desfazem o passado, Rodrigo."

"Eu sei. Mas talvez possam abrir caminho para o futuro." Ele pegou a xícara de café. "Eu nunca quis te machucar. As coisas... as coisas saíram do controle."

"Sairam do controle?", ela repetiu, incrédula. "Você me traiu, Rodrigo. Com a minha melhor amiga. Isso não é 'sair do controle'. Isso é uma escolha. Uma escolha deliberada de me destruir."

Ele baixou a cabeça, a expressão de dor sincera. "Eu sei. E não há desculpa para isso. Fui egoísta, imaturo. Estava confuso."

"Confuso?", Sofia riu, o som amargo se espalhando pelo ar. "Você sabia exatamente o que estava fazendo. E as consequências."

"No momento, eu não pensava nas consequências", ele admitiu, sua voz baixa. "Estava preso em uma espiral de... de coisas que não entendia. E você, Sofia, era tão perfeita, tão segura. Eu me sentia... pequeno ao seu lado. E com a Clara... era diferente. Ela me aceitava com minhas falhas."

A confissão o atingiu como um soco. Ele a via como uma ameaça? Como alguém que o diminuía? A ideia era absurda. Ela sempre o amara por quem ele era, com todas as suas imperfeições. "Então você me trocou por alguém que te aceitava com suas falhas? Alguém que sabia te diminuir em vez de te inspirar a ser melhor?"

Ele balançou a cabeça. "Não foi assim. Clara tinha uma forma de me fazer sentir... compreendido. Eu era um idiota. Um completo idiota." Ele olhou para ela, os olhos marejados. "Eu perdi a melhor coisa que já me aconteceu. E a pior parte é que eu só percebi isso anos depois."

Sofia o observava, tentando absorver suas palavras. Havia uma fragilidade nele que ela não via há muito tempo. A arrogância juvenil fora substituída por um peso de arrependimento. Mas ela ainda se perguntava se era genuíno.

"E o que te fez perceber?", ela perguntou, cética.

"O tempo. A solidão. O vazio. Clara e eu não duramos muito depois que o escândalo estourou. As pessoas nos julgaram, e com razão. E eu... eu fiquei sozinho. E comecei a pensar em você. Em tudo o que tínhamos. Em como eu joguei tudo fora por nada. Por um momento de... fuga."

Um momento de fuga. Era assim que ele descrevia a destruição de seu relacionamento? Sofia sentiu uma raiva antiga borbulhar em seu peito. "Um momento de fuga? É assim que você chama ter destruído minha confiança? Ter me humilhado publicamente?"

"Não, não foi assim", ele apressou-se em dizer, a voz cheia de desespero. "Eu sei que fui cruel. E eu vivo com isso todos os dias. Mas eu estou aqui, Sofia. Eu quis vir falar com você porque... porque eu sinto que ainda há algo entre nós. Algo que o tempo não apagou completamente."

"Você está errado, Rodrigo. O tempo não apagou, mas o que você fez, sim. E o que restou é amargura." Ela tomou um gole de café, sentindo o calor reconfortante na garganta, tentando acalmar os nervos à flor da pele.

"Amargura pode ser superada, Sofia. Com perdão. Com entendimento."

"Perdão é algo que se concede, Rodrigo. Não se exige. E entendimento... o que há para entender? Você me traiu. Fim de papo."

Ele franziu a testa. "Não é fim de papo. É apenas um capítulo. E eu sinto que podemos escrever outro. Um com um final diferente."

"Você está fantasiando, Rodrigo. Eu segui em frente. Tenho uma vida em São Paulo, uma carreira. Não tenho tempo para reviver fantasmas do passado."

"Mas o que te trouxe de volta ao Rio, Sofia?", ele perguntou, a voz baixa e penetrante. "Por que agora? Por que você veio ao Arpoador ontem?"

Ela hesitou. A verdade era que ela não sabia. Uma força invisível a puxara para lá. E agora, aqui estava ela, sentada em frente ao homem que a fizera sofrer, ouvindo suas desculpas esfarrapadas.

"Eu estava de férias. Precisava de um tempo. E o Rio sempre foi meu lugar."

"E o Arpoador?", ele insistiu. "É um lugar que você sempre gostou. Mas que agora é um lugar onde você me encontra. Coincidência?"

"Talvez seja o destino querendo nos pregar uma peça", ela respondeu, tentando manter a compostura.

Ele sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos. "Eu prefiro pensar que é o destino nos dando uma segunda chance." Ele estendeu a mão sobre a mesa, hesitante. "Sofia, eu quero tentar consertar as coisas. Não como antes, eu sei que é impossível. Mas talvez... talvez possamos ser amigos. Ou mais. Quem sabe?"

Sofia olhou para a mão dele, uma mão que outrora acariciara seu rosto com ternura, uma mão que agora estendia uma oferta de reconciliação tardia. A tentação era perigosa. Uma parte dela, a parte que ainda guardava um resquício da antiga paixão, ansiava por acreditar nele, por aceitar a possibilidade de redenção. Mas a outra parte, a parte que sobrevivera à tempestade, a advertia.

"Rodrigo, você ainda não entende", ela disse, retirando a mão. "Eu não quero. Não posso. Eu te amei com todo o meu coração. E você o quebrou em mil pedaços. E eu não sei se esses pedaços podem ser colados novamente."

Ele suspirou, o olhar de esperança vacilando. "Eu entendo que você esteja com medo. E que não confie em mim. Mas me dê uma chance. Apenas uma chance de te mostrar que mudei. Que sou um homem diferente."

Sofia se levantou, sentindo o peso da decisão. A conversa a deixara exausta, confusa. A cidade lá fora continuava vibrante, alheia à sua batalha interna. "Eu não posso, Rodrigo. Eu realmente não posso." Ela pegou sua bolsa. "Adeus."

Ele permaneceu sentado, o olhar fixo nela, um misto de desapontamento e resignação em seu rosto. "Sofia... por favor, pense nisso."

Ela não respondeu. Apenas se virou e saiu do café, deixando para trás o homem que fora o centro de seu universo e que agora era apenas um eco doloroso do passado. A rua parecia mais clara, o sol mais forte, mas a escuridão em seu coração permanecia. Ela havia fugido, como sempre. Mas desta vez, a fuga parecia mais difícil, mais carregada de incertezas. Rodrigo voltara, e com ele, a ameaça de desenterrar feridas que ela julgava estar cicatrizadas.

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