Voltar a te Amar II
Capítulo 7 — O Segredo Sussurrado na Vila Olímpia
por Isabela Santos
Capítulo 7 — O Segredo Sussurrado na Vila Olímpia
A Vila Olímpia, com seus arranha-céus modernos e o burburinho constante do trabalho, era o oposto da boemia da Lapa. Joana sentia a frieza do concreto e do vidro, um contraste gritante com o calor humano que ela havia experimentado na noite anterior. A conversa com Daniel a deixara inquieta, um furacão de emoções que a impedia de se concentrar.
Ela estava em uma cafeteria elegante, tentando trabalhar em um relatório, mas as palavras no computador pareciam dançar sem sentido. A imagem de Daniel, seu toque, suas palavras… tudo se repetia em sua mente. "Voltar a te amar." A frase a assombrava. Seria possível? Depois de tantos anos, de tanta dor, de uma vida construída sobre as ruínas de um amor perdido?
Seu celular tocou, um toque que ela não reconhecia. Curiosa, atendeu.
"Alô?", disse Joana, a voz um pouco mais hesitante do que gostaria.
"Joana? Sou eu, Daniel." A voz dele, mesmo através do telefone, trazia de volta o calor e a intensidade do dia anterior.
Ela sentiu um frio na barriga. "Daniel. Oi."
"Eu sei que te peguei de surpresa ontem. Mas eu… eu precisava falar com você. Se você tiver um tempo… eu gostaria de te encontrar. Para conversar, sem pressa. Sem a música alta da Lapa. Apenas nós."
Joana hesitou. Seu instinto dizia para fugir, para se esconder. Mas outra parte dela, uma parte que ela pensava ter morrido com Clara, estava curiosa. Daniel era uma parte de seu passado, mas talvez também fosse uma chave para o seu futuro.
"Onde você gostaria de se encontrar?", ela perguntou, surpreendendo a si mesma com a pergunta.
"Eu sei de um lugar. É mais tranquilo. Uma livraria antiga em um bairro mais reservado. Você conhece a Livraria Aconchego, no Tatuapé?"
Joana pensou por um momento. Sim, ela conhecia. Era um lugar charmoso, repleto de livros antigos e um café perfumado. Era um lugar perfeito para uma conversa discreta.
"Sim, eu conheço. Quando?", ela perguntou, sentindo uma mistura de medo e excitação.
"Daqui a uma hora? Eu te espero na entrada."
"Combinado", ela disse e desligou, o coração batendo acelerado.
Uma hora depois, Joana estacionou seu carro em frente à Livraria Aconchego. O prédio, com sua fachada antiga e janelas de madeira, exalava um ar de nostalgia. Daniel estava lá, encostado em uma das colunas, o mesmo sorriso gentil no rosto. Ele usava uma camisa de linho clara e calças jeans, um visual mais casual do que na noite anterior.
"Oi, Joana", ele disse, abrindo caminho para ela entrar.
"Oi, Daniel", ela respondeu, sentindo o olhar dele sobre ela.
A livraria era como ela se lembrava. O aroma de papel antigo e café pairava no ar. Eles se sentaram em uma mesa no fundo, perto de uma estante de livros de poesia.
"Obrigado por ter vindo", ele disse, genuinamente grato.
"Eu… eu precisava entender algumas coisas", Joana respondeu, escolhendo cuidadosamente suas palavras.
Daniel assentiu. "Eu também. Joana, eu sei que o que aconteceu com Clara… foi devastador. Para todos nós. Mas eu nunca culpei você. E eu sei que ela te amava muito."
A menção a Clara sempre trazia um aperto no peito de Joana. "Às vezes, sinto que a culpa é minha. Por não ter conseguido protegê-la."
"Ninguém poderia ter previsto o que aconteceu, Joana. E você fez o seu melhor. Eu vi. Eu estava lá."
Aquelas palavras a atingiram como um soco. Ele estava lá? Ela não se lembrava dele ter estado presente naquele fatídico dia. A memória de Clara, de sua queda, era um borrão de desespero.
"Você estava lá?", ela perguntou, a voz cheia de incredulidade.
Daniel hesitou, e pela primeira vez, Joana viu um lampejo de algo em seus olhos que não era apenas ternura. Era algo mais profundo, mais complexo. "Sim, Joana. Eu estava lá. Eu a vi cair."
O sangue gelou nas veias de Joana. A imagem de Clara caindo do terraço do prédio onde moravam. A confusão. O desespero. E Daniel… ele a viu?
"Você… você viu como ela caiu? Foi um acidente? Alguém a empurrou?", as perguntas saíram em um jorro, a urgência em sua voz era palpável.
