Voltar a te Amar II
Capítulo 3 — O Encontro Inesperado no Parque Lage
por Isabela Santos
Capítulo 3 — O Encontro Inesperado no Parque Lage
Os dias que se seguiram ao reencontro com Rodrigo foram um turbilhão de pensamentos e emoções conflitantes. Sofia tentava se concentrar em seu trabalho, mas a imagem dele, suas palavras, seus olhos, insistiam em invadir seus pensamentos. Ela se sentia como um barco à deriva, oscilando entre a raiva pela traição e uma curiosidade mórbida pelo homem que ele se tornara. A ideia de reencontrá-lo novamente a assustava, mas a impossibilidade de simplesmente esquecer a situação a atormentava.
Ela tentou se ocupar, marcou um jantar com amigas de São Paulo que estavam de visita no Rio, passeou pela Lagoa Rodrigo de Freitas, visitou o Jardim Botânico. Cada lugar que a levava a lembranças do passado a fazia sentir um misto de nostalgia e repulsa. Era como se a cidade estivesse cheia de fantasmas, ecos de um tempo que ela desejava esquecer.
Em uma tarde ensolarada, decidiu buscar refúgio na beleza serena do Parque Lage. O casarão histórico, a piscina com o Cristo Redentor ao fundo, os jardins exuberantes. Era um lugar de paz, um lugar onde a natureza parecia ter o poder de acalmar as almas. Ela caminhou sem rumo, absorvendo a tranquilidade do ambiente, as cores vibrantes das flores, o canto dos pássaros.
Enquanto passava por uma trilha mais afastada, ouvindo o som suave de uma cachoeira, ela o viu. Rodrigo estava sentado em um banco de pedra, um caderno de desenho no colo, concentrado em um esboço. Ele parecia perdido em seu mundo, alheio a tudo ao redor. A visão dele ali, em um ambiente tão pacífico, a fez hesitar. Deveria ir embora? Ou deveria confrontá-lo novamente?
Uma parte dela gritava para que fugisse. Outra parte, a parte mais corajosa e, talvez, mais tola, a impelia a se aproximar. Ela respirou fundo e caminhou em sua direção, o som de seus passos sobre as folhas secas quebrando o silêncio.
Ele ergueu a cabeça, surpreso ao vê-la. Um sorriso leve surgiu em seus lábios. "Sofia. O que você está fazendo aqui?"
Ela deu de ombros, tentando parecer indiferente. "Procurando paz. Algo que parece difícil de encontrar ultimamente."
Ele fechou o caderno, a expressão mais séria. "Entendo. A vida pode ser complicada."
"Você não tem ideia", ela murmurou, sentando-se em uma pedra próxima.
"Sei que você está brava comigo. E você tem todo o direito de estar." Ele suspirou, olhando para o caderno em seu colo. "Eu não sou mais o mesmo homem que te feriu, Sofia. Eu mudei. E essa mudança começou no dia em que eu te perdi."
"Mudanças não apagam o passado, Rodrigo. Elas apenas reescrevem o futuro. E meu futuro, eu já o construí sem você."
"Mas e se o destino insistir em nos cruzar?", ele perguntou, o olhar fixo nela. "E se ele estiver nos dando outra chance de... de reescrever a história?"
Sofia desviou o olhar, sentindo-se desconfortável. As coincidências estavam se tornando assustadoras. "Eu não acredito em destino, Rodrigo. Acredito em escolhas. E a sua escolha foi me destruir."
"E a sua escolha, Sofia, foi se fechar. Se proteger tanto que talvez tenha se esquecido de viver." Ele se levantou e caminhou até a cachoeira, a água espirrando em seu rosto. "Eu sei que eu te machuquei. E eu carrego essa culpa comigo todos os dias. Mas eu também me lembro do amor que tínhamos. Da conexão. E eu me pergunto se algo disso ainda resta."
Sofia observou-o, a beleza do lugar contrastando com a intensidade de suas palavras. Ela se lembrava da paixão avassaladora que sentira por ele, da cumplicidade, da sensação de que o mundo poderia ser conquistado juntos. Era difícil apagar essas memórias, mesmo com a dor que veio depois.
