Voltar a te Amar II
Aqui estão os capítulos 6 a 10 de "Voltar a Te Amar II", escritos no estilo solicitado:
por Isabela Santos
Aqui estão os capítulos 6 a 10 de "Voltar a Te Amar II", escritos no estilo solicitado:
Voltar a Te Amar II Autor: Isabela Santos
Capítulo 6 — O Perfume do Passado na Lapa Boêmia
A noite na Lapa pulsava com uma energia que só o Rio de Janeiro sabia conjurar. O samba escapava dos bares como um convite irrecusável, misturando-se ao aroma de cerveja gelada, frituras e o doce perfume das flores que brotavam em alguns vasos improvisados nas calçadas. Joana, sentada a uma mesa discreta no Arcos da Lapa, observava o movimento com um misto de nostalgia e apreensão. A cada acorde de cavaquinho, sentia as memórias de um tempo mais simples, de uma juventude despreocupada, a assaltá-la.
Desde o encontro fortuito com Daniel no Parque Lage, sua vida se tornara um turbilhão. As lembranças de Clara, sua irmã gêmea, que falecera anos antes de forma trágica, pesavam como uma âncora em seu peito. Daniel, com seus olhos intensos e a mesma melodia que ele costumava tocar em seu violão naquela época, parecia um portal para um passado que ela tentara enterrar.
Ela tomou um gole de caipirinha, sentindo o limão e a cachaça aguçarem seus sentidos. O som de uma risada familiar a fez sobressaltar. Virou a cabeça lentamente, e lá estava ele, Daniel, no meio da multidão, conversando animadamente com um grupo de amigos. Ele parecia o mesmo, os cabelos levemente grisalhos nas têmporas apenas adicionavam um charme maduro ao seu rosto, que ela conhecia tão bem. O coração de Joana deu um salto doloroso.
Ele a viu. Um lampejo de surpresa, seguido de um sorriso que parecia iluminar a noite escura da Lapa. Daniel se desvencilhou dos amigos e caminhou em sua direção. A cada passo, o tempo parecia se dilatar. Joana sentiu um nó na garganta, o medo e a excitação dançando em seu estômago.
"Joana?", a voz dele, um pouco mais rouca que antes, mas inconfundível, a chamou.
Ela não conseguiu falar. Apenas assentiu, um pequeno movimento de cabeça que parecia carregar o peso de todos os anos que haviam passado.
"É você mesmo? Não estou sonhando, estou?", ele perguntou, parando a poucos passos dela. Os olhos dele a percorriam, um misto de admiração e uma ponta de tristeza que Joana não souvia decifrar.
"Sou eu, Daniel", ela finalmente conseguiu dizer, a voz embargada.
Um silêncio carregado se instalou entre eles, preenchido apenas pela música alta e o burburinho da noite. Daniel se sentou na cadeira vaga à sua frente, sem pedir permissão. Parecia natural, como se nunca tivessem se separado.
"Eu… eu não esperava te ver aqui. Nem em lugar nenhum", Joana confessou, desviando o olhar para a taça.
"Também não esperava. Mas o Rio é pequeno, não é?", ele disse, com um sorriso leve. "Ou talvez o destino tenha um senso de humor peculiar."
"Ou talvez seja apenas uma coincidência.", ela respondeu, tentando manter a voz firme.
"Coincidências são apenas os desígnios de Deus que ainda não entendemos, Joana. E você… você está linda. Como sempre." As palavras dele a atingiram como um raio. Eram as mesmas palavras que ele dizia naquela época, quando eles se amavam com a intensidade de quem acredita que o amor é eterno.
Joana corou. "Você também não mudou muito, Daniel." Era uma mentira. Ele havia mudado, assim como ela. Mas a essência, a alma que ela conhecia, parecia intacta.
"Ah, mudamos. Todos mudamos. Mas algumas coisas… algumas coisas permanecem", ele disse, e seu olhar se demorou em seus olhos. Era um olhar que ela sentia que a penetrava, lendo seus pensamentos mais secretos. "Sinto que o tempo não passou para nós dois. É estranho, não é?"
"É… perturbador", ela admitiu. Aquele sentimento de familiaridade, de conforto que ela sentia com ele, era o mesmo que a assustava. Era como voltar a um lar que ela abandonou, sem saber se seria bem-vinda.