Daniel olhou para as próprias mãos, as unhas pressionadas na palma. "Joana, eu… eu preciso te contar a verdade. A verdade que eu guardei por todos esses anos. E talvez… talvez não seja fácil de ouvir."
Joana sentiu um medo crescente. Aquele medo que ela sentira na Lapa, mas multiplicado por mil. "Me conte, Daniel. Por favor. Preciso saber."
"Naquele dia… Clara não caiu. Ela… ela se jogou." As palavras dele pairaram no ar, pesadas como pedras.
Joana cambaleou para trás, a mão cobrindo a boca para sufocar um grito. "Não… não pode ser. Ela não faria isso. Ela me amava. Amava a vida."
"Ela amava a vida, Joana. Mas ela estava sofrendo. Mais do que você imaginava. Ela estava… com medo. Com medo de algo que estava acontecendo. Algo que ela não conseguia te contar."
"Medo de quê? De quem?", Joana exigiu, os olhos fixos em Daniel. "Você sabe de alguma coisa, Daniel? Você sabe quem a machucou?"
Daniel olhou para ela, seus olhos profundos e cheios de dor. "Joana, Clara estava sendo ameaçada. Por alguém que ela conhecia. Alguém que estava se aproveitando dela. Ela me contou, dias antes. Ela estava aterrorizada."
A revelação atingiu Joana como um raio. Clara, sua irmã forte e vibrante, sendo ameaçada? "Quem era esse alguém, Daniel? Quem a estava machucando?"
"Ela não me disse o nome. Ela tinha medo de que ele a encontrasse se ela falasse. Mas ela me contou que era alguém que frequentava os mesmos círculos que nós. Alguém que eu também conhecia."
Joana sentiu o estômago revirar. "Você… você sabe quem é essa pessoa e não me contou por todos esses anos?"
"Eu queria contar, Joana. Mas ela me implorou para não fazer isso. Ela disse que precisava resolver sozinha. E eu… eu não a escutei. Eu deveria ter te contado. Eu deveria ter te protegido também." A voz de Daniel estava embargada.
"E você a viu se jogar? E não fez nada?", Joana perguntou, a voz cheia de acusação e dor.
"Eu tentei impedi-la! Eu gritei! Mas ela… ela estava determinada. Ela disse que era a única maneira de se libertar. E quando ela se jogou… eu fiquei paralisado. Pelo choque. Pelo desespero." Daniel cobriu o rosto com as mãos, o corpo tremendo.
Joana o observava, a raiva inicial dando lugar a uma compaixão misturada com uma dor lancinante. Ele também havia sofrido. Ele também havia perdido Clara.
"Daniel… quem era essa pessoa?", ela sussurrou, a voz quase inaudível.
Ele baixou as mãos, os olhos vermelhos. "Era… era o Marcos."
Marcos. O nome ecoou na mente de Joana como um trovão. Marcos, o ex-namorado de Clara. Um homem charmoso, mas com um lado obscuro que ela nunca havia percebido completamente. Ele a havia manipulado, a pressionado. E agora, ela sabia que ele a havia levado ao desespero.
"Marcos… eu deveria ter percebido. Ele sempre foi tão possessivo. Tão controlador." Joana sentiu uma onda de ódio por aquele homem, um ódio que a consumia.
"Ele a sufocou, Joana. Ele a fez sentir que não havia saída. E eu… eu me sinto tão culpado por não ter feito nada para impedi-lo antes."
"Não, Daniel. A culpa não é sua. A culpa é dele. Ele é o monstro que tirou minha irmã de mim. E eu vou fazer ele pagar." A determinação em sua voz era férrea.
Daniel a olhou, os olhos cheios de uma nova esperança. "Você não está sozinha nisso, Joana. Eu vou te ajudar. Eu sei de muitas coisas sobre ele. Coisas que podem nos ajudar a provar o que ele fez."
Joana assentiu, sentindo uma força que não sabia que possuía. A dor da perda de Clara estava se transformando em um fogo consumidor, um fogo que a impulsionaria a buscar a verdade e a justiça.
"Daniel", ela disse, olhando-o nos olhos, "você disse que ainda me ama. Talvez… talvez esse seja o motivo pelo qual estamos aqui. Para nos ajudarmos. Para encontrarmos a verdade juntos."
Um sorriso triste, mas esperançoso, surgiu nos lábios de Daniel. "Talvez, Joana. Talvez seja exatamente isso."
Naquele dia, na Livraria Aconchego, um antigo segredo foi revelado. E com ele, nasceu uma nova força, uma força forjada na dor e no amor, que prometia desvendar a verdade e, quem sabe, encontrar um caminho de volta um para o outro. A Vila Olímpia, antes um símbolo de modernidade fria, agora representava o palco de uma revelação que mudaria suas vidas para sempre.