"O que você quer de mim, Rodrigo?", ela perguntou, a voz embargada.
Ele se virou para ela, o rosto iluminado pela luz filtrada pelas árvores. "Eu quero uma chance. Uma chance de te mostrar que eu mudei. Que o homem que te traiu não é o homem que está aqui hoje. Quero te mostrar que ainda posso te fazer feliz."
A ousadia da proposta a pegou de surpresa. Feliz? Ele achava que, depois de tudo, ele poderia fazê-la feliz? "Você perdeu a noção da realidade, Rodrigo. Você me destruiu. Não há como consertar algo que foi completamente quebrado."
"Mas e se não foi completamente quebrado? E se restaram pedaços que podem ser unidos novamente?" Ele deu um passo em sua direção, o olhar intenso. "Eu ainda te amo, Sofia. Eu nunca deixei de te amar."
A confissão soou como um trovão em seus ouvidos. Amor. A palavra que fora a base de sua felicidade e a causa de sua dor. Ela não sabia se acreditava nele. A desconfiança era um escudo que ela construíra com muito esforço.
"Você diz que me ama, mas você me traiu. Como posso acreditar em você agora?", ela perguntou, a voz tremendo.
"Porque eu cometi um erro terrível. E aprendi com ele. Aprendi que perder você foi o maior erro da minha vida. E eu estou disposto a fazer tudo para reconquistar sua confiança. Para reconquistar você."
Ele se aproximou mais, o espaço entre eles diminuindo. Sofia sentiu o coração acelerar. A proximidade dele, o perfume sutil que emanava de sua pele, a familiaridade de seu olhar, tudo isso a desarmava.
"Rodrigo, isso é loucura", ela sussurrou.
"É a loucura do amor, Sofia. É a chance que todos nós esperamos. Uma segunda chance." Ele estendeu a mão, e desta vez, ela não recuou. Seus dedos se entrelaçaram, uma faísca de eletricidade percorrendo seu corpo.
Ele a puxou gentilmente para perto. Seus rostos estavam a centímetros de distância. Sofia podia sentir sua respiração, seu calor. Seus olhos se encontraram, e por um instante, ela viu o reflexo do amor que um dia compartilharam.
"Eu não sei se consigo, Rodrigo", ela disse, a voz quase inaudível.
"Apenas tente", ele sussurrou, seus lábios roçando os dela. "Apenas me dê uma chance de te amar de novo."
E então, ele a beijou. Um beijo que começou suave, hesitante, e que gradualmente se aprofundou, carregado de saudade, arrependimento e uma paixão que parecia ter sobrevivido ao tempo e à dor. Sofia se deixou levar, cedendo à tentação, permitindo que o fantasma do passado a envolvesse mais uma vez.
Quando o beijo terminou, eles se afastaram lentamente, a respiração ofegante. Sofia sentiu uma mistura de euforia e pânico. Ela havia cedido. Havia se permitido cair na armadilha da memória, na promessa de um amor reencontrado.
"Eu não sei o que estou fazendo", ela murmurou, sentindo as lágrimas brotarem em seus olhos.
"Você está se permitindo sentir de novo, Sofia", ele disse, acariciando seu rosto. "E isso é um começo."
Ela o encarou, perdida em um mar de emoções. O homem à sua frente era familiar e ao mesmo tempo um estranho. Ele a havia magoado profundamente, mas o beijo, as palavras, a intensidade de seus sentimentos, tudo isso a fez questionar suas certezas.
"Eu não posso prometer nada, Rodrigo. Mas... eu não vou fugir mais."
Um sorriso de alívio cruzou o rosto dele. "E para mim, isso é o suficiente."
Eles passaram o resto da tarde conversando, caminhando pelos jardins do Parque Lage. Rodrigo contou sobre sua vida após o término, sobre seus arrependimentos, sobre sua busca por redenção. Sofia ouviu, absorvendo cada palavra, tentando decifrar a verdade por trás de suas confissões. Ela ainda estava desconfiada, ainda guardava a dor em seu coração, mas algo havia mudado. A porta para a possibilidade, antes firmemente fechada, agora estava entreaberta. A sombra do passado, que antes a assombrava, agora parecia oferecer um vislumbre de um novo amanhecer.