"Perturbador ou… reconfortante?", Daniel sugeriu, a voz suave. "Lembra daquela noite, aqui perto, na rua do Lavradio? Você estava com aquele vestido azul, e eu te disse que seus olhos brilhavam mais que as estrelas do céu."
Joana fechou os olhos por um instante, a imagem vívida. Aquele dia, eles haviam passado a noite em claro, se descobrindo, se amando sob o céu estrelado do Rio. "Lembro", ela sussurrou.
"E você me disse que eu era o único que sabia fazer seu coração cantar. Ainda canta, Joana?" A pergunta pairou no ar, carregada de significado. Era uma pergunta sobre o presente, sobre o que ela sentia agora.
Ela engoliu em seco. "Daniel, nós… não podemos voltar no tempo."
"Eu sei que não podemos voltar no tempo. Mas podemos criar novas memórias, Joana. Podemos tentar, de novo. Não é isso que o destino nos oferece com essa… coincidência?" Ele estendeu a mão sobre a mesa, hesitando por um momento antes de cobrir a dela. A pele dele era quente, familiar.
O toque dele foi como um choque elétrico. Joana sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Ela queria afastar a mão, fugir daquele momento, mas seus dedos pareciam grudados aos dele. A música, o cheiro da Lapa, tudo se misturou em um redemoinho de sensações.
"Eu não sei se consigo, Daniel", ela disse, a voz trêmula. "Tanta coisa aconteceu."
"Eu sei. Eu também sei. E eu… eu sinto muito por tudo que você passou. Principalmente por causa de Clara", ele disse, a tristeza em sua voz genuína. "Ela era especial. E eu nunca me esqueci dela."
As palavras sobre Clara a atingiram com força. Era como se um balde de água fria tivesse sido derramado sobre sua excitação. A memória de sua irmã, sua dor, tudo voltou à tona. Ela retirou a mão devagar.
"Clara… ela era tudo para mim, Daniel. E a forma como tudo acabou… me marcou para sempre." Os olhos de Joana encheram-se de lágrimas.
Daniel a observou, seus olhos cheios de compaixão. "Eu sei, Joana. E sinto muito. Mas ela gostaria de te ver feliz. Tenho certeza disso."
"Feliz? Daniel, como posso ser feliz depois de tudo? Clara se foi, e eu… eu me perdi. Me afoguei na dor." As lágrimas começaram a rolar livremente pelo seu rosto.
Daniel pegou um guardanapo e delicadamente secou uma lágrima que escorria pela sua bochecha. O gesto era íntimo, terno. "Você não está perdida, Joana. Você está aqui, na Lapa, bebendo caipirinha, e eu estou aqui com você. Isso não é um sinal?"
"Um sinal de quê? De que o passado não nos deixa em paz?", ela perguntou, a voz embargada.
"Um sinal de que talvez… talvez ainda haja uma chance. Uma chance de consertar o que foi quebrado. Uma chance de voltar a te amar."
As palavras dele ressoaram na noite, misturando-se ao som do samba. Voltar a te amar. Era o título do livro de sua vida, que ela achava que já havia sido escrito e encerrado. Mas Daniel parecia querer reescrevê-lo.
"Eu… eu não sei se posso, Daniel", ela repetiu, a incerteza a dominando.
"Apenas pense nisso, Joana. Apenas pense. Se você decidir que sim, me procure. Se decidir que não… eu respeitarei. Mas você precisa saber… você ainda mora no meu coração." Ele se levantou, deixando algumas notas sobre a mesa. "Preciso ir agora. Meus amigos estão me esperando. Mas… espero te ver de novo."
Ele se virou e desapareceu na multidão, deixando Joana sozinha com seus pensamentos, o perfume do passado pairando no ar, o eco de suas palavras em sua alma. A Lapa, antes um lugar de celebração, agora parecia um palco de suas próprias angústias e desejos. Ela olhou para a mão que ele havia tocado, sentindo o calor residual, e soube que sua vida nunca mais seria a mesma. A armadilha da memória, o encontro inesperado, a sedução da familiaridade… tudo culminava naquele momento, naquela encruzilhada de sentimentos e do passado que se recusava a ficar adormecido.